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Eles se Merecem Por Pedro Sette Câmara Há algum tempo andou pelos jornais o caso da professora Adriana Nogueira, que dava aula na Cultura Religiosa da PUC-Rio. Tive aula com ela durante dois meses no segundo semestre de 1996, na matéria "O Homem e o Fenômeno Religioso", obrigatória para todos os alunos daquela instituição. Apesar de toda a confusão que houve na imprensa a respeito, e mesmo dentro da PUC, o que gera muita desinformação, quero ressaltar que tudo aquilo que vou relatar são apenas fatos que testemunhei seguidos de conclusões que eu mesmo que tirei. Por que tive aula somente por dois meses com ela, e não por quatro, como seria de se esperar? Porque a professora simplesmente um dia não apareceu para dar aula e nunca mais voltou. A turma continuou indo até a sala especificada durante um mês, até que o Departamento de Teologia se dignou a dizer aos alunos que não haveria mais aulas, e que o trabalho necessário para a conclusão do curso deveria ser entregue até o dia tal no Departamento. A turma protestou por não ter professora e, até onde eu soube, todos foram aprovados na matéria sem precisar fazer o tal trabalho. Por que a professora sumiu? Tendo o telefone dela, pude perguntar. Ela então me contou que esperava um filho e que sua gravidez era de risco. Inicialmente, teria que ficar em casa de repouso absoluto por duas semanas devido a uma complicação, mas esta parece ter se estendido e o repouso, então, deveria ser absoluto até o fim da gravidez - o que não adiantou muito, pois ela perdeu o bebê mesmo assim. A razão alegada por ela para estas complicações era de fundo emocional. O que havia de emocionante? A professora Adriana estava vivendo com um homem divorciado, morando sob o mesmo teto. Este homem, por ventura ou desventura, é filho de Carmencita (cujo sobrenome ignoro), uma senhora que estaria sempre com D. Eugênio Sales e que tem alguma autoridade, neste caso, se não me engano, ligada ao ensino de religião nas escolas. D. Eugênio é chanceler da PUC-Rio. Carmencita e a ex-mulher do novo "marido" de Adriana tramariam contra esta última, deixando-a muito nervosa. Numa tacada final, sua demissão da PUC foi executada. Como? Num belo dia de janeiro, o padre Bouzon, diretor do Departamento de Teologia, convocou uma reunião, e aprovou uma nova a regra para a Cultura Religiosa - "todo professor deve ter pelo menos dois terços do curso de Teologia completo". A professora Adriana, aluna iniciante deste curso na própria PUC-Rio, não tinha. Mas, ao mesmo tempo, ela me contava que tinha uma excelente relação com o padre Bouzon, que gostava dela porque ela tinha sido educada na Europa, formada em Filosofia e Psicologia na Itália, um frescor na caipirice (patente) do Departamento de Teologia da PUC-Rio... A nova regra seria uma desculpa para se livrar desta inconveniente inimiga de uma amiga de Sua Eminência. Isto foi a parte que ela me contou. As declarações da PUC nos jornais alegavam que ela, por viver com um homem casado, não estava capacitada para dar aulas na Cultura Religiosa - sua vida não estava de acordo com a moral católica. A respeito disto a professora Adriana me disse que a Cultura Religiosa, na verdade, não tem pretensões de "evangelizar" os alunos, o que a dispensaria de ter uma conduta pessoal condizente com os valores católicos. Convido o leitor a esquecer, por um momento, que autoridade teria a PUC do Rio para cobrar qualquer atitude moral ou religiosa, e a prosseguir. Se a Cultura Religiosa (divisão do Departamento de Teologia) não se define como apostolado(a evangelização, a busca da conversão) como definido pelo documento Apostolicam Actuositatem do Concílio Vaticano II e pelo "novo" (novo sim) Catecismo, então a argumentação de que a professora deveria viver segundo a moral católica para poder ensinar religião é simplesmente falaciosa, ou falsa e canalha para quem não entendeu. Para quem ignora os fatos, devo testemunhar que nesta matéria todas as religiões, do vodu e da macumba ao próprio Catolicismo, são tratadas igualmente, o que por si já desmentiria, na prática, o ensejo do apostolado. A professora Adriana move um novo processo contra a PUC. Ela já ganhou um processo trabalhista. Acreditava eu, ingenuamente, que a argumentação de seu advogado seria baseada no que acabei de expor, por ser o mais óbvio, além de absolutamente irrespondível. Mas não - a toda esta argumentação primorosa da PUC corresponde uma outra que não deixa por menos, vinda da genial cabeça do Dr. Júlio Zimmerman, advogado da professora. Segundo ele, a PUC não tem o direito de impor qualquer norma católica por estar localizada em território brasileiro, tendo de obedecer primordialmente à Constituição, livro que estaria acima de qualquer um dos livros sagrados. Segundo ele, a PUC não pode agir de modo católico porque assim uma universidade israelita teria de se governar pela Torah, e uma universidade islâmica pelo Corão - coisas que para ele parecem verdadeiras aberrações. Junte-se a isto o fato de que sua defesa vai buscar apoio na pior literatura anti-clerical que há, indo desde argumentos de meia-tigela até mentiras sobre a Inquisição. Sei disto tudo porque de todos os alunos da professora Adriana, sou o único a ter aceito o papel de testemunha - os demais têm medo de encontrar alguma represália por parte da PUC, como corte de bolsas. Uma primeira audiência tinha sido marcada, e lá fui eu tomar conhecimento dos novos capítulos desta historinha nauseante. Mas a audiência não se realizou: algumas testemunhas não foram encontradas. O padre Bouzon, por exemplo. Quando o Oficial de Justiça foi procurá-lo na PUC, ouviu de funcionários que ele, Diretor do Departamento de Teologia, "só ia à PUC rezar missa". Eu vi, com estes meus olhos, o advogado da PUC dizer, já com bastante raiva, "é mentira, ele está lá todo dia, o dia inteiro". Quanto à mãe do novo "marido" de Adriana, Carmencita, simplesmente sumiu - e continua sumida até hoje, pois a nova audiência, marcada para o dia 04/11, não aconteceu por causa de sua ausência. E, se falta alguém que mereça menção nesta história sem heróis, fico com a sugestão da própria professora Adriana: ninguém no Departamento de Teologia ficou a seu favor. Aquele departamento é dominado pelo discurso pseudo-rebelde da Teologia da Libertação, cheio de feministas libertárias como a irmã de Leonardo Boff, que gostam de se mostrar como a própria verdade incompreendida pelas trevas, e rigorosamente nenhuma delas foi capaz de soltar um pio em favor de Adriana. As cabritinhas aquiesceram da maneira mais subserviente a mais uma das tradicionais opressões perpetradas pela direção daquela instituição de adestramento ideológico - o que, aliás, apenas prova a eficácia de seu "ensinamento". No fim, tanto o Departamento de Teologia merece ter professores (professoras sobretudo) tão covardes e conformistas, quanto merece que a professora Adriana lhe cause todo este incômodo, que por sua vez não merece o apoio de ninguém sincero, uma vez que sua argumentação não se baseia na verdade mas em princípios que ficariam melhor na boca do reitor da PUC do Rio. Enfim, eles se merecem.
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