Notas sobre a misericórdia

Let mind be more precious than soul: it will not
Endure. Soul grasps its price, begs its own peace,
Settles with tears and sweat, is possibly
Indestructible. That I can believe.

(Geoffrey Hill, “Funeral music, IV”)

O intelecto busca a verdade; mas o intelecto é uma parte da alma, e a alma está ligada ao corpo. A verdade é o alimento do intelecto, mas este intelecto pode se tornar guloso; e assim como um homem guloso costuma ter a barriga grande e os membros atrofiados, o intelecto guloso se torna grande demais para que a alma o sustente.

As demais faculdades da alma também precisam ser satisfeitas: os apetites, a estimativa, o sentido comum. A satisfação de cada apetite se dá de uma maneira diferente; o apetite concupiscível precisa de coisas que o agradem; o apetite irascível precisa realizar coisas, vencer obstáculos; o apetite intelectivo ou vontade precisa admirar algo; a estimativa precisa revirar as coisas; o sentido comum precisa ser preenchido. Mas, talvez pelo fato de o homem ser mais semelhante a Deus pelo intelecto do que por qualquer outra faculdade, na sua operação fica menos “visível” a presença da misericórdia divina e da graça. Quando o intelecto apreende algo, sentimos que fomos nós mesmos que apreendemos a coisa; raramente nos ocorre que também esta apreensão é obra da misericórdia divina. Nas outras operações, a ação da misericórdia é mais evidente, porque o número de fatores imponderáveis é bem mais alto. Se eu estudar o teorema de Pitágoras com atenção, parece quase garantido que vou entendê-lo; mas, se tentar fazer qualquer coisa que saia do domínio do intelecto, preciso da concorrência de muito mais fatores.

Para realizar a operação da concupiscência, preciso de um gostoso chocolate; para realizar a operação da irascibilidade, preciso vencer um obstáculo, como conseguir acordar de manhã, chegar à faculdade, ir para a academia fazer spinning. Mas meu projeto de ir à faculdade pode ser impedido por um defeito no carro, por uma chuva torrencial; ou meu plano de fazer spinning pode ser impedido pela limitação dos horários de aula de spinning.

Enfim: para realizar uma operação eminentemente intelectual, eu dependo de muito menos fatores do que para fazer qualquer outra coisa. Podemos chamar a boa concorrência destes outros fatores de regularidade cósmica, de acaso, de sei lá o quê; mas também podemos observar que até esta regularidade depende, numa certa medida, da misericórdia de Deus. A concórdia entre nossas intenções e o mundo exterior não é um dado necessário, mas o resultado de um processo temporal que envolve de nossa parte o bom senso e da parte do Autor do mundo a sua misericórdia. “Sim, Pedro, hoje você obterá aquilo que quer”.

Agora, mesmo o “bom senso” que eu mencionei pode ser também considerado uma consciência aguda da ponderabilidade e da imponderabilidade destes fatores extrínsecos ao sujeito agente, isto é, a consciência de que nada se faz neste mundo sem a misericórdia de Deus.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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