Sobre crer & não crer

Eu nunca fui ateu. Já tive idéias muito diferentes de Deus, já me afastei e me aproximei da Igreja, mas nunca deixei de crer. Quando criança e adolescente, lia com o máximo interesse tudo sobre religião, e talvez este seja mesmo o meu assunto favorito. Isto não quer dizer que eu nunca tenha duvidado; mas eu sei bem que nunca duvidei como um ateu, nunca apostei a minha vida na inexistência de Deus, como já a apostei na incognoscibilidade da coisa-em-si, ou na idéia de que o conhecimento mesmo é impossível, no tempo em que eu era kantiano e maluco (eu também já fiz teatro, aliás). Mas abandonei estas idéias, e não acho que a fé seja o oposto do conhecimento. Há momentos em que tudo é nítido, claro, e outros – a grande maioria – em que é preciso ter fé. Fé vem de “fides”, fidelidade, fidelidade àqueles momentos. É um bocado como uma relação humana: se Deus não te atendesse e não Se mostrasse de quando em quando você nunca lhe daria credibilidade, assim como você não toleraria uma namorada ou um amigo que, além do business as usual da afeição (a afeição de Deus é demonstrada pela relativa regularidade da natureza), não lhe desse uma demonstração especial de tempos em tempos. Acredito que a serenidade de um santo – consummation devoutly to be wished – vem de estar sempre na presença de Deus, enquanto que para nós essa presença não é tão constante, porque esquecemos muito d’Ele. Não é difícil esquecer de Deus; as coisas não acontecem como queremos e temos uma séria propensão a ver o trágico em coisas relativamente banais.

Há alguns meses eu tenho tido grande interesse pelo ateísmo. Como alguém pode ser ateu? Como alguém pode ser ateu e sinceramente bom? Quando eu comecei a fazer estas perguntas seriamente, percebi que eu sempre supus que um ateu fosse alguém incapaz de maravilhar-se com as coisas, porque para mim Deus sempre esteve ligado às coisas maravilhosas. Diante delas, tão repletas de sentido, é impossível não perceber que há uma Inteligência que as fez. Claro que podemos atribuir uma partita de Bach à inteligência do Sr. Bach, mas o que fazer, por exemplo, diante de uma pessoa belíssima? Podemos, com sinceridade de coração, atribuir sua beleza à ação aleatória da natureza? Nisto eu nunca acreditei, mas admito que seja possível ficar com uma versão, digamos, reducionista, que é exatamente a da mitologia grega, sobretudo em sua visão homérica. Podemos chamar as coisas tremendas deste mundo de deuses, e dizer que estão presentes aqui ou ali, mas estes deuses não são outra coisa além de aspectos deste mesmo mundo. De qualquer modo, assim eu percebi que o ateu poderia se relacionar com a grandeza talvez através de uma leitura simbólica da religião grega antiga (supondo que os sacerdotes da antiga Hélade não achassem que Apolo é um símbolo, mas um deus, um indivíduo pessoal), por exemplo, mas isto fez com que ficasse claro que então eu falava de um tipo específico de ateu – não aquele que recusa especificamente a literalidade de Zeus, Brahma, ou Tupã, mas aquele que recusa a literalidade do Deus dos judeus e dos cristãos, que recusa o Sinai e o Calvário, e sobretudo a Ressurreição.

Voltando à questão da inteligência, a presença divina sempre foi para mim um dado, e só depois uma conclusão; era uma questão de percepção, não de raciocínio. Encarada a partir de silogismos, estes nos levam ao primum mobile aristotélico e não ao Deus pessoal, o que cria um outro problema, porque da existência de Deus não se deduz a validade de nenhuma religião, isto é, não há necessariamente que aceitar que Deus quis estabelecer um certo tipo de relação com a humanidade e que revelou determinados aspectos de Si. É possível, inclusive, aceitar a existência de Deus e com ela várias perspectivas contrárias ao Cristianismo, acreditando por exemplo que há um deus, mas ele não se interessa por nós, ou que há um deus, mas ele está na natureza, como na (satânica) formulação de Paul Éluard: “há outros mundos, mas estão neste”.

Falando destas coisas com um amigo, perguntei o que ele achava de haver ateus que, ainda que sigam os passos de uma demonstração da existência de Deus como as de Aristóteles e São Tomás, não conseguem admitir a conclusão. Ele contou ter lido em um livro que os ateus esperariam que estas provas não fossem meros argumentos, mas que trouxessem um efeito catártico imediato, que a “máquina do mundo” se abrisse na frente deles ou algo assim. Não sei se é isso mesmo que os ateus esperam; talvez cada um espere uma coisa. Talvez, ainda, seja pela ausência desta catarse que acabem rejeitando a demonstração. Eu realmente não sei. Eu confesso que para mim é muito difícil acreditar em ateus e estou fazendo uma força muito grande para entendê-los.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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