Minha formação (IV)

O próximo livro da lista só foi lido em 1996. De 1991 a 1996, eu praticamente só li bobagens, e devotei muitas energias à audição de coisas com guitarras e baterias. Mas não posso dizer que Peter Gabriel, King Crimson e Rush tenham realmente me influenciado; no máximo, deixaram um ruído desagradável no meu ouvido direito. Naquela época, é claro, eu achava que a música popular contemporânea era uma coisa muito séria; hoje, entendo o que os mais velhos queriam dizer com “isso é só uma fase”.

Melhor dizendo, creio que a música popular se relaciona muito mais ao gosto do que à “formação” propriamente. Eu posso gostar de músicas que são perfeitas bobagens, como efetivamente gosto, mas isso não tem nenhuma interferência na minha maneira de ver o mundo ou de lidar com problemas. Isto é, qualquer coisa cantada por Ella Fitzgerald me deixa feliz, mas esta felicidade é semelhante à que eu tenho quando como um bolinho de chocolate. E o fato de eu gostar ou não de chocolate não interfere em quase nada na minha vida intelectual – só influi na medida em que, se eu comer muito chocolate, fico burro e não consigo estudar nem trabalhar; se comer pouco ou nenhum, fico infeliz e também não consigo fazer nada. A mesma coisa com a música popular: precisamos de recreação, para relaxar a mente. Mas quem ouve muita música popular acaba muito disperso e não consegue pensar direito.

Agora, que retomo a lista de livros, preciso dizer que em 1996 eu estava na New York University e começava a me desencantar da música popular. Eu via que minhas experiências não podiam ser abarcadas por ela, e comecei a colocar as coisas em seus devidos lugares.

5. Béroul, The Romance of Tristan. (1996)

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(Se quiser, leia uma tradução inglesa da versão de Jospeh Bédier; e há nas livrarias uma tradução portuguesa dessa versão, pela Martins Fontes. E não perca este excelente site sobre a lenda)

Este é o texto do manuscrito mais antigo da lenda de Tristão e Isolda, atribuído a uma entidade (uma pessoa? Várias?) chamada “Béroul”. O professor Charles Affron mandou a turma ler, para compararmos com o filme L’éternel rétour, escrito por Jean Cocteau.

Na época, eu estava ainda muito impressionado pela paixão furiosa que tinha sido despertada em mim por uma menina que tinha ficado no Brasil. Isto acontece com muitas pessoas; mas sempre que acontece, temos a impressão de que nossa experiência é única, ou ao menos muito rara. Ler um livro no qual uma paixão irresistível estava descrita – e de modo interessante, “épico”; não como nos filmes de mulherzinha que passam no New York City Center – fez com que eu me sentisse o próprio Tristão. Fez com que eu ouvisse Wagner.

Claro que, de um ponto de vista estritamente católico, a história de Tristão e Isolda é tão-somente uma pouca-vergonha: é a história de uma adúltera com um sujeito que traiu o próprio tio. Meus caros, Deus sabe o que é preciso fazer para expiar estes pecados. Mas, por outro lado, quem está sofrendo ou sofreu com aquilo que Auden chamou tão bem de “a visão de Eros” em “The Protestant Mystics”, ensaio que faz parte da coletânea Forewords & Afterwords, acaba simpatizando com o casal e torcendo por eles.

Este ensaio, aliás, formulou de modo claro as questões abertas pela (primeira) experiência da “visão de Eros” há 10 anos, e pela leitura do Romance of Tristan em 1996. Eu o li pela primeira vez há três semanas, justamente quando – ao que tudo indica até agora – Eros me visita novamente. Certamente o ambiente que ele está encontrando não é o mesmo de antes.

Interessante é observar que as histórias de paixão furiosa e irresistível normalmente acabam mal. Na ficção, são sempre tragédias: Romeu & Julieta (e, cá entre nós, Romeu era um bobão), o casal do Amor de Perdição do Camilo Castelo Branco. Na “vida real”, se acontece uma relação com a pessoa amada, o amor acaba – ela perde o “lustre” e logo está tão revestida de banalidade quanto qualquer outra.

A lenda de Tristão & Isolda permite uma conexão direta com o trecho da Suma Teológica em que São Tomás discute o amor, e até ler o ensaio de Auden eu encarava a lenda segundo os termos ali propostos. Agora fico na dúvida: será tudo uma concupiscência destruidora – os gregos consideravam isto uma maldição de Afrodite; vide o mito de Hades e Perséfone – ou haverá, como no caso de Dante e Beatriz, algo de valor (ou que possa ser transformado em algo de valor) na “visão de Eros”?

De qualquer modo, Beatriz morreu e Dante não se casou com ela. E pensando bem, mesmo que tivesse, Dante é só um poeta, não sei porque tantas pessoas lhe dão tanta autoridade.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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