Os Bons Selvagens
Por Pedro Sette Câmara
A cultura brasileira acabou. Não falo da alta cultura, universal, que sobrevive – e bem – nas mãos de filósofos como Olavo de Carvalho ou poetas da estatura de um Bruno Tolentino ou de um Gerardo Mello Mourão. Falo da cultura no sentido antropológico, nos hábitos do dia-a-dia, na música popular, na linguagem corrente. O Rio de Janeiro, por exemplo, está ficando parecido com São Paulo. E não há nada pior para o Rio de Janeiro do que ficar parecido com São Paulo.
Não é que São Paulo não seja Brasil. É Brasil no sentido do potencial econômico, da diversidade de culturas que este país agregou à sua, mas também é Brasil no que este país tem de pior: o complexo de inferioridade e o resultante desejo de mimetizar a metrópole cultural – mas veja o leitor que aqui o cultural também acaba sendo no sentido antropológico – os Estados Unidos da América. Os paulistas são, em grande parte, contrafações de americanos, com a eficiência, a respeitabilidade hipócrita, o falso moralismo que se esvai no desejo crescente de pertencer ao mundo da moda.
O que o Rio tinha de melhor era justamente a ausência das formalidades desnecessárias, a falta de vergonha de si mesmo, que muitas vezes se traduzia em um certo desleixo. Não que o Rio não tenha seus defeitos, iguais ou piores aos dos paulistas, como talvez a própria falta de vergonha pudesse ser considerada. Mas ela trazia uma autenticidade, uma sensação boa no contato com as pessoas, uma sensação que de fato é difícil experimentar na América e na Europa Ocidental. Cada qual tinha o seu lugar, e eram todos amigos. Ouço histórias de um tempo em que as pessoas que moravam na Zona Sul tinham seus amigos nos morros, e visitavam-se mutuamente, naturalmente, sem que as amizades tivessem, por si, alguma importância do ponto de vista das ciências sociais. As pessoas, ao que parece, gostavam umas das outras por si mesmas, e não em função deste ou daquele desejo escondido, como os garotos da Zona Sul que vão para lugares ermos em busca do “mundo real” ou os miseráveis que vêm à Zona Sul com um desejo análogo. As pessoas já não mais se sentem bem onde estão.
Podemos olhar a música popular. Não vou falar de “MPB” porque considero esta uma sigla abominável que serve para designar trilha sonora de reunião do Partido Comunista e música ambiente de lugares metidos a besta. Já idolatrei por muito tempo esta idiotice e sei bem que ela só serve para estas duas coisas. Falemos, pois, da canção popular inclassificada. Se olharmos os pagodes de antigamente, como as músicas de Zeca Pagodinho, percebemos que não passam de despretensiosas canções que às vezes trazem um tom humorístico. O Zeca Pagodinho é apenas o Zeca Pagodinho. E é bom que seja assim. Mas os pagodeiros de hoje, além de usar teclado e saxofone, vestem Giorgio Armani. O neo-pagode é música da elite econômica do país. Não que eu tenha alguma coisa contra isso – ou que tenha alguma coisa a favor. O fato é que o pagode já não é o que era antigamente.
É o capitalismo, dirão alguns. De fato é. O capitalismo acabou com a música popular, e matou o desleixo carioca, colocando em seu lugar o desejo de parecer que “se venceu na vida” ou algo assim. A música popular, assim como tudo o mais, só tem valor enquanto meio de ascensão social. Os garotos pobres querem parecer ricos, e os garotos “ricos” querem parecer pobres porque assim, além de ricos, também parecem inteligentes. Não há caso melhor para ilustrar isto do que o de Gabriel o Pensador – claro que nem é preciso comentar o “Pensador”, que neste epíteto fica mais parecendo o nome de um utensílio doméstico do que qualquer outra coisa.
Ganhar dinheiro tirando onda de pobre, eis a velha mania do “artista” e do “intelectual” brasileiro. Culpa do Vinícius de Moraes, que era um grande poeta e depois ficou por aí parecendo uma pomba-gira, alcoólica e gorda, posando de ser elemental. Todo aquele romantismo velhaco de Orfeu mostra apenas a sua capacidade de estranhar as coisas do Rio. A adoração de Vinícius de Moraes, e de todas as pessoas ligadas à bossa nova e aos “movimentos” subseqüentes pela cultura popular brasileira é a mesma que sente um gringo educado em Oxford. Vêem o exótico, e tanto o consideram inferior que não o assumem senão sob a máscara do kitsch e de alguma produção nova-iorquina. Bossa-nova é o cacete. É música de americano. Vocês já ouviram “O morro não tem vez”? Parece feita para ouvir no metrô de Nova Iorque – que, aliás, é onde a famosa “MPB” parece mais natural. Aqui a “MPB” parece coisa de gringo. Lá, parece uma variação aceitável de algo perfeitamente local. Assista a um espetáculo no Central Park Summerstage para você ver.
Esse é o nosso grande pecado: querer fazer papel de bom selvagem. Essa é a vocação do artista brasileiro no exterior, dando continuidade ao trabalho dos vários índios que foram levados para exibição na Europa nos tempos do reino (que o Brasil nunca foi colônia, ao contrário do que ensinam esses mentirosos contumazes que são os professores de História). Aqui acaba o papel de vilão do capitalismo e começa o do comunismo. Se o capitalismo industrializou, tornou lucrativo ser o bom selvagem, o esquerdismo criou – para falar seu próprio linguajar – a superestrutura ideológica da boa selvageria, com infindáveis teses universitárias sobre samba, bossa-nova e adjacências. Não é à toa que os universitários de ontem hoje escrevem encartes de CDs de “MPB” americanos. Poderíamos até dizer que o que hoje conhecemos como “cultura brasileira” é fruto de duas sensações: a fascinação e a intimidação do índio pela eficiência da arma de fogo e o desejo de perder-se no “paraíso” do português. O bom selvagem queria ser europeu e o europeu queria ser bom selvagem, e até hoje é assim.
Mas, voltando à canção popular especificamente, é claro que é idiota fazer uma tese, ou simplesmente pensar muito tempo a respeito de Caetano Veloso ou Tom Jobim. No fim, tudo isto se resume a uma variação afrescalhada de show de mulatas para turista americano (e pergunte onde é que eles ganham dinheiro). Mas não seria um problema se esta idiotice ficasse restrita. O grave é que ela acaba por contaminar as pessoas, que se sentem superiores por ouvir música legitimada pela classe acadêmica, e os “artistas”, que passam a se sentir mais importantes do que o número de discos vendidos, fingindo que não são um produto da cultura de massas. O culto da “MPB”, que nada tem a ver com o que há de bom no Brasil, nos anais universitários, não passa do culto que um ignorante presta à sua própria condição.
É por isso que a cultura brasileira acabou. A supervalorização da banalidade não é própria de um povo, mas sim de um segmento da sociedade, os “intelectuais” modernos, instilados de antropologia, pessoas que infelizmente – neste caso – têm o poder de irradiar suas idéias e, mais propriamente, seus vícios mentais. O que era natural ficou artificial, formalizado por uma pseudociência e legitimado por uma pseudo-classe acadêmica, temperado pelo ressentimento – que os intelectuais do Terceiro Mundo sentem de forma especial – da sua origem humilde e da sua falta de colocação na “sociedade”.
Os pagodeiros não são mais pagodeiros, são figurantes de coluna social. Os figurantes de coluna social são pagodeiros. O malandro tomou ares de “protesto social”, e o samba virou “música de resistência”. Os mulatos são “100% negros”, e o governador é um garotinho. E, assim como o açúcar virou adoçante, o carioca virou paulista e passou a estilizar o desleixo, inventando a primeira cidade do Ocidente em que os próprios habitantes já são atrações turísticas, bonecos de um parque temático.
Desse jeito, a superação do meio pelo indivíduo não é mérito nenhum, mas antes uma obrigação, um imperativo categórico. Como viver num meio em que as pessoas fingem que são aquilo que de fato poderiam ter sido? Poderíamos ser um povo aberto e relaxado. Agora os cariocas – não sei o resto – são abertos e relaxados porque sentem que devem ser assim, mas já estão com uma tremenda vontade de ser paulistas, de “virar gente séria”.
O pior é tudo isso transportado para o suposto “meio intelectual”, que hoje é formado pela Grande Loja maçônica das universidades puc-públicas em torno de um credo esquerdista, ainda que às vezes tão esquecido das origens marxistas quanto os bantos esquecidos de seu deus. Ou o desleixo e a despreocupação são combatidos como uma praga ou são ideologizados, e eis toda a oposição entre as carreiras “sérias” como engenharia, direito, economia, e medicina e carreiras “mais sérias ainda” (a ponto de se crer merecedora de imensas somas de dinheiro público) como filosofia, letras e – bleargh! – “ciências sociais”. Para os primeiros, seriedade é paulistice. Para os segundos, é a mais falsa das carioquices. É claro que os primeiros ganham, porque entre o sujeito perfumado que sai do carro importado e o fedorento que pega ônibus todo dia todos preferem o almofadinha.
Enfim, tivemos a chance de criar uma cultura. Mas resolvemos, ao invés disso, parodiá-la. Seja nas ridículas obras de Oswald & Mário de Andrade, seja no pagode paulista, seja nos escritórios com divisórias de fórmica, tripudiamos sobre tudo que tínhamos de original e assim jamais permitimos que algum gênio fizesse a grande síntese brasileira, nosso texto formador. O povo virou massa nas mãos do capitalismo, os intelectuais viraram massa na mão do comunismo, passaram a comunistizar o povo e ergueram uma barreira de preconceitos sociológicos tão grande entre as classes que elas nunca mais se entenderam.
Resta pagar por isso, e tentar sobreviver aqui, neste universo de caricaturas, até que as contradições que os sociólogos meteram na cabeça de muita gente venham à tona e a saída seja, de uma vez por todas, o aeroporto. “O Brasil tem duas saídas: Galeão e Cumbica”, já dizia Roberto Campos. Se nossos favelados um dia não vierem cobrar o preço do ódio de classes semeado por uma elite econômica imbecil e um meio universitário mais imbecil ainda, estaremos de qualquer jeito fadados a, como cultura, servir de paraíso sexual para americanos e ingleses, a virarmos os grandes cucarachas da América Latina, rebolando para ganhar as bananas que cresciam em terras que um dia foram nossas. Ninguém se sentirá mal por isto. Teremos uma universidade para dizer que isto é certo, e para dizer até que isto é melhor do que ter uma cultura superior, do que criar uma nova civilização.
25/08/99