Fraude acadêmica

Removi os anúncios do Google. Já tivemos alguns muito engraçados, dada sua inadequação, como o da Igreja Positivista do Brasil. Confesso que me divertiam bem mais do que me desagradavam. Mas ontem o Google trouxe o anúncio de uma fraude, e fraude most foul: a venda de monografias e trabalhos acadêmicos.

No dia 7 de setembro de 1995 eu tive minha primeira aula universitária na NYU. Em todas as matérias que cursei ali, a primeira coisa que o professor fez foi entregar os alunos uma folha em que todas as conseqüências terríveis de qualquer plágio ou fraude acadêmica estavam listadas, das quais a mais branda era um convite amigável para que o aluno simplesmente sumisse da universidade. Conheço histórias de pessoas que, em outras faculdades, plagiaram um parágrafo em uma tese de doutorado inteira e enfrentaram este tipo clemente e misericordioso de expulsão. Note bem que no Brasil quase todos os doutorados são custeados pelo governo, então não sabemos o quanto eles custam. Nos EUA também há muitas bolsas, mas o valor é conhecido de todos. Os alunos de doutorado que plagiaram o parágrafo perderam não apenas a possibilidade do título naquela instituição como várias dezenas de milhares de dólares, os quais provavelmente tiveram que reembolsar, se bolsistas.

É verdade, por outro lado, que os textos medievais, inclusive de São Tomás de Aquino, estão repletos de citações erradas e apropriações. Também é verdade que a obsessão com o plágio é fruto da valorização, inclusive capitalista, da propriedade intelectual e que há países, como a França, onde o costume aparentemente é não citar nada. Ainda assim, é muito mais honroso saber citar adequadamente do que levar o leitor a crer que o autor do texto também é autor da idéia apresentada. Ninguém vai ignorar que no meio acadêmico há competição por bolsas e empregos, e que o critério para obtê-los é a produção intelectual. Assim, um certo desleixo com a citação pode ser aceitável num meio acadêmico em cujo centro estão as idéias, como o meio europeu medieval, mas não num meio em cujo centro está uma estrutura burocrática, pública e privada, que concede salários e bolsas.

No caso do plágio e da compra de trabalhos acadêmicos por simples universitários e alunos de primeiro e segundo grau (ok, do ensino fundamental e médio), fica só uma pergunta: se o critério da expulsão fosse aplicado a todos os alunos meliantes, quantos restariam nas salas de aula?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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