Sociedade dos sonâmbulos

Recentemente, assisti a Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir. Já tinha visto o filme à época de seu lançamento, e recordo-me de não ter achado nada demais. Se isto é um sinal de que não encontrara nada de admirável no filme, nada que me parecesse muito edificante, também não esperava que ao revê-lo fosse encontrar uma apologia de quase tudo que é mau - com ares, é claro, de defesa de tudo que é bom contra a sociedade repressora.

Não há melhor maneira de produzir o mal do que incitar um homem mau ou despreparado contra alguma coisa que seja realmente má sob algum aspecto; o problema é que tudo é mau sob algum aspecto - afinal, este não é o mundo dos anjos. Posso convencer alguém a odiar os pais que deram vida, casa e educação, se eles também tiverem gritado um pouco além da conta, ou regateado os fundos para aventuras noturnas.

No filme, este é o papel do professor John Keating: logo em sua primeira cena na sala de aula, em que manda os alunos rasgar do livro-texto as páginas a respeito daquilo que constitui a forma da poesia, está apenas incitando-os a dar vazão ao ódio que têm contra o que consideram uma imposição de chatice. O ensino de qualquer coisa, por mais elevada que seja, é um mal para aqueles que não desejam aprendê-la. A partir disto, porém, o filme não sugere que a educação só funciona quando é consentida, mas que o estudo da arte da poesia não vale nada: a poesia estaria em algo mais misterioso e sutil, e não na contagem de sílabas métricas. Isto em si também é verdade, e o estudo das formas pode até ser desnecessário para a criação de grandes obras, mas pessoalmente só conheço, e de ouvir falar, de uma grande obra poética criada sem o conhecimento das regras da arte. Quem a fez foi um místico sufi no fim da vida, e não um garoto de escola secundária, a propósito. De resto, o estudo das formas é imprescindível para a criação artística, pois ele é que prepara o artista para a chegada da inspiração: que seria de Camões se não dominasse o verso decassílabo antes de compor Os Lusíadas? Assim como os músicos não pegam simplesmente no instrumento e começam a tocar suítes de Beethoven, mas estudam por anos antes de serem capazes de executá-las ou de compor alguma coisa, também os poetas não compõem nada de valor sem conhecer o funcionamento da melodia da linguagem. Passar por cima deste estudo é jogar fora a parte mais transmissível da arte, tornando-a incompreensível a todo aquele que não for um artista ou crítico nato.

O mal, enfim, do ensino das regras da poesia estava na sua extemporaneidade. Daqueles alunos, nenhum parecia ter um interesse por poesia: se tivessem, não teriam rasgado as páginas do livro como mandou o professor. Uma mudança de assunto era portanto bem-vinda. Joga-se a criança fora junto com a água do banho, e vão-se todos a ler poeminhas que Sócrates julgaria adulação do pior tipo: o "carpe diem" trazido por Keating incita antes os garotos a fazer qualquer coisa que lhês dê na telha do que a pensar na finalidade daquele dia, na melhor maneira de aproveitá-lo. Para isto, a futilidade de "gather ye rosebuds while ye may" - tão contrastante com o Shakespeare que abandonaram, que em seu soneto XVIII (o famoso "Shall I compare thee to a summer's day?"), apontava a beleza que não se vai com os dias e as estações; Shakespeare este que aliás será retomado na história mais tarde, com finalidades meramente eróticas…

A esta altura do filme, quando os garotos decidem reviver a "Sociedade dos Poetas Mortos", já não vivem mais no mundo, mas apenas em um mundo seu próprio. Não é à toa que Keating diz que "somente em seus sonhos podem os homens ser verdadeiramente livres": a liberdade, para ele, só existe fora da realidade, o que equivale a dizer que a liberdade pressupõe a supressão do mundo, cujo lugar seria tomado por um ego cosmicamente inflado. A título de curiosidade, isto é o espírito gnóstico (no sentido da heresia) puro e destilado, aquele mesmo que tem Harold Bloom como defensor no campo da literatura.

Se chegamos a um clímax em que a tese do filme chega ser explicitada, isto é, a afirmação dos sonhos como o terreno da verdadeira liberdade, está lançada a oposição a Heráclito, para quem "os homens que dormem estão cada qual em seu mundo e os que estão acordados estão todos no mesmo mundo", e só há duas saídas do ponto de vista dramatúrgico. A primeira é mostrar que os personagens são loucos mesmo, clinicamente pirados.

A segunda saída, tomada pelo filme, é forjar um arranjo doloroso entre o so-called mundo real e a imaginação desvairada da garotada, arranjo em que os dois elementos tensionados sairiam perdendo, mas um só sairia com a pecha da maldade perante o espectador. O diabólico é que os dois elementos estão com seu lado mau valorizado: a escola é má pelo seu aspecto burocrático e repressor, e o professor Keating é mau por seu escapismo. Quem escolhe um dos dois lados para o papel de mocinho está apenas optando pela versão da maldade mais palatável a seu gosto pessoal. Em qualquer caso, a realidade mesma é posta para escanteio.

Um dos meninos, então, se mata porque o pai não permite que ele siga sua vocação de ator. O suicida, covarde por excelência do Ocidente, vira herói. Como o menino teria sido inspirado pelo professor Keating, a escola busca puni-lo para obter alguma reparação; porém, a premissa é falsa: o professor não pode de maneira alguma ser responsabilizado pelo suicídio do garoto. Os alunos restantes são forçados pela escola a assinar um documento atribuindo a responsabilidade ao professor, e o fazem sem opor resistência maior do que uns segundos de hesitação. Na cena final, quando Keating aparece na sala de aula para pegar suas coisas, todos sobem na mesa e declamam o verso de Walt Whitman que marca o filme, "O captain, my captain". Parece um ato de grande bravura fazer isto diante do diretor da escola, que assume provisoriamente o posto de professor de literatura. Mas é apenas um ato de auto-engano, pois o momento de ser bravo já tinha passado: todos se mostraram covardes ao assinar o documento. Declamar poeminhas não faria a menor diferença, a não ser talvez no mundo de seus sonhos.

Está firmado aí o ideal moderno: obediência total à autoridade, por medo de não progredir na vida, mas temperada com uma rebeldia que não passa de pose. São aqueles que nunca apostaram um segundo de sua vida naquilo que acreditavam, porque nunca acreditaram em nada, preferindo guardar o fim-de-semana para refugiar-se em seus sonhos. O problema, claro, é que os dorminhocos aumentaram absurdamente de número, e os poucos insones têm suas dificuldades em meio ao sonambulismo reinante.


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