Convenção de Genebra

No linguajar dos neoconservadores, nacionais e importados, qualquer pessoa que pretenda pôr limites à conduta dos soldados na guerra, ou melhor, qualquer pessoa que pretenda pôr limites à guerra é um romântico incurável, um nefelibata, um idiota antipatriótico que incapaz de perceber as “ameaças” à nossa preciosa civilização ocidental.

Ficaram notórias, nesse sentido, as palavras de Rumsfeld e Bush, segundo as quais qualquer ação do Exército americano na “guerra contra o terrorismo” (o Big Brother manda lembranças) estaria isenta de observar os limites da Convenção de Genebra.

Não dá para ter dúvidas: os horrores da ocupação do Iraque, os escândalos sobre torturas e maus-tratos a prisioneiros são conseqüências diretas dessa mentalidade. (Um parêntese: não tenho lido os neoconservadores nos últimos dias; pergunto-me se eles ainda estão dizendo que era tudo invenção da conspiração global anti-americana liderada pelo New York Times…)

Vistas assim, na prática, em todo o seu horror, as conseqüências da defesa apaixonada do militarismo e da “guerra total”, esta mentalidade mostra-se ainda mais claramente como aquilo que é: uma versão piegas e americanófila do velho fascismo.

E aqui é preciso notar o absurdo, a mentira, na alegação de que esses falsários estão defendendo a civilização ocidental.

Não são os “realistas” da escola pró-guerra que estão lutando para salvar a civilização, contra os “românticos” que vêem na velha noção de “guerra justa” um limite tanto para as guerras que podem ser licitamente iniciadas quanto para os meios que podem ser licitamente empregados nas guerras. É precisamente o contrário.

As regras ínsitas na Convenção de Genebra é que representam a civilização, porque representam a limitação do poderio destrutivo do Estado; porque representam, embora em versão laica, o respeito à doutrina cristã da “guerra justa”.

O militarismo é, em todos os seus aspectos, um inimigo da civilização. Como se viu, em cores fortes, no Iraque.