“Realidade” brasileira

Se você é brasileiro e está lendo este texto no seu computador na sua casa, que não fica na extrema periferia de uma metrópole decadente nem no abandonado e rústico interior do país, sua vida não é real. No Brasil, “real” é “gente passando fome”. Preocupar-se seriamente com alguma coisa é preocupar-se com a pura abstração que é “a fome” e/ou “a miséria”. Agora, se você não tirou a cara do monitor e não foi lá dar comida para os tais dos famintos, você não se preocupou. Você só tem a tal da culpa burguesa e, por alguma razão que eu ignoro, acha que encher o saco dos outros com a sua culpa o torna uma pessoa mais linda – mais linda do que seria se efetivamente ajudasse alguém. Essa incapacidade crônica dos nossos letrados em fazer uma mísera caridade real, de dinheiro ou, o que é mais difícil, tempo – e não esqueçamos os freqüentes protestos contra a veneranda e cristã instituição das esmolas – gera esta atmosfera de negação da experiência. Se você, como eu, pertence à classe média, não tem o direito de ajustar o seu imaginário à sua vida cotidiana; não tem o direito de querer falar sobre sua última viagem aos EUA, sobre o DVD que comprou, sobre poesia inglesa; porque “isso não é a realidade das pessoas que vivem aqui”. Mesmo que você ajude as pessoas que encontra, pessoas que conhece, pessoas que têm nome, que não são “os miseráveis”, que são específicas e não genéricas, isso não adianta: no Brasil, o discurso tem que ser sobre a “realidade”, e a “realidade” tem que ser tudo aquilo que você não vive.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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