Minha formação (III)

Ok, eu sei que o meu amanhã demorou alguns dias. Mas eu tinha coisas urgentes para resolver; mais urgentes do que ficar falando sobre os livros que mais mexeram comigo, com certeza.

4. Machado de Assis, Dom Casmurro. (1991)

Voltando à boa Marta de Senna, outro livro que ela nos fez ler naquele ano de 1991 foi Dom Casmurro , de Machado de Assis.

Aos 14 anos, fiquei inteiramente fascinado por Capitu. Minha paixão não era pelo livro, nem por Machado, mas por ela. Acho que até uns 19 anos eu me neguei a crer que ela pudesse ter traído Bentinho; depois passei a ter certeza de que sim, e hoje não sei. Não descarto a hipótese de que Machado não saiba também; o fato é que Bentinho é um personagem mesquinho mesmo, assim como quase todos os personagens da “segunda fase”. Por que conceder a Capitu o benefício da dúvida? Talvez por simpatia a ela também, que me parece – deve parecer a mais alguém – uma versão 2.0, mais complexa e sedutora, da resoluta e pragmática Guiomar de A Mão e a Luva. Se esta despreza o jovem sonhador e fica com o outro que vai à luta, poderíamos supor que Capitu também acabaria por desprezar o moroso Bentinho em prol do empreendedor Escobar.

(Na verdade, estas especulações estão no mesmo nível da pura fofoca.)

O livro é interessante porque Machado mostra o ciúme entrando em Bentinho ao longo de anos, fazendo um paralelo com o que acontece com Othello (aliás, naquele ano também lemos Othello, mas Shakespeare fica para depois), apesar de este ter sido consumido mais rápido pelo “monstro de olhos verdes”.

É mais fácil entender um personagem literário do que uma pessoa, também; podemos manipular Bentinho à vontade, pois ele é só um ente abstrato de romance, e o pouco que sabemos dele é tudo o que há para saber. Tentar explicar porque uma pessoa real é ou ficou ciumenta seria muito mais difícil, e demandaria um trabalho que não valeria a pena. Mas com a literatura podemos expandir as possibilidades da imaginação, e é com estas possibilidades que vamos, no mais das vezes, interpretar o mundo. Em suma, é mais fácil entender algo se você já leu a respeito – mesmo que tenha sido num romance.

Felizmente, pela experiência de Bentinho eu não passei.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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