Planejadores mundiais

Pessoalmente, sou contra a existência do Ministério da Educação e do ensino obrigatório (aliás, sou contra tudo que é obrigatório), mas tenho plena consciência de que estas venerandas instituições tão cedo não assumirão seu lugar devido em meio ao lixo da História.

Tenho, no entanto, uma preocupação mais realista: boa parte da educação que é dada nas escolas de primeiro e segundo grau estimula os alunos a se colocar no papel de planejadores mundiais, sem que ninguém aponte o extremo absurdo que há nisto. Uma professora de ginásio não teria coragem de propor como tema de redação algo como “soluções para a família da Maricotinha”, até porque logo a mãe da Maricotinha protestaria, coberta de razão: “Na minha casa mando eu. Cada um que vá discutir a sua própria família.” Mas não há qualquer constrangimento em se propor soluções para o país e o mundo – enfim, para todos aqueles que a força da retórica faz com que sejam percebidos como ausentes – , como se estes não fossem constituídos de famílias tão reais e tão cheias de liberdade e autonomia quanto a da Maricotinha.

A escola acaba virando uma espécie de escola profissionalizante que só prepara para uma profissão: a de secretário-geral de uma ONU superpoderosa, ou, se preferirem, príncipe deste mundo. Só não posso dizer que disto resultará uma elevada taxa de desemprego porque um dos nomes deste trabalho é legião.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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