Mas o que me chama a atenção é o seguinte: há anos eu teria lido algo como “a busca desinteressada pela verdade” e essas palavras teriam recebido meu total apoio. Eu logo reclamaria da instrumentalização do conhecimento, blá, blá, blá. Hoje não consigo mais pensar assim… baseado em minha própria experiência. E, se você pensar bem, a própria expressão “busca desinteressada” parece um oxímoro. Se não há interesse, por que há busca?
É justamente aí que paro. Eu tenho interesse; aliás, interesses. O interesse é uma motivação. Essa motivação preexistiu a todas as minhas “buscas pela verdade”. Sempre que estudo, estudo atrás de uma resposta específica, e percebo, ao mesmo tempo, que só consigo encontrar a resposta de que preciso quando abandono alguma idéia idiota da qual gosto bastante.
Gosto da idéia de que uma universidade seria composta de uma gigantesca biblioteca, cursos livres, tutores que já saibam quais são as idéias que costumam tapar esta ou aquela verdade, e a obrigação - uma contrapartida - de produzir algum texto explicando o que você queria saber e onde você chegou. A idéia de que a universidade deveria ser uma máquina de produção de elites (em qualquer sentido) acaba pressupondo que a busca intelectual vai ter que acontecer em outro lugar, ou apesar da máquina.
Se a educação formal é baseada em responder a perguntas que não foram feitas (na nunca exaurida frase de Neil Postman), então ela está me atrapalhando, porque eu estou fazendo as minhas perguntas e quero as minhas respostas. Essas perguntas, aliás, têm origens diversas. Não vêm só de coisas que eu penso, mas também de coisas que me acontece, ou de desejos que surgem. Para dizer a verdade, não apenas eu não sei de onde virão meus próximos interesses, como sei que posso passar meses sem ter interesse nenhum. Se você não quer saber nada, para que estudar?
Disso não decorre uma apologia da solidão. Mas depois eu explico o porquê.
Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.
Não só eu começo a visualizar Alizée recitando Augusto dos Anjos quando a ouço cantar diluvienne e méthylène, como também visualizo Nabokov admitindo: “Ah, eu só queria escrever Morte em Veneza pra macho.”
Ou talvez as analogias estejam erradas, é que eu não consigo passar do primeiro parágrafo - muito bem traduzido - de Lolita, e também só vi o começo do filme de Morte em Veneza.
Neste sábado, 21 de junho, acontece no IICS, em SP, um simpósio sobre Bruno Tolentino. O evento começa às 9h30, e eu falarei às 16h15.
O IICS fica na rua Maestro Cardim, 370. É a rua da Beneficência Portuguesa. A estação de metrô São Joaquim é muito próxima - e isso na opinião de um carioca (é que paulistas e cariocas têm noções muito diversas do que “perto” significa).
A obra do poeta Bruno Tolentino, falecido em junho de 2007, representa um dos maiores desafios para a crítica literária brasileira. Reconhecido em vida como um dos melhores escritores de sua geração, foi o único poeta a receber por três vezes o Prêmio Jabuti, publicou dez livros em três idiomas diferentes e suas análises apresentam um vasto campo para considerações de ordem formal, estética e filosófica. Ainda assim, a real dimensão de sua poesia precisa ser devidamente estudada.
Com isto em mente, o IICS (Instituto Internacional de Ciências Sociais), em conjunto com o Instituto Bruno Tolentino, responsável pela obra do autor, promoverão em junho de 2008 um Simpósio que abrirá o caminho para uma crítica séria e corajosa, interessada em começar a compreender qual foi o impacto desta poesia que, por enquanto, se apresenta como um enigma a ser decifrado.
Programação:
9h30 – 11h: “Uma visão geral da obra de Bruno Tolentino”
Palestrante: Érico Nogueira, poeta, mestre e doutorando em letras clássicas pela USP.
Debatedores: Carlos Felipe Moisés, poeta e crítico literário, autor de “Poesia e Utopia” e “Poesia e Realidade”.
José Rodrigo Rodriguez, poeta e escritor
Mediador: Manuel da Costa Pinto, jornalista, coordenador editorial do Instituto Moreira Salles e colunista da Folha de São Paulo.
11h10 – 12h30: “O mundo como Idéia, ou: o ‘livro-arena’ de Bruno Tolentino”
Palestrante: Juliana Perez, doutora pela USP, professora de língua e literatura alemã na UFRJ.
Debatedores: Antônio Fernando Borges, escritor e jornalista, autor de “Brás, Quincas & Cia” e “Memorial de Buenos Aires”.
José Rodrigo Rodriguez, poeta e escritor
Mediador: Martim Vasques da Cunha, jornalista e coordenador do departamento de Humanidades do IICS.
12h30 – 14h30: Almoço
14h30 – 16h: “Bruno Tolentino e a literatura brasileira”
Palestrante: Jessé de Almeida Primo, crítico literário e autor do livro “A Linguagem da Poesia”.
Debatedores: José Jeremias de Oliveira Filho, poeta e professor doutor da Universidade de São Paulo.
Marcelo Consentino, mestre em filosofia pela Universidade Santa Croce, em Roma, e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP.
Mediador: Martim Vasques da Cunha, jornalista e coordenador do departamento de Humanidades do IICS.
16h15 – 18h: “Bruno Tolentino e a literatura ocidental”
Palestrante: Pedro Sette Câmara, poeta, tradutor e professor de Educação Clássica do Instituto Internacional de Ciências Sociais.
Debatedores: Nelson Ascher, poeta e tradutor, autor de “Poesia Alheia” e “Parte Alguma”.
Marcelo Consentino, mestre em filosofia pela Universidade Santa Croce, em Roma, e doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP.
Mediador: Manuel da Costa Pinto, jornalista, coordenador editorial do Instituto Moreira Salles e colunista da Folha de São Paulo.
Dom Lourenço Fleichman, em comentário de 13 de junho, explica o essencial sobre a possível influência de Rama Coomaraswamy sobre a Sociedade de São Pio X e o movimento tradicionalista católico. Eu mesmo pensava em escrever algo, mas ele, que tem fontes muito melhores do que as minhas, felizmente adiantou-se. Falta só fazer alguns acréscimos.
1. Se os membros da tariqat schuoniana acham perfeitamente normal ter um discurso duplo, por que acreditar em qualquer coisa que eles digam? Saber ou dizer a verdade não confere a ninguém autoridade, muito menos autoridade espiritual. Afinal, o diabo conhece todas as verdades.
2. Uma das ilusões mais comuns entre “defensores da verdade” é a idéia de que a verdade não pode servir ao mal. Mas, infelizmente, a pura conversibilidade entre o bom, o uno e o verdadeiro só se dá num plano metafísico. A acusação berrada serve ao escândalo e à desagregação. Se ela é verdadeira, deve ser tratada com mais discrição do que se for falsa.
3. Assim, um método simples para avaliar a credibilidade que se deve dar a uma afirmação como “a tariqat de Schuon manipula o tradicionalismo católico” é: quais os frutos que ela dará? Quem se beneficia da crença numa tese que dificilmente pode ser provada? A resposta é simples. A própria tariqat e todos os inimigos da Igreja Católica são os que mais se beneficiam das divisões entre os católicos.
Uma afirmação de “manipulação” diz respeito somente às vaidades. Você pode querer a verdade apenas por uma questão de segurança psicológica, para sentir-se no caminho certo e poder esfregar a “sã doutrina” na cara de quem você não gosta. Você quer ser católico tradicionalista para diferenciar-se da massa ignara que toca violão - e eu estou dizendo isso para admitir que já apreciei muito essa compensação psicológica. Assim, se você descobre que essas lindas verdades a que você se apega foram, em última instância, postas na sua cabeça por um mau-caráter de turbante, lá se vai a ilusão de autonomia e diferenciação que era a argamassa da sua psique.
Por isso, se eu fosse um católico “lefebvrista”, simplesmente perguntaria a mim mesmo: faz alguma diferença para mim saber se aquilo em que acredito veio de X ou Y? Ou será que no fundo tudo o que eu queria era alguma garantia psicológica de não estar sendo feito de idiota?
A propósito: hoje eu me designo como um católico romano “filotradicionalista”. Vou à missa nova onde dá para ir, assisto à missa antiga permitida e ficaria felicíssimo com a reconciliação dos cristãos. Estou dizendo isso porque acho que a credibilidade de alguém para discutir religião publicamente depende da sua sinceridade a respeito de sua posição. Sinto horror da idéia de a religião separar amigos e impedir relacionamentos pessoais: tenho amigos muçulmanos, ateus, católicos tradicionalistas “lefebvristas”, ortodoxos, protestantes, judeus e acho que é justamente o fato de sermos inteiramente abertos a respeito de nossa opção religiosa que permite a amizade. Sabemos que não estamos tentando manipular uns aos outros e já conhecemos nossos pontos de discordância.
1. Não estou mais na escola, então, francamente, apenas dou graças a Deus por não ter de assistir a essas aulas.
2. Vocês já sabem que por mim o Ministério da Educação nem existiria. Não apenas sou contra ele em princípio como ainda acho até bonitinho que as pessoas não percebam que, na lógica do estado intervencionista, qualquer Ministério fica à mercê do lobby mais poderoso. Também é bonitinho que facilmente acusem empresários de usar o Estado a seu favor, acusação aliás freqüentemente verdadeira; mas e os beneficiários dessa geração de empregos, serão eles todos inocentes? Seja um contrato de milhões ou um emprego na casa das centenas ou milhar, o princípio é o mesmo.
E um esclarecimento: não sou a favor do ensino domiciliar porque acho ruim o currículo do Ministério da Educação. Nem sou contra o Ministério da Educação porque ele fala coisa que eu não gosto. Gosto de acreditar que eu escreveria contra o Ministério mesmo que ele propagasse as idéias que me agradam. Não sou contra este currículo oficial. Sou contra qualquer currículo oficial. Contra qualquer educação estatal, sobretudo a obrigatória.
3. Chega a ser comovente perceber como as pessoas esquecem a sua experiência escolar. No dia em que eu soube que nunca precisaria ter contato com a química orgânica, senti um alívio como jamais experimentei novamente. Esqueçamos os objetivos nominais da escola. A principal experiência que ela proporciona é a sensação de um nonsense institucional: você tem que aprender coisas pelas quais não tem o menor interesse, ouvir as respostas de perguntas que não fez nem faria, ditas por alguém que quase sempre também demonstra que preferia estar na praia, e o objetivo supremo disso é passar num exame para um curso universitário que você não sabe se quer fazer. Depois as pessoas ficam ressentidas, achando que essa parte da vida delas é uma mentira, e… elas têm toda razão. É um desperdício de tempo e dinheiro.
Se você não se lembra, também, permita-me recordar que a experiência escolar mais comum é não conseguir sequer ouvir o que o professor está dizendo, estudar na véspera e esquecer rigorosamente tudo no exato momento em que a prova termina.
O maior efeito negativo disso é “jogar a criança fora com a água do banho”: traumatizado pela escola, você pensa que toda a literatura é um lixo insuportável, toda a história é uma farsa ridícula, toda matemática é uma abstração inconseqüente e, no meu caso, que toda química é simplesmente algo de que você jamais quer ouvir falar novamente. Porque não. E não.
O mais comum é que você preserve os seus interesses intelectuais apesar da escola, não por causa dela. No meu caso particular, sei que devo muito a algumas professoras de literatura, mas são exceções tão fortes que suas aulas constituem as únicas memórias vívidas que ainda guardo de situações de ensino. De resto, só tenho lembranças de momentos passados com meus amigos. E é por causa deles, dos nossos pares, que recordamos o passado com algum carinho.
Incluir filosofia e sociologia no currículo só terá um único efeito: cansar um pouco mais a paciência dos alunos, ou, na maior parte dos casos, dar-lhes a oportunidade de tirar algumas notas boas fáceis, porque, enfim, você já viu uma faculdade de filosofia e sabe quem é que vai dar aula. Essas aulas podem até virar doutrinação, ou nascer como doutrinação, mas os alunos serão tão desinteressados por elas como são por todas as demais. É mais fácil estuprar uma pessoa do que obrigá-la a assimilar idéias (ao menos dispondo só de uma sala de aula cheia de bagunceiros) que ela nem consegue escutar.
Agora, pelo amor de Deus, parem de tratar os alunos como se fossem uma tábula rasa e passiva que olha reverencialmente para o professor. Se você, direitista, foi espertinho e está aí hoje todo pimpão, por que os outros também não podem ser, como dizem, “críticos”?
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Talvez você pense que eu não tenho escrito meus domingos com poesia, mas escrevi nada menos do que cinco: foram publicados na Dicta & Contradicta, na seção “Anatomia do poema”. Peguei minha obsessão girardiana (que está longe de passar, a propósito) e relacionei cinco poemas:
Vejam só como é eletrizante o poema de Baltazar Estaço:
Em despeito do amor profano
(1604)
Mostra prudência sábia o que é minino,
apresenta-se manso o que é tirano,
aparece sagrado o que é profano,
profanando porém o que é divino.
O siso quer fingir no desatino,
a verdade pintar no falso engano,
disfraçar o proveito em nosso dano,
matando o natural e o peregrino.
Imóvel se afigura o inconstante
Amor, porque de falsa cor se tinge
para que nada dê, mas nada negue.
Tal este amor se mostra e finge ao amante,
mas tal qual este amor se mostra e finge,
tal fica quem o busca e quem o segue.
Se ontem eu falava de como a crítica não era voltada para o público, hoje posso dizer que a principal virtude da D&C é justamente ter sido escrita para os leitores - e sem subestimá-los. Acho que uma das atitudes mais abjetas perpetuamente em voga no Brasil é sempre supor que “o público” é composto de idiotas para quem tudo deve ser diluído e piorado, o que não passa de uma máscara de elitismo condescendente para a preguiça ou incapacidade de escrever qualquer coisa com clareza. Por isso, se eu tivesse que destacar uma virtude da D&C, ela está em os textos serem densos sem ser “acadêmicos”, agradáveis de ler e interessantes (e espero que isso se aplique também ao que eu escrevi). Creio que o projeto não tem paralelo em nosso idioma, e é inspirado na New Criterion.
Se é verdade que resenhas publicadas nos suplementos literários têm o poder de inchar ou desinchar certos egos, esse parece ser seu único poder, já que também é verdade que, do ponto de vista da venda de livros, isto é, do interesse do público, nenhuma resenha tem o poder de aumentar ou diminuir a procura por exemplares. A melhor maneira de divulgar um livro é conseguir que algo seja publicado fora da seção literária. Como isso indica obviamente que a credibilidade da imprensa literária perante o público é nenhuma, se eu fosse o editor de um suplemento destes não faria outra coisa além de me perguntar o que seria bom ou interessante para os leitores das outras partes do jornal ou da revista. Para clarificar, por “público” refiro todos aqueles que não devem seu sustento ao meio literário (academia, imprensa, internet), já que sua opinião da imprensa literária costuma variar de acordo com seu favorecimento ou desfavorecimento por ela. Em termos mais vulgares, panelinha boa é aquela à qual eu pertenço. E devo dizer que nada tenho contra as “panelinhas”: são um fenômeno tão natural quanto as chuvas.
Também sei que é importante distinguir entre crítica literária e imprensa literária. Não dá para comparar trabalhos acadêmicos com artigos de jornal. Sobre a produção universitária, só é possível dizer que é muito variada. Conheço trabalhos excelentes, como os de Kathrin Rosenfield, Lawrence Flores ou Paulo Henriques Britto, e trabalhos que nem derridão nem descem. A imagem da academia é que nem derridá nem desce e os bons trabalhos acabam confundidos com os ruins, sobretudo por aquela parte da nossa querida direita que precisa xingar tudo que vem da universidade para imaginar-se especial e abençoada.
O caminho da irrelevância, porém, foi escolhido no exato momento em que a atividade crítica ou literária foi transformada em mera questão de afirmação da identidade. No meio acadêmico, o mais comum é ver professores tentando afirmar a unicidade de seu olhar sobre uma determinada obra. Essa obra, por sua vez, também já foi feita tentando ser mais “única” do que simplesmente “boa”. O artista aliena o público na criação e o crítico aliena o público na leitura. O artista quer afirmar-se diferente e único em relação aos outros artistas, e o crítico em relação aos outros críticos. Ninguém coloca diante de si o público, a imagem de alguém cuja atenção deve ser conquistada e dirigida para um outro objeto. Ninguém tem o ideal de ser um intermediário invisível, escondido atrás da arte de entreter ou explicar.
Por isso tudo, diante das páginas dos jornais, será realmente tão difícil escolher entre ler o culto ególatra das idiossincrasias de gente desconhecida e ver fotos de modelos no suplemento feminino? O objetivo do crítico e do resenhista de jornal deveria ser produzir um equivalente textual da Ana Beatriz Barros.