As línguas dos outros e a minha

Alguém disse que só se aprende verdadeiramente a própria língua quando se conhece outra. Não me parece que isto seja verdade, a menos que entendamos por “aprender verdadeiramente a própria língua” a apreensão de seus trejeitos típicos, os quais de fato só podem ser percebidos quando postos lado a lado com os trejeitos de outro idioma. Assim, não acho que aprender francês no colégio ou inglês no curso Oxford e no estrangeiro tenha melhorado meu português; mas certamente fez com que eu percebesse as diferenças.

Quando comecei a verter textos do português para o inglês, por exemplo, percebi que um dos trejeitos da nossa língua é que nela podemos chamar alguém de idiota sem que nós mesmos pareçamos idiotas. O tom de voz encolerizado, indignado, cabe bem em português. Em inglês, se uma pessoa estiver com muita raiva, apenas dirá “estou com raiva”; se começar a soltar impropérios, parecerá pueril e boba.

Creio que a questão é de volume. Em português, o volume admite mais variação. Contando os registros literários da poesia, vamos do tom baixinho e melancólico de Drummond em “A máquina do mundo” (o único poema grandiloqüente e sussurrado que conheço) até Camões vituperando contra “a gente vil de Mafamede” (isto é, os muçulmanos) sem que nada pareça fora do lugar. Em inglês, lemos os poemas de Shelley e Blake e imediatamente parecem coisa de gente possuída. Até gosto muito de Shelley, mas não consigo imaginar ninguém recitando a Ode to the west wind sem que pareça transtornado. O mesmo vale para muitos poemas de Yeats: o tom inflamado (pensem em “The second coming”, “No second Troy”) dá um ar de coisa fora da realidade, de algo que ninguém nunca jamais diria.

Parece-me, e aqui quero frisar que se trata só de uma impressão, que a variação de volume do português é igual à do italiano. Passa-se bem do prosaísmo banal ao tom declamatório poético.

Já o espanhol parece ter um volume geralmente mais alto. Qualquer mal-estar é descrito como “fatal”, com aquele l pronunciado como consoante que aumenta a ênfase – a palavra demora mais, e fecha. Tudo o que é terminado em “au” não pode ser muito sério. E o espanhol, além de ter um volume mais alto, tem uma certa solenidade. Basta comparar dois poetas que têm a alma um tanto parecida, Antonio Machado e W. H. Auden. Em suas obras ambos buscavam, acima de tudo, fazer justiça à sua experiência real, de homens reais, comuns em uma certa medida. Mas se você ler Auden é tomado de compaixão ante o aspecto indefeso do homem; a poesia de Auden parece toda um comentário do trecho da missa que diz: “não olheis os nossos pecados, mas a fé da tua Igreja”. Se ler Antonio Machado, sua alma parece querer sair para fora, em vez de querer se recolher.

Já o francês sempre me aparece, como diria Fernando Pessoa, “sphyngico e fatal”. Por mais que eu conheça a língua desde os oito anos de idade, nunca consegui aprendê-la verdadeiramente. Leio meu Baudelaire, meu Rimbaud, meu Bonnefoy, e até encaro um Villon com tradução do lado. Mas parece haver no francês alguma coisa abstratista, fingida, afetada. Afinal, é a única língua (que eu saiba) que tem peças clássicas – Corneille, Racine – escritas em rhyming couplets, o que é inteiramente distante da fala cotidiana de qualquer época.

Do mesmo modo, sempre que vemos filmes ou programas de TV franceses, tudo parece sempre dito com a maior seriedade. Não existe o francês sem convicção. As brigas entre casais são sempre disputas filosóficas. E outro dia um cara num debate dizia assim: “A evolução humana deixou de ser um fenômeno biológico para se tornar um fenômeno cultural”. Examinem por favor os sentidos possíveis dessa frase e me digam um só que não seja totalmente absurdo.

Eu poderia ter dito que os franceses inventaram o sistema métrico decimal e a Revolução Francesa. Ah! Mas o jacobinismo tem um pé no puritanismo inglês; Charles I sabe bem.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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