O massacre do bom senso

Diante de certas manifestações de total falta de senso que andam invadindo os pilotis, é muito valorosa a advertência do historiador Evaldo Cabral de Melo, em recente entrevista para o caderno “Prosa e Verso”, do jornal “O Globo”.

Dizia ele, com coragem rara em nossos intelectuais, que política retroativa não é História. A História, para que se pretenda ciência, deve ser feita com documentos e elementos verificáveis. Em outras palavras, para estudar a História, não nos cabe impor modelos à realidade ou querer que o passado se adapte às nossas aspirações presentes. É preciso buscar a veracidade, buscar o fato, deixando que a realidade se apresente a nós tal e qual ela foi e não como gostaríamos que ela fosse.

Não digo com isso que a atividade historiográfica vai sempre ser capaz de descrever todos os fatos passados, mas que ela só atinge seu verdadeiro propósito quando se restringe àquilo que é capaz de descrever, e o faz com honestidade. Nada pode ser pior para a descrição histórica do que a contaminação ideológica, que impede os historiadores de enxergar o que não se adequa a sua pobre visão de mundo.

Uma vez descrita a realidade, aí sim é possível emitir sobre ela um juízo valorativo. Não me estenderei aqui sobre a necessidade de emitir esse juízo. Basta dizer que, sem que possamos enxergar a História de um ponto de vista universal e absorver dela algo que nos informe sobre nós mesmos, o estudo histórico deixa de ser necessário. Ora, incorporar à nossa vida verdades que nos tenham sido legadas por atos ou palavras dos homens que nos antecederam requer a emissão de um juízo.

Deste ponto de vista, podemos delinear, como aponta Olavo de Carvalho, três tipos de atuação histórica: aquele que não tem nenhum tipo de significação fora do contexto em que se desenrolou, aquele que deixa para os tempos seguintes um modelo de ação inspirador (e tem importância universal) e aquele que deixa atrás de si uma sombra de pesadelo, espécie de modelo negativo – o que não se deve repetir.

Tudo isso vem bem ao caso nesta época de exaltação ao movimento “revolucionário” de Canudos e ao seu chefe Antônio Conselheiro.

Dar a esse movimento um valor além de suas próprias circunstâncias é uma falsificação enorme, um exemplo perfeito da citada política retroativa. Antônio Conselheiro não foi um visionário e Canudos não foi um Movimento dos Sem-Terra avant la lettre. Foi, simplesmente, uma manifestação de crendices populares, um fenômeno localizado, provocado por um sentimento de impotência ante as novidades republicanas. Não há nenhuma profundidade mística, nem reivindicações progressistas nesse movimento. Há, sim, fanatismo e ignorância, recusa a qualquer autoridade e espírito de desordem.

Quando a nossa esquerda progressista elege como ídolo um sujeito como Conselheiro, é que perdeu completamente a noção dos fatos. Até porque o movimento foi reacionário, anti-progressista. Conselheiro criticava as mudanças introduzidas pela República, pregava a volta do Império e se aproveitava do sentimento religioso popular. A atração que exerceu – e exerce – vem da necessidade de ter algum modelo, de depositar as esperanças em alguma figura pública. Mais ainda, em alguém que se diz investido de poderes divinos.

Citemos a maior autoridade no assunto, Euclides da Cunha, mesmo correndo o risco de destruir doces ilusões: “Canudos ia se tornando o homizio [esconderijo] de famigerados facínoras.” De fato, o que Euclides observa no movimento é o desrespeito ao que quer que seja, aliado a uma devoção fanática a um líder messiânico, a quem foram atribuídos até milagres.

Não pensem que apóio o massacre. Pelo contrário. Tão ou mais selvagens que os sertanejos foram os militares, que não se esforçaram nem um pouco para compreender o movimento e nem refletiram sobre a imprevidência de suas ações.

O próprio Euclides os advertira que o extermínio de Canudos levaria a uma guerra longa e sangrenta. “O sertanejo é antes de tudo um forte” e lutou até o fim de suas forças. Ignorando esse fato, o sucessivo envio de tropas do Exército para a região levou a três conseqüências problemáticas, mutuamente relacionadas: a exaltação dos sertanejos, que culminava com o aumento do prestígio de Conselheiro; a morte (perfeitamente evitável) de milhares de soldados e a dizimação da população de Canudos; e o crescente atrelamento do poder político ao poder militar. A Nova República se tornava refém de seu braço armado.

Esse breve resumo pretende mostrar que não nos cabe dar à revolta de Canudos um status de luta do Bem contra o Mal. Reconheçamos que houve erros de ambas as partes, da mesma forma como ambas tinham suas razões. A terra é uma reivindicação legítima, desde que não se faça disso um instrumento para a instalação do caos – e, vale ressaltar, o discurso de Conselheiro tende mais para o caos do que para a legitimidade. Da mesma forma, a segurança nacional é uma causa legítima, deixando de sê-lo quando o poder armado incorre em abusos – caso no massacre de Canudos. Endeusar qualquer um dos lados é uma imprevidência e uma estupidez. Satanizar o outro, idem.

Mas será que adianta o apelo à razão, quando o público universitário está enceguecido pelas trevas da ideologia, e a ânsia de poder político se sobrepõe a qualquer outra aspiração da alma?

(Rio de Janeiro, 07 de outubro de 1997)

Um comentário em “O massacre do bom senso”

Os comentários estão encerrados.