Economia livre, intelectuais entorpecidos

Dois detalhes curiosos sobre a “crise política”.

O primeiro é que a “paralisação do país” em razão da crise, tão criticada pela imprensa, é uma verdadeira bênção. Já se tornou um clichê a frase do Roberto Campos segundo a qual, no Brasil, a economia cresce à noite, enquanto o Estado dorme. Com o Estado paralisado pela perseguição aos corruptos, talvez aqueles que exercem trabalho efetivamente produtivo encontrem mais espaço para crescer.

O segundo é que o momento mais patético de todos, mas, ao mesmo tempo, aquele que deixou mais patente a absoluta inanição intelectual e moral da esquerda, foi a organização de um ciclo de palestras por (quem mais?) Adauto Novaes, sob o título “O Silêncio dos Intelectuais”.

A primeira intelectual a quebrar o silêncio foi Marxilena Chauí, cuja palestra ganhou as primeiras páginas dos jornais (por que, Meu Deus, por quê?). Ela limitou-se a dizer que sofre uma indignação de causa ignorada, e acrescentou que o PT caiu “numa armadilha tucana”.

Como a revelar, imediatamente, que a distinção entre PT e PSDB é uma tolice, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso apressou-se a dizer que “respeita Marilena como filósofa”.

Mas o que a palestra revela é que nada há a respeitar. E, nesse ponto, Marilena se mostra um verdeiro símbolo da reação abilolada da intelectualidade – uma espécie de imbecil-síntese. Essa gente está em silêncio porque se habituou a falar pelos cotovelos repetindo chavões partidários, e, de repente, diante da exposição pública da falência do Partido, se viu sem ter mais o que dizer. Está em silêncio porque se desacostumou de pensar com a própria cabeça, e preferiu abdicar de sua própria consciência em prol de uma fraude coletiva.

Era melhor que continuassem calados. O silêncio solitário pode ser o ponto de partida para a tomada de consciência. Mas já se vê que optaram pela tagarelice conjunta – que é sempre um excelente estímulo ao embotamento mental.