Política para quem precisa de política

Quando fui entrevistado por Cláudio Cordovil, um ser (ou talvez um nada, que eu percebi que ele gosta de Sartre) muito estranho do Jornal do Brasil – aquele que suja a mão (e aí você suja as paredes, os pratos, tudo) – , ele me disse que “quando você acorda de manhã, isto já é um ato político”. Na revista República tem um outro sujeito dizendo que, com a vinda do U2, um velho “axioma” estaria sendo “reatualizado”: o que diz que “todo ato é político”.

Examinarei cuidadosamente estas proposições. Primeiro, por axioma deve-se entender uma verdade auto-evidente, de intuição imediata e que prescinde de prova. Por exemplo: a linha reta é o caminho mais curto entre dois pontos. Daí creio que, através de uma comparação, se possa concluir obviamente que a idéia de que “todo ato é político” não é uma verdade indubitável – muito pelo contrário. Além disso, um axioma não precisa ser atualizado, por ser um universal; não importa o que aconteça, ele paira indiferente à História. Há mil anos a linha reta era o caminho mais curto entre dois pontos e o será daqui a mil anos da mesma forma.

Ora, a política pertence ao reino das coisas relativas, e não das absolutas. Política presume uma sociedade com um certo tipo de organização e com um certo grau de complexidade; além do que, se restasse somente um ser humano sobre a terra, ele não precisaria de nenhuma política. No entanto, os axiomas todos restariam incólumes.

Só posso inferir, pois, que a idéia de “todo ato é político” como um axioma é fruto de uma mente que já se desligou de qualquer noção de absoluto, e que colocou um sentido relativo no lugar de um sentido universal. No caso, este é o velho “sentido da História”, noção que passo a examinar.

A História, fruto das ações humanas premeditadas e de suas conseqüências impremeditadas, na verdade nem faz sentido nem não faz sentido; seria como se os gatos latissem. Uma coisa só pode fazer sentido para um indivíduo humano, e nenhum indivíduo humano vive toda a História. Se supuséssemos um indivíduo que vivesse toda a História, ele seria hipotético, e assim o sentido que este ser hipotético daria a História seria igualmente hipotético. E, para piorar, só podemos supor a respeito do passado, já que o presente está continuamente se transformando em passado e o futuro ainda não chegou. Nada impede que o futuro venha e desminta por absoluto a hipótese que se supõe ser o sentido da História.

A História só poderia, então, fazer sentido do ponto de vista daquilo que restará após os tempos, ou seja, Deus. Nesta perspectiva, todo ato que não seja religioso é que não faz sentido. Porém, para uma ideologia atéia, o sentido terá que ser dado por outra coisa; e fora de Deus e dos princípios metafísicos (lembrando que Aristóteles chamava sua Metafísica de Teologia), tudo é relativo. Agora, por que cargas d’água escolheram, entre as coisas relativas, a política e não os pães de mel para dar sentido último à vida humana, é coisa que me escapa (ou não escapa: o desejo mal disfarçado de poder é que leva as pessoas a afirmar as maiores bobagens com a maior pompa e descaramento).

Ou seja: se “todo ato é político”, então a política tem ou deveria ter o estatuto de uma religião, de uma ciência metafísica, portadora de verdades universais que governam nossos atos. Se assim é, o homem pretende ser Deus e enxergar ou mesmo determinar o tal “sentido da História”. A diferença é que as verdades universais são verdade quer se queira quer não: dois mais dois dá sempre quatro, a linha reta é mesmo o caminho mais curto entre dois pontos… Já as “verdades” da política são verdades relativas: só são verdade dadas certas condições que variam segundo o tempo e o espaço.

Por exemplo: a noção de Estado. Nem todas as sociedades humanas tem um Estado; só é possível entender o que seja Estado ao se referir às condições específicas dos povos europeus. Outro exemplo melhor ainda: a noção de direitos. Um direito é na verdade o símbolo de uma negação. Somente quando o indivíduo está privado da possibilidade de fazer algo, ele se

questiona sobre o direito dele a fazer aquilo. Ninguém ainda se questiona sobre o direito de respirar, mas o Estado brasileiro já questiona o direito que o indivíduo tem ao seu cadáver. Veja lá se alguma tribo indígena tem uma palavra da sua língua para direito, ou se existe este termo em alguma sociedade não-européia (ou europeizada). A noção de direito é uma noção inventada por brancos europeus e que só faz sentido dentro desta cultura.

O grande problema, pois, em dizer que “todo ato é político” está no seguinte: a politização de tudo pretende dar um status de absoluto ao relativo e um status de relativo ao absoluto. As leisda aritmética e da geometria e a Metafísica são absolutas; elas são independentes da vontade humana, porque elas sim são o próprio sentido do real. Mais uma vez: dois mais dois dá quatro, Deus existe, a linha reta é o caminho… No entanto, a moderna “ciência” social – dos lados da direita e da esquerda, porque afinal são apenas variations on a theme: uma quer o livre mercado, a outra quer o mercado na mão do Estado – diz que a Metafísica é superstição, um produto da cultura; e diz que todo ser humano tem direito a tudo.

É a confusão entre o essencial e o existencial : todos somos humanos, temos cérebro, fígado, uma alma imortal, a possibilidade da linguagem… Mas, ao contrário do que pretende a Declaração Universal dos Direitos Humanos da Revolução Francesa, nem todos são iguais perante a lei. Todos sabem, por exemplo, que ter dinheiro no Brasil significa ter uma certa segurança quanto à possibilidade de ser criminalmente condenado. Até porque, na hipótese mais simples, quem tiver mais dinheiro poderá contratar um advogado melhor.

No fundo, este é o fruto do “esquecimento do eterno”(nas palavras do poeta José Enrique Barreiro). Uma vez que se perdeu o Sentido, tudo vai para o brejo. O homem que não acredita em Deus já acredita em tudo, e, perdido o senso da realidade(ou, como querem muitos, na universidade principalmente, a realidade nem existe. É uma desgraça que a realidade seja tão confundida com a nefasta “coisa-em-si” de Kant), cada um quer que a sua ficção pessoal – a ideologia – determine o sentido das coisas. E é justamente deste desejo diabólico de substituir a realidade por uma ficção – “sereis como deuses”, disse a serpente no Éden – que nascem os Hitlers com suas idéias de raça pura e os Lênins e Stálins com a idéia de que tudo deve obedecer ao Estado Revolucionário Socialista, internando como loucos os opositores e tantas atrocidades que o próprio Hitler dizia aprender com ele.

Posso concluir, por fim, que a idéia de que “todo ato é político” é fruto de uma gigantesca patologia cultural, patologia esta que se realiza obviamente na mente de vários indivíduos. Pretender que “tudo é relativo” conduz imediatamente à idéia de que não há Bem ou Mal, e por conseqüência ao desejo de fazer com que alguma idéia – relativa – que não tem preponderância sobre outra, como a verdade tem sobre a mentira, passe a governar os aspectos da existência. Afinal, se não existe verdade, nem um Deus que julgue, nada impede que alguém se sinta infantilmente legitimado – segundo a sua própria moral pessoal, agora elevada ao status de moral universal – a matar, fazer experiências, manipular pessoas através da “educação”, da propaganda… Infelizmente, isso é o que acontece numa época que se crê a mais esclarecida de todas.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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