A terrível ameaça dos guerreiros da CNBB

Sei que corro o risco extremo de cansar a paciência dos leitores, por isso vou resumir na clássica fórmula do silogismo boa parte do meu argumento:

O poder político é o monopólio da força física.
A Igreja Católica não utiliza a força física para exercer poder.
Logo, a Igreja Católica não é um poder político.

E logo, acrescento eu, parafraseando Santo Alberto Magno: SSoB, anônimo por prudência, “não capta a força obrigante do silogismo”. Talvez só capte a força obrigante do porrete, daí não perceber que há outras atividades humanas possíveis além de bater.

Se ainda há algo a discutir, é simples: basta dizer se o erro está na premissa maior, na premissa menor ou na conclusão. Como o próprio SSoB contribuiu com a premissa maior, em que concordamos, e já anunciou discordar da conclusão, podemos partir para a menor, que admite um contrário: “A Igreja católica utiliza a força física para exercer poder”. Para provar isto, basta lembrar aquele dia de 1993 em que os guerreiros da CNBB invadiram os prédios do governo e bateram em funcionários públicos até que estes desistissem de distribuir camisinhas. Um verdadeiro golpe de estado, tramado no Mosteiro de São Bento de Shaolin.

Repetindo um trecho de SSoB:

“Se o Marquês de Pombal expulsa os jesuítas, está empregando o poder do Estado.” Sim, porque os jesuítas poderiam ser punidos fisicamente. Porque, o Estado é “o monopólio da força física”.

“Se a CNBB faz uma autoridade legitimamente eleita capitular, está usurpando a legitimidade conferida pelo povo ao governo eleito…” Uma carta, pela enésima vez, não constitui uso da força física. Uma carta não infinge o monopólio do uso da força física. O fato de um partido ter sido eleito não obriga todas as instituições do país a calar-se e abrir caminho para a realização de seu programa, exceto se você propuser a democracia como a ditadura totalitária da maioria.

Tudo o que eu sei a respeito do episódio é o que está no filme, mas me parece que o caso de Gandhi é semelhante. Ele tentou modificar a situação da Índia… abdicando de toda espécie de poder político. (Que isso tenha resultado em bombas nucleares na Índia e no Paquistão é outra história.)

Quanto à questão da persuasão, concedo que é justo acusar-me de ter tomado o sentido aristotélico da palavra como único, mas é preciso dizer que o argumento de SSoB contra mim vale também para ele próprio: se há teóricos que definem a persuasão como um conjunto de técnicas, também há os que não a definem assim; portanto, se vamos split hairs, continua inexato dizer que “a persuasão é um conjunto de técnicas” sem especificar a filiação teórica.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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