Minha formação(VII)

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8. John Frawley, The Real Astrology

Nota inicial: estive muito ocupado não só refazendo meu site de astrologia como atendendo pessoas. Como o assunto astrológico não me sai da cabeça, resolvi incluir aqui um capítulo importantíssimo da série “Minha formação”.

Por mais incômodo que eu ache o direito que algumas pessoas se dão de me fazer cobranças pessoais – normalmente absurdas – admito que muitos podem se sentir justamente consternados por saber que eu ganho a vida com a astrologia. Afinal, a primeira idéia que se tem da astrologia vem de produtos jornalísticos como colunas de horóscopo ou artigos do tipo “como seduzir um geminiano” – textos que estão longe de primar pelo rigor, e parecem pertencer antes a uma espécie de entretenimento do que a qualquer espécie de coisa séria. Muitos dos leitores também são católicos, como eu, e sabem muito bem da antipatia com que a Igreja vem tratando a astrologia nos últimos anos.

Eu me identifico com os leitores. Senti-me consternado quando, lá pelos idos de 1997, descobri que o homem que escrevera O Jardim das Aflições não apenas gostava de astrologia como já a tinha praticado e escrito a seu respeito. Mas foi exatamente isto que me inspirou a dar um grande crédito à astrologia e estudá-la. Comecei lendo as apostilas de astrocaracterologia, e logo a turma do Seminário de Filosofia importou Luiz Gonzaga de Carvalho do Rio Grande do Sul para que nos desse aulas de astrologia. Luiz nos apresentou uma visão pitagórica, teórica, com um sistema de analogias muito rigoroso. No início eu achava as aulas muito chatas, mas aos poucos fui ficando muito interessado. Eu sempre funciono assim: passo muito tempo estranhando um assunto, mas fico com ele na cabeça, e um dia, como que do nada, ele se torna claro e óbvio como as leis da aritmética.

Porém, naquele curso praticamente só estudamos astrologia “teórica”. Eu só fui conhecer a fundo a prática astrológica quando o mesmo Luiz G. Carvalho pôs na minha mão o livro The Real Astrology, de John Frawley. Antes de chegar à vigésima página, já tinha decidido: “É isso que eu quero fazer quando crescer”. Eu tinha 24 anos e, apesar de gostar de algumas atividades que exercia, não me identificava com nenhuma delas. E apesar de ter O Indivíduo, nunca pensei em transformar a crítica cultural numa profissão.

The Real Astrology, que já traduzi quase inteiro, consiste em uma apresentação de várias técnicas diferentes da astrologia antiga. Frawley começa falando da astrologia horária, a arte de responder a uma pergunta específica a partir do mapa da hora em que ela é aceita pelo astrólogo. Depois, trata da astrologia eletiva, examinando o mapa da hora da coroação da Rainha Elizabeth I, escolhida por John Dee, o astrólogo da corte. Continua tratando de temas da astrologia natal e também da astrologia mundana. O livro acaba sendo bem prático, e valendo mesmo não só como obra introdutória, mas também como obra de referência. Sinceramente, acho que é a obra mais importante do assunto escrita nos últimos 300 anos.

Frawley me impressionou por várias qualidades. Primeiro, o evidente domínio do assunto, a destreza com que analisava os mapas. Segundo, as afinidades, a sensação de que eu teria escrito o mesmo livro, do mesmo jeito (ainda que discorde veementemente de certas posições ali defendidas). Terceiro, sua paixão pelo assunto – o que também entra nas afinidades. Não gosto de gente para quem tanto faz como tanto fez; gosto de quem fala com convicção. Quarto, o fato de que Frawley fazia (e faz) previsões muito exatas e corretas. Sem isto, acho que eu jamais me interessaria pela astrologia. A astrologia puramente psicológica pode até ser muito interessante, mas não há como não se ressentir da sua intangibilidade. A astrologia tradicional, como praticada na Idade Média e no Renascimento, é o contrário disto: tangível, verificável, material. O astrólogo pode errar, como qualquer artista ou técnico pode errar, mas não deve dizer coisas que não podem ser confirmadas. Se eu disser que você vai arrumar uma namorada em mais ou menos um mês, isso é diferente de dizer que “em mais ou menos um mês você vai se sentir mais em paz consigo mesmo”. Por fim, outro ponto fantástico é que para se fazer previsões basta estudar e praticar. Não é preciso nenhuma espécie de poder psíquico ou paranormal – pelo amor de Deus. Existem videntes, ninguém há de negar; mas os métodos deles são bem diversos daqueles que nós, astrólogos tradicionais, costumamos empregar.

Agora, o ponto mais importante do livro é o seguinte: o autor é um artista, um astrólogo praticante, muito procurado (vide seus elevadíssimos preços), que assim como os astrólogos do passado, está preocupado em transmitir uma arte. Muita gente boa se preocupa com a questão da astrologia como ciência, e talvez (até por vocação filosófica) abandona a prática astrológica, que requer habilidades diferentes. Uma coisa, é claro, não pressupõe a outra – a cozinheira desconhece as leis da química mas faz bolos excelentes, e um químico pode ser péssimo cozinheiro. A ciência não é necessária para a arte. Tenho mentalidade mais artística do que filosófica, e por isso fico com Frawley, Lilly, Culpeper. Mas não deixo de visitar Aristóteles, Plotino e São Tomás, que não sou bobo.

Como nota final, sei que ainda cabem algumas palavras sobre astrologia & Cristianismo. A questão é bem complicada, por isso merece um texto só para ela. Logo escreverei a respeito – “logo” quer dizer “nos próximos meses”.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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