O papo já dura oito anos, e vai durar muito mais

Há quase oito anos escrevo aqui e sempre vejo o mesmo fenômeno se repetindo: um sujeito vem debochar de alguma coisa e, quando lhe opõem argumentos, começa a desqualificar aquele que os enunciou. Não imaginei, é claro, que com Rafael Galvão a coisa fosse ser diferente. A rapidez e a suavidade com que se retirou, porém, dão sinal de que cultiva a prudência, bem aos moldes do Leão da Montanha.

Suas intenções são fáceis de perceber: sentir-se bem diante de seu grupo, para o qual a medida da inteligência é dada pela radicalidade do anticlericalismo. Uma medida estranha, porque me parece que a inteligência e o sentimento fossem coisas bastante diferentes. Mas é a partir de seu sentimento anticlerical que Rafael fala, querendo simplesmente negar a legitimidade da religião. Não, veja bem, a legitimidade da sua verdade ou inverdade intrínseca, mas sua legitimidade civil. Isto se baseia na crença de que o ateísmo ou a irreligião correspondem a uma espécie de neutralidade ou imparcialidade, que deveria ser o parâmetro supremo da vida social, enquanto a religião corresponderia a uma clara parcialidade, um assunto privado de certos grupos, que deveriam mantê-lo exclusivamente privado. A falácia deste pressuposto está, obviamente, em crer que a irreligião é uma espécie de neutralidade, quando ela na verdade é tão “parcial” e interessada quanto a própria religião. Todo Estado precisa se pautar por certas posições e valores, como até agora os Estados ocidentais vêm se pautando pela crença na proteção aos indefesos, no valor imenso da vida individual, e na liberdade humana, valores dos quais decorrem imediatamente a condenação da escravidão, que existia no império romano e existe ainda hoje, em lugares amenos como o Sudão, por exemplo, e a defesa dos bebês, também uma novidade histórica. Portanto, mesmo que eu não tivesse a intenção de me tornar religioso, não poderia achar ruim que o Cristianismo continuasse a ser importante na vida pública. Mesmo assim, até agora os cristãos têm vencido suas batalhas por meios válidos dentro do sistema legal, que se pauta pelo desejo da maioria, e não da hierarquia (lembrando que o prefixo grego desta palavra significa “sacerdote”), o que mostra que o critério “irreligioso” já é dominante.

Para mim mesmo ainda é muito complicada a questão da relação entre Igreja e Estado. Não desejo ser governado pela CNBB, e por outro lado me sentiria mais feliz se o governo civil diminuísse absurdamente de tamanho, simplesmente abstendo-se de legislar e agir em quase todas as matérias. Mas, considerando a situação atual, querer apagar e reduzir à ilegitimidade um dos grupos participantes da discussão é puro nazismo. Eu poderia dizer que é puro comunismo, mas há uma certa questão sexual no nazismo que sugere a matriz germânica, ainda que inconsciente, dos atuais sentimentos (que pensamentos propriamente ditos ainda não são) anticristãos.

PS – Concedo que devo uma explicação ao público em geral sobre eu ser católico e astrólogo. Há tempos penso em um texto a respeito, mas agora fiquemos com uma versão resumida. O catolicismo tem, historicamente, uma relação de amor e ódio com a astrologia. Santo Agostinho, São Tomás e outros santos de imensa autoridade a condenaram duramente. O Papa João Paulo II e a última edição do Catecismo da Igreja Católica também. Mas entre São Tomás e o fim do século XX muita coisa aconteceu: três papas tiveram astrólogos e a Santa Inquisição aprovou a publicação de centenas (talvez milhares) de almanaques astrológicos por toda a Europa. Olhando os textos mais antigos (Ptolomeu, Manilius) é fácil ver porque a Igreja se opunha à astrologia: o fatalismo imperava. Nos textos medievais (que a comentadora rafaelesca Marcia Brito certamente nunca leu, até porque ela não entende nada de astrologia), o astrólogo aparece de maneira bem diferente, como um sujeito que deve rezar muito e ser muito puro para conseguir fazer previsões corretas, as quais ainda assim seriam meras conjeturas, e não vaticínios. Portanto, as condenações da Igreja se referem a um tempo fatalista e ao tempo moderno, em que a mistura da astrologia com todo tipo de bobagem a torna realmente condenável. Sei que muito mais ainda poderia ser dito, mas eu mesmo ainda medito o assunto, e me reservo o direito de continuar praticando a astrologia em moldes medievais e renascentistas enquanto não me parece haver mal nela.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com