Distribuição de renda, de burrice e de maldade

A expressão “distribuição de renda” é um dos Cavalos de Tróia do socialismo na linguagem corrente. Repita que a renda deve ser ou estar “distribuída” e você já aceitou – não quis dizer isso, mas foi isso que disse – o socialismo, a idéia de que cabe a alguém “distribuir a renda”.

(Um brasileiro médio, ao ler este meu parágrafo, diria: “Ai, você é contra pobre!” Não perceberia que estou falando do abuso político da linguagem, exatamente porque a linguagem abusada já estabeleceu um domínio completo sobre seus pensamentos. A mera reação emocional (que ele considera “reflexão”, mas é mero reflexo) já está programada: “distribuição de renda” = “síntese do bem cósmico”, logo “inimigo da distribuição de renda” = “mal encarnado”, ou ainda, na velha terminologia, “inimigo do povo”.)

Nunca entendi porque eu, que só penso em medievalismos, fico relendo obsessivamente os mesmos poemas de Yeats (como parar de ler Two songs from a play?), e faço faculdade de grego, deveria ter o mesmo dinheiro que alguém que dedica sua vida a… ganhar dinheiro. Mas, curiosamente, pessoas que acham que a realização de árduos trabalhos intelectuais como ouvir discos de MPB as torna eruditos (erúditos, como diz um amigo) sempre crêem que a “renda está mal distribuída”. Claro, a sua idéia de cultura também dá uma idéia da sua inteligência; e, como há um aspecto moral na inteligência – sem amor à verdade, nada feito – algumas vezes a falta dela sugere um mal moral, e não intelectual. Em miúdos, elas dizem preocupar-se com os pobres, mas na verdade sentem é inveja dos ricos. Ou, como já bem disse Fernando Pessoa:

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

– O Guardador de Rebanhos, XXXII

(Quem me apresentou este poema foi o Dr. Julio Fleichman, que sabia muitos versos de Pessoa de cor. Recordo o dia em que ele recitou um de meus favoritos: “Quem te disse ao ouvido esse segredo…”)

Daí que o socialismo seja por excelência a ideologia da pequena classe média, cheia de ódio daqueles que têm as posses com que ela apenas sonha, e não menos cheia de asco dos pobres de quem ela finge sentir compaixão, e que o uso da expressão “distribuição de renda” seja tanto um instrumento de guerra ideológica quanto o adiamento indefinido de um problema psicológico interno, pois abstrai o problema daqueles pobres feios e sujos que estão ali, no sinal, pedindo apenas uma esmola, e que eles dizem defender, mas não querem ver nem de longe.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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