O milagre da multiplicação dos teólogos

De repente, não mais que de repente, passa um filme no cinema sobre a paixão de Cristo e as pessoas começam a discutir religião. Não se vê, entre elas, ninguém que procure estudar a religião; também não parece haver pessoas que tentem praticar a religião. Mas isto não se pode discutir, seria difícil estabelecer um critério: há aquelas pessoas que crêem que jamais ir à missa é mais cristão do que ir à missa sem ter vontade; há aquelas pessoas que crêem no “seu” cristianismo, inventado de acordo com suas preferências (que elas crêem ser “ideais”), em vez de crer no Cristianismo que nos foi transmitido pela Igreja.

Mas basta de palavras amargas. O que importa é que o filme é miraculoso: após assisti-lo, todos já sabem tudo sobre o Cristianismo. Aquelas mesmas pessoas que não freqüentam a Igreja dizem palavras eloqüentes sobre o verdadeiro sentido do Cristianismo. Outros falam sobre as experiências definidoras da ascensão mística – “quem nunca fez tal coisa não é realmente cristão”. Há ainda aqueles que, negando a natureza divina de Cristo, acham que devemos louvá-lo justamente por ter sido “só um homem”, criando um monofisitismo peculiar que, é claro, só poderia prosperar naquela Terra que trocou o nome de Santa Cruz pelo de uma árvore qualquer. E não custa lembrar que “floresta”, em grego, é “hyle”, que também significa… Pensem em Aristóteles.

Lutero, eis teus filhos. A classe média, média a não mais poder, crê piamente que basta prestar bastante atenção no próprio estômago para encontrar o justo critério para julgar não só simples filmes, mas também civilizações inteiras. Eles sabem mais que o Papa; mais que São Paulo; mais que os Evangelistas. É um milagre, um milagre. Ainda hei de encontrá-los curando os cegos da Av. Nossa Senhora de Copacabana.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

Um comentário em “O milagre da multiplicação dos teólogos”

  1. Lutero era um profundo conhecedor da Bíblia, estudioso piedoso, tradutor dela para o alemão, “redescobriu” o poder da fé e da Palavra, obscurecidos ao teólogos católicos da época. A interpretação particular da Palavra proposta por ele definitivamente não tem nada a ver com as pataquadas que surgiram por ocasião do filme, ou do Código Da Vinci, ou outras.

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