Donzelão fujão

Rafael, eu não comecei meu texto dizendo que você era feio, mas dizendo que você fazia chacota de um sujeito ao mesmo tempo que dizia que só queria seu bem. Daí poderíamos tirar vários adjetivos – cínico, mau, confuso – , mas eu não tirei nenhum. Apenas apontei que, assim como você se limitou a xingar o sujeito sem respondê-lo, também eu poderia fazer o mesmo a partir das suas especulações sobre a vida sexual dele. A inadequação extrema da sua resposta, misturada ao seu conteúdo, sugere que você é que tem problemas sexuais sérios, o que sua foto parece apenas confirmar, e seu excesso de “uis” coroar.

Não sei de onde você tirou que a fé na Igreja faz com que os católicos se sintam superiores às tentações. Pelo contrário – a literatura religiosa mais elementar mostra que realmente vencer as tentações é um ato de grandeza. A maior parte de nós apenas tenta, mas nosso fracasso contínuo não é razão para mudarmos de convicção; não é porque algo lhe parece difícil que você também dirá que ele é errado. Quanto à questão dos anticoncepcionais – e o próprio Bento XVI já declarou que “já se falou demais nesse assunto” – , só posso declarar que o argumento de que a abstinência é mais eficaz do que a camisinha é tão óbvio que realmente dispensa explicações. Só que a Igreja nunca colocou essa questão em termos de saúde pública, mas em termos de saúde da alma; a grande condenação dos anticoncepcionais foi feita 20 anos antes da AIDS, pelo Papa Paulo VI, em sua encíclica Humanae Vitae. Portanto, se hoje a AIDS é um problema de saúde pública, a Igreja nada pode fazer além de dizer que já deu sua resposta há muito tempo, e que se ela conseguir convencer as pessoas – inclusive nós fiéis – a seguir a moral cristã, a AIDS sumirá com a mesma suavidade com que uma conseqüência se segue a uma causa. Poderíamos, no entanto, levantar a questão da visão católica do sexo, perguntar se ela é certa ou errada, apropriada ou inapropriada. Mas exigir que uma instituição de dois mil anos mude assim é a mesma coisa que exigir que o Pão de Açúcar mude de lugar.

Rafael, você não vai responder aos meus argumentos por uma simples razão: você não tem a menor idéia de como fazê-lo. Você é que é um prosélito fanático; o Bruno ofereceu argumentos, eu ofereci argumentos, e você só afetou desprezo. O próprio senso comum que lhe é tão caro diria que fanático é quem se nega a discutir. Você poderia até ter arriscado um simples “é mais fácil e mais garantido convencer as pessoas a usar camisinhas do que convencê-las a não fazer sexo”, o que pode até ser verdade em muitos casos, mas a proposta da Igreja nunca foi essa. Você poderia alegar que, diante do desastre humano da África, o Papa poderia usar sua autoridade moral para convencer as pessoas a usar camisinhas, mas algo me diz que a África não é exatamente um lugar onde o Papa tenha muita autoridade. Você poderia transferir o argumento para a América Latina, mas eu teria que dizer que se alguém fosse pensar no Papa na hora de fazer sexo talvez nem precisasse de camisinha. Daí eu diria que, mesmo do ponto de vista puramente estatístico, não faria a menor diferença uma exortação papal nesse sentido.

Meu ponto principal, no entanto, não é este, do qual você fugiu de antemão: é apenas mostrar que você dizia que só queria o bem, e fazia o mal; você mesmo admitiu, na resposta a outro comentador, que estava só debochando. Conheço boas pessoas sem religião que sabem a diferença entre fazer deboche e querer o bem. E se tudo isto tira sua paz, ótimo; quisera eu ter a paciência de ir atrás de cada debochador da Igreja para mostrar a vacuidade de suas palavras.

Quanto ao latim, sugiro que você consulte um dicionário em vez do Google.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com