Tolerância, verdade e Cristianismo

(Momento nerd: esta foi a primeira coisa que escrevi com o OpenOffice 2.0 Beta)

Um dos tempos mais interessantes da história foi o da convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos na Espanha medieval. Ricardo Costa, historiador carioca radicado em terras capixabas, fala de como as três religiões conviviam e como isto se reflete na obra de Ramón Llull. O mais interessante é o seguinte: a tolerância entre as três religiões não se deu por causa do desejo comum de “paz mundial”, nem para “defender valores”; não foi uma espécie de “unidade imanente das religiões”. Nenhuma das religiões jamais deixou de se considerar a explicação total do mundo, nem passou a aceitar ser explicada por uma das adversárias. Os judeus não aceitaram a vinda do Messias, os cristãos não deixaram de culpar os judeus pela morte de Jesus, e os muçulmanos não deixaram de ver a ambos como simples “povos do Livro”, meros antecessores da sua posição privilegiada porque última da “profecia” (“Maomé: precursor de Joachim de Fiore?” Aí está minha tese para o dia em que eu decidir fazer um mestrado em teologia.) O que manteve a convivência foi, ao que parece, uma abdicação comum – Ricardo que me corrija – do uso da força em nome da conversão.

Se isto é verdade, o “fundamentalismo” parece ser uma das bases da tolerância. Claro que aqui falo do “fundamentalismo” no sentido lato contemporâneo, isto é, o termo pejorativo que indica simplesmente as pessoas que agem de acordo com suas próprias convicções. Uma coisa, afinal, é ter uma convicção e defendê-la apaixonadamente; outra, completamente diversa, é acreditar que se deve submeter as pessoas a alguma crença ou prática através da força física. Uma pessoa que realmente tem uma convicção, testada e experimentada dentro da própria alma, sempre crê que a verdade tem um poder próprio, intrínseco, e fica admirada e desapontada com a incapacidade que outros possam ter de não atinar com ela. Deste admiração nasce o desejo de ampliação dos meios retóricos, de estudar mais; pois, sendo impossível que a verdade não tenha este poder, o impedimento à persuasão dos outros só pode estar na sua transmissão. Já o desejo de impor as próprias crenças por meio da força física (ou da erística, da programação neurolingüística e outros meios psicológicos escusos) nasce de uma fonte completamente diversa, que é justamente a fragilidade da convicção pessoal, necessitada portanto de mil confirmações exteriores. Para o cognitivamente frágil, o sucesso da imposição da crença fica valendo como “prova” da sua “veracidade”, enquanto que para o forte a sua certeza interior basta: mais fácil negar a presença dos objetos sensíveis do que a verdade vista com os olhos do intelecto.

Por isso fico tentado a crer que o período de tolerância na Espanha medieval se deu porque ela era, de todo modo, mais cristã do que judaica ou muçulmana: o Cristianismo traz embutido em si a noção de que, em 99% dos casos, a verdade não triunfará, e que sua fragilidade exterior é, de certo modo, normal. Afinal, Cristo foi crucificado, e só voltará no final dos tempos; já o Deus de judeus e muçulmanos está associado necessariamente a certas posições políticas – o judeu se define, de certo modo, por estar na Terra Prometida, na diáspora ou no cativeiro – e o muçulmano já tem um projeto de sociedade global que não pode ser modificado. Os dois se colocam em dois pontos da “profecia”, prólogo e epílogo, enquanto que o cristão está acima dela. O cristão pode entender que a tolerância pode ser uma necessidade permanente (“Pobres sempre os terei”, em Jo 12, 8; Ma 14, 7; Mt – por que interpretar esta sentença só no sentido de pobres de bens materiais?), mas o judeu a entenderá como provisória (um dia o Messias virá), e o muçulmano apenas como uma tolerância disfarçada, pois o cristão, para ele, é “uma espécie de muçulmano” – assim, não podemos dizer que ele reconheça, para usar um termo da moda, a alteridade do cristão.

Claro que qualquer um pode lembrar de abusos cometidos pelo Estado em nome do Cristianismo, ou mesmo pela própria Igreja. No entanto, estes são episódicos se comparados com a grande novidade política que o Cristianismo trouxe, que foi justamente a secularização do Estado, ausente tanto no Judaísmo ortodoxo quanto no Islamismo:

A crença cristã – seguindo Jesus – negou a idéia da teocracia política. Ela produziu – para dizê-lo em termos modernos – o secularismo dos estados, nos quais os cristãos convivem pacificamente com aqueles que aderiram a outras convicções. Assim se distingue a crença cristã de que o Reino de Deus não existe como realidade política, e não pode existir desta maneira, antes sendo atingido através da fé, da esperança e da caridade, efetuando a partir do interior a transformação do mundo. Mas sob as condições da temporalidade, o Reino de Deus não é um império terreno, mas sim um chamado à liberdade da humanidade e um apoio para que a razão possa cumprir a missão que lhe é própria. Em última instância, as tentações de Jesus trataram desta distinção, da rejeição da teocracia política, da relatividade dos estados e da lei da razão, e também da liberdade de escolha, a que toda pessoa tem direito. Neste sentido, o estado secular advém de uma decisão cristã fundamental, ainda que seja necessária uma longa luta para que entendamos isto em todas as suas conseqüências.

Papa Bento XVI (último parágrafo).

Assim, retomando a questão do post anterior por um ângulo totalmente diverso, aqueles que porventura desejem preservar a liberdade de culto dos muçulmanos na Europa sem no entanto aderir ao Islam deveriam… valorizar sua herança cristã e não permitir que ela seja vilipendiada.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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