Nárnia & as alegorias

Acabo de ver As crônicas de Nárnia. Ler o livro é algo fora de cogitação, aviso de uma vez; e, de qualquer modo, sempre fico mais interessado no enredo do que na imagem, o que deve atenuar a parcialidade do meu julgamento. Se não atenuar, é simples: entendam que estou julgando a obra do roteirista, não o romance original de C. S. Lewis.

Meu problema com o filme é que ele é muito obviamente uma alegoria da história de Cristo, apenas contada do ponto de vista do homem. Se me permitem dizer o óbvio, não me parece que seja possível recontar a narrativa evangélica de modo a concorrer com os evangelistas – e lembrem-se de que me interessa o roteiro, não a realização visual – e também não creio que o uso de recursos pirotécnicos como faunos e centauros seja exatamente uma contribuição positiva àquela história em particular.

O problema, repito, está na alegoria. Uma alegoria pode ser poderosa se primeiro for poderosa em sua literalidade. A tragédia de Édipo comove o espectador porque Édipo efetivamente mata o pai, casa com a mãe etc. Depois um médico vienense (por quem tenho mais simpatia do que vocês imaginam) pode ter criado uma teoria e ter tratado a história de Édipo como alegoria, mas é difícil imaginar que um belo dia um bando de gregos que sabiam tudo de psicanálise tenham se reunido e pensado: “ei, vamos fazer uma alegoria sobre os nossos desejos reprimidos”. Se tivesse sido assim, o que teríamos seriam os filmes do Bergman. Ou histórias repletas de “simbolismo”.

Parece existir um intrigante paradoxo. No princípio era o logos, nos diz São João. É bem verdade que o logos não é uma tese, mas uma pessoa; e também é verdade que logo depois de dizer que no princípio era o logos, o evangelista principia a contar um mythos, uma história. O fato de o logos ser uma pessoa nos afasta, desde o ponto de vista do enredo, da narrativa que pretende apenas afirmar uma tese (ver o que Walter Kerr diz sobre a thesis play), como por exemplo “devemos cuidar do nosso semelhante”, “os trabalhadores merecem salários melhores” ou “salvem as baleias”. Afinal, Cristo afirma muitas teses distintas e não pode ser reduzido a nenhuma delas – o que, antes que venham os místicos de laptop, não é o que O torna especial: qualquer um pode dizer várias coisas de si mesmo e não se identificar completamente com nenhuma dessas coisas. Isto mostra que o logos é Cristo mas Cristo é mais do que o logos, porque se Ele fosse apenas o logos bastaria afirmar alguma tese e pronto (por favor, eu não estou entrando na doutrina da Trindade), e que São João sabia disso muito bem, tanto que diz que o logos era Deus, e não que Deus era o logos.

(E agora me parece que o problema com Guénon, Schuon, Boheme, Hegel etc é este: querer reduzir Deus ao logos.)

No entanto, nada nos impede de reduzir a narrativa evangélica a um logos, a uma estrutura: o Deus infinito perdoa os homens dos pecados e os salva através da imolação de Seu Filho. Claro que poder reduzir a narrativa do Evangelho a isto não prova rigorosamente nada exceto que é possível reduzir a narrativa do Evangelho a isto, com todos os riscos habituais das reduções e muito mais. O ponto importante, para voltarmos à obra de Lewis, é que se você destacar do Evangelho a sua estrutura básica, fazendo com ele mais ou menos aquilo que Freud fez com Édipo Rei, você pode gerar um número indefinido de narrativas, ou mitos. Só que não é assim que nasce a boa narrativa; de algum modo que não sei explicar, ela parece nascer de outra fonte. Da observação, da inspiração divina, do daimon dramatúrgico, do talento individual, do que seja: mas não do simples desejo de transpor narrativamente uma estrutura lógica pré-existente na consciência do autor. O resultado, como vemos no filme, é que a estrutura fica balançando na sua frente, e você já sabe o que vai acontecer simplesmente porque sabe como a máquina funciona, e não porque, como sucedia aos antigos gregos e ainda a nós, simplesmente lembramos da seqüência de acontecimentos que têm poder em sua literalidade, e não que tentam afetar o mesmo poder através da sua figuratividade.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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