Minha formação (II)

O post de ontem, em que declarei que lia a Suma Teológica com doze anos, causou espécie em muitos leitores: recebi vários e-mails de pessoas me tratando como se eu fosse uma criança prodígio da filosofia. Assim, preciso esclarecer que a minha leitura da Suma apenas começou naquela idade, e foi sempre pontual: “ah, tenho interesse nesta questão, vou estudá-la”. No mais, eu não lia só a Suma, mas também umas revistinhas do Tio Patinhas e romances de Alexandre Dumas e Agatha Christie. O que me levava à aridez de São Tomás (e ninguém vá pensar que hoje eu levo a Suma Teológica para ler enquanto tomo café da manhã) era não exatamente a curiosidade, mas a sensação de que a obtenção de certas respostas era um assunto urgente, urgentíssimo. Não consigo imaginar uma pessoa que nunca tenha se sentido cosmicamente pressionada por uma questão filosófica qualquer; sei lá por quê, isso me acontecia mais até os 20 anos do que depois deles. Acho – meus amigos acham também – que eu fiquei mais leve, menos atormentado. Isto, é claro, porque encontrei certas respostas. Mas tratarei disso mais adiante.

A propósito, eu reescrevi o post anterior, porque o escrevi com muito sono ontem, e o achei muito ruim quando o li hoje.

Mais livros, pois.

3. Sófocles, Antígona. (1991)

Cheguei ao ano de 1991 com treze anos. Eu já tinha algum interesse por literatura, sobretudo por poesia; tinha lido aqueles tantos romances, mas só como diversão. Aquilo não me interessava de fato; preferia ficar escandindo indefinidamente sonetos e mais sonetos a ler prosa.

Estava na oitava série na escola. Fiz tudo menos o segundo grau no São Patrício, em Botafogo, uma escola que fechou. Ali tive a professora que mais marcou minha vida acadêmica formal, no Brasil ou nos Estados Unidos: Marta de Senna. Marta de Senna dava aulas de literatura para a molecada de 14 anos que eram melhores do que as aulas que há hoje na graduação de Letras da UFRJ e da PUC. Era muito inspirador vê-la falar de um assunto pelo qual era obviamente apaixonada, com segurança, e exigindo muito dos alunos. Assim como a leitura de São Tomás foi pouco a pouco moldando a minha mente, o exemplo de Marta, em que eu sempre penso, teve um efeito semelhante, fazendo com que eu sempre desejasse manter um alto nível e me esforçasse.

(Até parece que eu era um ótimo aluno, falando assim. Que nada. Só era bom na matéria da Marta de Senna, em português, em redação, francês e matemática. Só.)

O primeiro livro que a Professora Marta de Senna nos fez ler foi a Antígona, de Sófocles. Li numa tradução da Ediouro; lembro que a fala do coro, ao final, estava traduzida exatamente assim: “Não formules desejos. Não é lícito aos mortais evitar as desgraças que o destino lhes reserva.” Nunca esqueci a frase. O impacto da peça sobre mim foi claro (porque Marta nos explicou toda a estrutura da tragédia, óbvio): como católico, vivo num mundo em que as pessoas são livres e Deus as ajuda gratuitamente. O mundo da tragédia é totalmente diferente: é o império do destino, da necessidade. Achei curiosíssimo que alguma parte da humanidade pudesse ter vivido segundo estas crenças; mas logo depois passei a ter alguma empatia pela tragédia, vendo que na minha vida mesma havia situações sem saída. Antígona tem que escolher entre trair o Estado ou a religião; para nós hoje esse dilema é idiota, porque somos libertários e leitores do Lew Rockwell; dane-se o Estado e pronto. Mas, descontando o fato óbvio de que Sófocles não era um propagandista das idéias de von Mises e nem da revolução americana, a idéia é que você é obrigado a fazer uma coisa ruim, porque as circunstâncias te forçam a isso, e você não pode se abster, porque é materialmente impossível; se Antígona não fizesse nada, estaria optando pela fidelidade ao Estado.

A tragédia grega foi a primeira literatura que ofereceu uma explicação direta da minha vida, e à qual
eu recorri para contar para mim mesmo a minha história.

A propósito: isso foi naquela época. Eu não creio mais que sou vítima da cólera dos deuses. Estou bem normal. Espero.

E uma curiosidade: naquele ano a minha turma de oitava série fez uma produção da peça Deus, de Woody Allen, que é uma paródia do mundo grego (e de outras coisas). Partes da peça foram aproveitadas no filme

Autor: Pedro Sette-Câmara

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