Fé & razão

Sabedora de minha adesão ao catolicismo, uma moça me perguntou: “O que você acha desse negócio do Papa dizer que as camisinhas não funcionam para prevenir a AIDS?” Na hora, respondi que não tinha o menor interesse por esse assunto, pois minha última namorada me deixou há tempo suficiente para eu não ter dilemas de moral sexual, ou melhor, não viver draminhas de poeta barroco.

Mas ela não se comoveu. Só queria mesmo a minha opinião, porque achava “um absurdo o Papa dizer uma coisa dessas”. Perguntei por que era absurdo. “Porque a ciência diz que a camisinha previne a AIDS”. Ora, o Papa não está usando o parecer de outros cientistas ao dizer isso? Por que pressupor que “a ciência” é um bloco unitário, uníssono e unânime? Será que ela nunca ouviu falar que os cientistas discordam entre si? Então. O Papa deve ter pego uns cientistas que têm umas provas contra a camisinha. Controvérsia é normal. Controvérsia com partidarismo, mais ainda. Pretensão à imparcialidade absoluta é coisa de doente mental. No máximo a pessoa pode tentar ser honesta e sincera. E olhe lá.

A melhor resposta então seria: “Olha, você não sabe nada de camisinha e está apenas acreditando nos cientistas. É uma preferência pessoal. Deixe-me em paz. Eu posso preferir o Papa e seus cientistas, se quiser.” Porque há muitas coisas que desconhecemos e simplesmente confiamos na opinião alheia. Eu confio na minha dermatologista. Por quê? Não sei bem. Ela parece inteligente. É muito simpática. E eu não entendo nada de dermatologia. Minha interlocutora também não entende nada de dermatologia. Mas deve confiar na sua dermatologista. Por mais “esclarecido” que alguém se julgue, continua vivendo de fé, por uma simples limitação humana: não é possível examinar todos os assuntos.

A questão é que a autoridade “da ciência” é hoje aceita como aparentemente era a autoridade da Igreja há séculos atrás. A maioria esmagadora das pessoas ou é incapaz ou não desejaria se envolver com seriedade na menor querela teológica, e por isso simplesmente aceita: há um purgatório, um inferno, um céu etc. Da mesma maneira, poucos dentre nós têm a disposição de realizar um teste com camisinhas com todo o rigor científico – isto é, incluindo as mais variadas taras.

(Não resisto ainda a pensar o seguinte: se o uso de camisinhas aumentou e o número de casos de AIDS também, talvez possamos concluir que a camisinha seja uma das causas da AIDS.)

Se alguém duvida de que esta entidade chamada “a ciência” hoje possui uma autoridade maior do que a da pitonisa de Delfos, pode considerar um único fato. Experimente dizer em um jantar qualquer que o Sol gira em torno da Terra. Você será chamado de palhaço e idiota. Agora, todos vêem, todos os dias, o Sol dar a volta no céu. Todos vêem, todos os dias, a Terra paradinha onde está, e o Sol se movendo. “Ah, mas isso é só uma impressão.” Não é não. Você não aprendeu na escola que “o movimento depende do referencial”?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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