Pergunta acusatória

Há tempos, a Fundação Perseu Abramo fez uma pesquisa na qual 87% dos entrevistados responderam afirmativamente à pergunta “Você acha que o Brasil é um país racista?”, mas somente 4% consideraram a si próprios racistas. Diante da discrepância, o site Diálogos contra o racismo decidiu perguntar “onde você guarda o seu racismo?”

Ora, dado o clima atual do país, e pressupondo que a pesquisa foi feita com a devida isenção (e não entre dirigentes de movimentos racistas como os movimentos negros), é inteiramente justo imaginar que esses 87% tenham dito que o Brasil é racista em tom de reprovação, sem se identificar eles mesmos com o racismo – o que levaria a uma população maciçamente anti-racista. Mas o próprio site percebe isso ao se perguntar: “Existe racismo sem racistas?” Claro que não. O problema é que para eles a existência do racismo nunca foi uma conclusão, e sim um pressuposto. O próprio nome do site o demonstra – diálogos contra o racismo, isto é, diálogos contra algo que eles admitem nem saber se existe. Não é o caso, portanto, de se dar ao trabalho de responder à pergunta acusatória do site – “Onde você guarda o seu racismo?” – mas de simplesmente descartá-la, ou devolvê-la: “Onde você arrumou tanta vontade de acusar as pessoas gratuitamente?”

Há um segundo pecado em tomar a voz de acusadores anônimos, que só existem enquanto porcentagem, e a partir dela querer justificar a adoção – isto é, a imposição – de políticas públicas. Sobretudo porque a frase “o Brasil é racista” é inteiramente vaga. Ela tanto pode significar que no Brasil é comum contar piadas de negros (como de portugueses, argentinos, judeus etc), o que é verdade, quanto que o governo brasileiro efetivamente discrimina brancos em favor de negros, como nas políticas de cotas universitárias, o que também é verdade. Este segundo exemplo é uma interpretação ainda mais literal, unívoca e verificável do que o primeiro, porque toda instância de adoção de cotas gerou uma discriminação objetiva, quantificável e perfeitamente documentada; mas o efeito da piada pode variar imensamente. Lembremos do glorioso Mussum dizendo “Eu prefiro nascer preto a…” e pensemos em quais foram as conseqüências efetivas disto.

Adendo: Mulheres de bigode

Se o racismo em piadas for algum dia aceito como argumento para políticas reparatórias logo os portugueses exigirão também suas indenizações, e as nossas faculdades ficarão cheias de meninas de bigode pelos corredores, sem que possamos insinuar que isto é feio; ora, uma mulher de bigode deverá ser considerada deslumbrante como uma Cleópatra, e as novelas deverão ter atrizes de bigode, e Malu Mader fornecerá cabelos das sobrancelhas para implantes de bigodes.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com