O princípio de autoria

Se quem dá coices são os cavalos, e não a cavalidade,

do mesmo modo quem age é o homem concreto, e não a sociedade.

– Olavo de Carvalho (O Jardim das Aflições, Diadorim, pág 222)

Vou logo dizendo que escrevo este artigo porque ele me pareceu o mais urgente de todos. Vou dizer umas coisas que me parecem altamente óbvias, mas que tenho visto sendo negadas por aí com uma certa freqüência. Talvez a situação seja mais alarmante do que eu penso… Mas bem. Vamos lá.

Todo mundo que ainda não atingiu um estado verdadeiramente patológico sabe o que pensa e o que quer. Basta evocar a própria consciência por alguns minutos. Basta pensar a qual fim, efetivamente, visam suas ações. Ainda que sentimentos brotem de você como que do nada, é você, é o sujeito individual concreto quem decide o que fazer com eles. Por exemplo: eu posso ter vontade de matar alguém, mas não o faço. Ao mesmo tempo, eu posso amar alguém, mas posso escolher não demonstrar esse amor, escondê-lo… E não posso culpar o objeto do meu amor por me ignorar, a não ser que ele seja o Thomaz Green Morton (na verdade, não posso culpar ninguém porque não posso obrigar ninguém a gostar de mim). Daí aproveito logo para reiterar que não vejo nenhum problema com “preconceitos ocultos”, desde que permaneçam ocultos – afinal, como diz o autor da minha epígrafe, “preconceito oculto é algo tão letal quanto “porrada implícita”.

Por isso que você só pode ser culpado da intenção que realiza, e não da intenção latente. Quem faz Direito sabe muito bem que as pessoas respondem por seus atos e pela cadeia de fatos em que aqueles se inserem, e não pelas intenções escondidas.

Mais exemplos. Leitora: se estamos namorando, e eu traio você, o que acontece? Pode ser que eu só estivesse com vontade de dar uma saída com aquela menina e mais nada, mas o “dar uma saída com aquela menina” – ainda mais se levado às últimas conseqüências – tem uma implicação da qual eu estou perfeitamente consciente. Se a conseqüência é que você não tolera sua nova posição de corna, então eu devo arcar com ela. Você, leitora, armará um escarcéu, me trairá, dirá para todas as suas amigas que eu não presto etc. E você sabe muito bem o que me diria se eu resolvesse dizer que quem te traiu foi a minha testosterona, não é? A não ser que já exista uma ideologia de corno, sei lá. Se até maconha tem ideologia e deputado, por que não?

Bem, o fato é que as implicações reais dos nossos atos vão, muitas vezes, além da nossa consciência; e não é porque as desconheçamos que elas se tornam inexistentes. Ainda que, te traindo, não me passe pela cabeça (olha, tem pessoas que realmente não pensam. Tratarei delas depois) que você pudesse se sentir ultrajada com isso, você se sente – é uma conseqüência impremeditada. Agora há pouco mesmo eu esbarrei, no mesmo Jardim das Aflições, com uma frase de Max Weber: “a História é o conjunto das conseqüências impremeditadas das ações humanas”. No entanto, o sujeito causador está lá: quem te traiu fui eu porque quem saiu com a outra fui eu. A responsabilidade, ou a possibilidade de responder por algo, o princípio de autoria, está tudo aí.

Admito um contra-argumento: mas e se a pessoa não estiver consciente do que faz? É bem verdade que há pessoas com um coeficiente gigantesco de inconseqüência. Porque tem gente que ou não sabe o que faz ou sabe muito bem e está mal-intencionado. Os socialistas, por exemplo. Após mais de cem milhões de mortos (mais que todas as guerras do século), alguém que se pronuncie a favor disto só pode ser idiota ou canalha. E quem defende alguma posição socialista numa universidade católica e “pontifícia” (o Capeta sabe o que ela tem de pontifícia) só pode ser mais idiota ou mais canalha ainda.

Mas voltando ao nosso conturbado romance, leitora: se eu traio você, só há essas duas possiblidades. Ou eu te traí sabendo o que fazia, e sou canalha, ou eu te traí sem saber, e sou idiota, inconseqüente (aliás, quem aceitar a desculpa de que o outro “não sabia o que estava fazendo” é mais idiota ainda, merece ser traído mesmo). Numa palavra melhor: inconsciente. E não há mal maior do que a falta de consciência.

Que dizer, então, das pessoas que não têm a menor consciência do que fazem? Que se deve ter alguma pena delas, e nunca achar que elas têm algo importante para ensinar (a não ser muito acidentalmente, e mesmo assim é melhor duvidar um pouco). Porque, se a conexão entre autor e ato e inevitável, por outro lado a conexão entre ato e consciência do autor não é tanto. O problema todo é que hoje em dia eu vejo muita gente que prefere fazer a apologia da irresponsabilidade, ou seja, preferem dizer que não são senhores de si mesmos, preferem sempre apelar para causas externas, como se fossem coitados cerceados por intransponíveis limites que o mundo lhes impõem. Ora, quem nega a culpabilidade é coitado, é objeto inerme, fantoche nas garras de forças falsamente superiores que acabam se tornando superiores mesmo. E, amigo, se um pedaço de chocolate é mais forte que você, ah, você está é mal…

Pode até ser que a maioria se enquadre nisto aí: a maior parte das pessoas tem alma de escravo, já dizia o bom Aristóteles. Querem atribuir a outro suas responsabilidades, querem alegar apenas estarem “cumprindo ordens” ou que são “vítimas” de alguma coisa: do tesão irrefreável, da gula, do instinto assassino, do sistema, da família opressora… Essa gente merece um governo totalitário mesmo, merece o código de trânsito. Querem ser apenas animais altamente amestrados mas com a liberdade de serem animais, isto é, de dar vazão a todos os instintos. Tentar chegar a ser humanos, jamais.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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