A força da cristandade

“Talvez vocês notem a abóbada suntuosa como um estandarte, com suas franjas e seus enfeites? Isso ainda não é nada. Abaixo dessa abóbada, há uma minúscula hóstia branca, certamente invisível do lugar onde vocês estão. Bom! Não esperem de mim que eu me perca aqui em frases comoventes e enternecedoras; aquilo que eu penso disto que me é mil vezes mais caro que a vida não lhes diz respeito, eu não tenho minimamente a intenção de convertê-los ou de enchê-los de palavras edificantes; eu desejo me fazer entender por qualquer homem razoável, quer dizer, capaz de aceitar honestamente os resultados de uma experiência… Há, então, essa minúscula hóstia. E há, ainda, perdidos aqui e ali, nessa multidão enorme, algumas pessoas que certamente passam despercebidas de vocês, alguns velhos padres tímidos, alguns homens, algumas mulheres, algumas crianças – sábios ou não, que importa! Não os procurem entre aqueles que mostram as córneas e estiram a língua, com caretas extasiadas. Aquilo que eles têm no coração raramente se exprime em seus traços, e ademais eles nem sabem o que têm no coração; Deus o sabe. Entre a hóstia branca e essa humanidade tão pouco digna da atenção dos observadores e da objetiva das câmeras, há uma troca misteriosa; eis tudo que conta, é assim eu tenho a honra de lhes dizer. De qualquer maneira que vocês expliquem o fato, ele se impõe, ele sempre se impôs no decurso dos tempos. Tão logo se encontrem ameaçados, não os tesouros da Igreja ou seu prestígio, mas sua fé, os pobres diabos insignificantes de que eu falo se tornam mártires; vocês o sabem tão bem quanto eu. Eles dizem tranqüilamente: “Não!” aos poderosos que na véspera saudavam humildemente, e então o não que eles lhes opõem é tão humilde quanto sua saudação, mas implacável, inflexível, inexorável. A doce teimosia desses predestinados fez correr mais sangue – o deles mesmos – do que todo o orgulho dos conquistadores. E, fato ainda mais surpreendente (dêem para ele a razão que lhes agrade, que me importa!), pouco a pouco vê-se fermentar a massa grosseira de que eles eram o fermento. Os devotos se tornam indulgentes, as devotas caridosas, os avaros pródigos, os casuístas simples como as crianças, os calculistas correm riscos, os prelados políticos perdem sua astúcia, e os tiranos, mestres dos palácios e das basílicas cheias de ouro, de repente ouvem com estupor, com angústia, com pavor, a velha Igreja rejuvenescida que canta no fundo das catacumbas. Oh! perdão, vocês podem me censurar o tom lírico – pois não é de forma alguma o poeta em vocês que me proponho de comover. Eu poderia também simplesmente dizer que só na provação a cristandade dá a medida exata de sua força. Não é a infelicidade que a torna forte, mas a infelicidade recoloca cada um em seu lugar, e os santos no primeiro

plano.”

(GEORGES BERNANOS, Lettres aux anglais, Gallimard, 1984, pp. 130-132.)