Os Vestígios do Ano

Por Martim Vasques da Cunha


Fim de ano é sempre fim de ano, ou seja: uma época terrível para os que sabem que o ano que chegará não será tão bom como prometem as mensagens de auto-ajuda. Ela é terrível porque todos pensam que é uma época alegre quando, na verdade, é um dos momentos mais sombrios, no qual qualquer ser humano decente deveria por a mão na testa e refletir sobre o que fez nos últimos tempos. Aliás, é isso o que cada brasileiro deveria fazer ao refletir porque ajudou a colocar no poder, a turma da cretinagem geral que tomará conta do Planalto a partir de 1° de janeiro. Será que faremos a mesma pergunta de Santigo Zavalita em "Conversa na Catedral", de Mario Vargas Llosa - Em que momento o Brasil se fodeu? É provável que sim. O problema é descobrir qual foi o momento e qual foi a época em que ocorreu - e é possível que faremos essa terrível descoberta no dia em que Pedro Álvares Cabral pisou por estas bandas, dando a triste conclusão de que este país nunca deveria ter existido na face desta Terra. "Desculpem-me, mas o Brasil foi um leve acidente de percurso" - isso poderia ser uma bela saída para nosso incompetente descobridor. Não, agora temos Lula-lá chorando e chorando, uma prova que, no caso deste sujeito, não há uma terceira alternativa para seu despreparo: ou ele é um grande ator que o mundo está perdendo, ou ele é um desequilibrado mental que não tem condições necessárias para ter sangue-frio na hora de uma decisão séria e grave.

Mas, quem sabe nem tudo está perdido? É por isso que faço estas sugestões de filmes, CDs e livros nesta edição de fim de ano de "O Indivíduo": para que o leitor consiga refletir sobre seus próprios atos e sobre as conseqüências deles em suas vidas, com a ajuda destas obras de arte que, de alguma forma, nos preparam para a realidade implacável - a morte. Este ano, apesar dos pesares, foi pródigo em filmes, álbuns e livros que questionaram o atual estado de coisas e, especialmente, a condição do ser humano perante a fragmentação de sua consciência contra um mundo de alucinações. Os exemplos são muitos: na música, tivemos os dois álbuns de Tom Waits, "Alice" e "Blood Money"; o Elvis Costello de "When I Was Cruel", mostrando os destroços do ódio na vida das pessoas que julgamos amar; o David Bowie de "Heathen", em que o rock brinca de Filosofia da História e o Bruce Springsteen de "The Rising", mostrando uma América que não sabe muito bem como vai se reerguer; na literatura, o marco do ano no Brasil foi, sem dúvida, a magnum opus de Bruno Tolentino, "O Mundo Como Idéia", obviamente ignorada pela impresa brasileira porque nenhum jornalista (com exceção de Cassiano Elek Machado da "Folha de São Paulo") teve a coragem de ouvir as terríveis verdades que Tolentino fala sobre a cultura deste país, sobre a poesia e, principalmente, sobre a vida; e, no cinema, tivemos a comprovação de um talento e a confirmação de um novo mestre: Christopher Nolan e David Lynch que, com seus respectivos "Insônia" e "Mulholland Drive", captaram aqueles porões da alma humana, como a nobreza da redenção e a desintegração da consciência, que só um Kubrick ou um Tarkovsky tiveram coragem de realizar tempos atrás.

Na coluna desta semana, vou indicar mais filmes, mais CDs e mais livros para o leitor suportar este final de ano. Não são indicações fáceis, é claro. Mas são aquelas obras de arte que nos motivam a compartilhar experiências e nos levam a contar para os outros. E a vida, meus amigos, não é nada sem o Outro.


"Arca Russa", de Aleksandr Sokuróv, não é a obra prima que os intelectuais da USP e da UNICAMP estão falando, mas talvez esta classificação se deva ao simples motivo de que eles não entenderam sobre o que Sokuróv quis dizer (e também que eles não podiam negar sua qualidade) - uma meditação sobre o fim de uma época na Rússia, mais especificamente a aristocracia e como a alma deste povo, apesar de toda a destruição que o comunismo trouxe, ainda consegue resistir e dar amostras de sua longevidade e nobreza. O filme de Sokuróv é um desses exemplos de resistência: feito em um plano-seqüência de 95 minutos, com uma direção minuciosa que não se perde em detalhes banais, "Arca Russa" apenas peca por um motivo - Sokuróv parece que tem medo de abordar o comunismo, em descrevê-lo em todas as suas atrocidades, preferindo insinuar o seu horror em uma cena meio tétrica e criptográfica. De resto, a câmera flutua como um espírito (bem, a verdade é que a história é narrada por um espírito), sintetizando tempo e espaço dentro do museu Hermitage em São Petesburgo e fazendo o espectador concluir que ainda falta muito para o cinema exaurir suas possibilidades estéticas.

"Dívida de Sangue" (Blood Work), de Clint Eastwood, é um dos melhores do homem que masca arame farpado, mas não é que a crítica achou que era mais um policial rotineiro? O fato é que, por trás do disfarce de um policial rotineiro, temos uma reflexão sobre as vantagens da experiência, sobre a chance de uma segunda vida e, especialmente, o mistério de que, muitas vezes, é o Mal que nos mantém vivos para perserverarmos no Bem. Herético, diriam muitos, pretensioso, diriam outros. É melhor o leitor ver este filme direito e aprender com o velho e bom Clint.

"Os Pássaros" (The Birds), de Alfred Hitchcock: Para você morrer de medo neste final de ano. Se você achava que Hitchcock era chamado "o mestre do suspense" porque seus filmes se limitam a "Psicose", isso significa que não viu nenhum filme do old fat bastard. "Os Pássaros" é um daqueles filmes que ficam na cabeça do espectador por vários dias: o que ele quis dizer com aquilo? Tudo e nada, meu amigo. Hitchcock é um mestre na manipulação cinematográfica, mas não deixava de ter seus momentos de jansenismo ao refletir sobre o problema do Mal e do sofrimento ou então sobre as relações íntimas entre o sexo e a morte (tema central de "Vertigo"). Vejam e aprendam que o cinema pode arrepiar suas espinhas com o mínimo de recursos.

"Primavera Para Hitler" (The Producers), de Mel Brooks: Daqui a algum tempo, teremos o nosso "Primavera Para Lula-Lá", mas por enquanto vamos nos contentar com a comédia insana de Mel Brooks, que conta a história de dois produtores picaretas da Broadway que, ao realizarem a pior peça já feita (e, o pior, pró-Hitler), querem ganhar uma fortuna com a fraude. É o melhor filme de Mel Brooks, que destila gags de humor negro a cada segundo e prova que, algum dia, Gene Wilder foi um sujeito engraçado. E também tem um daqueles diálogos que são como uma luva para o Brasil de nossos dias: "Que golpe genial, Bloom! Ficaremos ricos!", "Mas, Sr. Bialystock, isto é apenas uma teoria de contabilidade acadêmica", "Sr. Bloom, são idéias como essas que movem o mundo!".



"Sea Change", Beck: Sim, Beck, aquele sujeito metido à besta que fazia uns discos que cheiravam a estelionato e que todos os críticos amavam, lançou não só um álbum decente - lançou um álbum magnífico. "Sea Change" é um disco feito do coração, o "Blood On The Tracks" do moço que, finalmente, tornou-se um homem. Duvidam? Então, escutem "Paper Tiger", "Lost Cause", "Sunday Sun" e "Little One" e vejam como os homens ficam cansados de tanto lutarem por coisas que não valem a pena.

"A Rush of Blood to the Head", Coldplay: Um dos filhotes do Radiohead fez um disco com personalidade própria - ainda que tenha uns ecos de Pink Floyd e U2 em algumas faixas. É brit-pop de primeira, ou seja: canções melancólicas para você escutar naquela fossa maravilhosa, um piano agridoce e um vocal que gosta do próprio sofrimento, como mostram "The Scientist" e "A Warning Sign". Com este álbum, o Coldplay sai do rol dos filhotes do Radiohead para ser um dos herdeiros da tradição de Echo and the Bunnymen.

"Bob Dylan Live 1975 - The Rolling Thunder Tour", Bob Dylan: Quando Dylan resolveu voltar às grandes turnês, no ano de 1975, foi mais uma fuga do que propriamente a vontade de fazer música: recém-divorciado de sua esposa Sara, prestes a sofrer um esgotamento nervoso, ele se reuniu com um grupo de músicos e criou uma trupe de vaudeville que cruzou os EUA com versões explosivas de clássicos como "It Ain´t Me Babe" e "Tonight I´ll Be Staying With You" e de canções que, na época, se transformariam em clássicos, como "Hurricane" e "Sara". Essencial na prateleira de qualquer um que sabe o que é música de qualidade.

"Stories from the city, Stories from the sea", P.J. Harvey: Porque é sempre bom ter uma mulher na seleção. E Polly Jean não é uma mulher qualquer. Com este disco ela provou que moças sabem, sim senhor, fazer rock de excelente qualidade e que não descambam para a reivindicação patética do politicamente correto. Ex-musa de ninguém menos que Nick Cave, Polly Jean nos leva a uma cidade - no caso, Nova York - em que sombras e luz misturam-se com guitarras pulsantes e letras intimistas para nos dar um fiapo de esperança que só as mulheres sabem trazer.

"Sinfonia N° 6", Gustav Mahler, regida por Pierre Boulez: Mahler por Boulez é mais do que uma experiência: é a união entre a razão e o sentimento. Com a ajuda da Filarmônica de Viena, Boulez capta com precisão matemática todas as sutiliezas da sexta sinfonia de Mahler, conhecida pelo apelido de "trágica" por causa do final sombrio e angustiante. As três pancadas no final - que indicam as três quedas do herói - são de tamanho impacto na mente do ouvinte que não há como ficar emocionado.

"Sinfonia N° 2", Johann Brahms, regida por Leonard Bernstein e com o piano de Glenn Gould: Bernstein queria reger Brahms no compasso normal. Gould queria tocar Brahms num compasso duas vezes mais rápido. O maestro mais vaidoso do mundo (só perdia para Karajan, com a diferença de que Bernstein é infinitamente melhor do que Karajan) e o artista mais esquisito do século XX (só perdendo para J.D. Salinger) juntos em uma gravação que, como o próprio Bernstein disse no discurso antes da apresentação, "pode apresentar certas divergências, mas nunca a aventura da música foi tão viva e instigante".


"Brás, Quincas & Cia.", Antonio Fernando Borges: Um romance que também é uma denúncia da tirania do coletivo sobre a liberdade da consciência individual. Citando Machado de Assis no estilo, parodiando Borges e Kafka na estrutura labiríntica, Antonio Fernando conseguiu escrever um romance que parece ser divertido, parece ser ameno, mas, na verdade, depois de várias releituras, podemos perceber sutilezas e subtextos que tornam o livro perturbador. Obviamente, foi ignorado pela imprensa brasileira, que não teve colhões para tocar na ferida que Antonio Fernando faz com coragem e - sobretudo - elegância.

"O Homem Revoltado", Albert Camus: Se Camus, que era um homem da esquerda, escreveu este livro contra o totalitarismo stalinista e maoísta, como alguém pode acreditar em revoluções depois de lê-lo? Lançado em 1951, "O Homem Revoltado" foi responsável pela famosa rixa entre Camus e Sartre e lança opiniões que devem ter chocado milhares de intelectuais que acreditavam que um governo socialista era o paraíso na Terra. Escrito em um estilo sóbrio, o livro entrou para a História por ser um dos primeiros a levantar-se contra uma loucura moral que nos influencia atualmente.

"Autobiographical Reflections", Eric Voegelin
: Para o brasileiro aprender o que é um verdadeiro homem da ciência. Voegelin é o autor de "Order and History", uma das maiores obras filosóficas do século XX e surpreendentemente ignorado no Brasil. Estas reflexões autobiográficas mostram um sujeito preocupado com as conseqüências morais da distorção da filosofia e empenhado em restaurá-la dos perigos da ideologia da direita e da esquerda. Se você quer aprender o que significa honestidade intelectual, deve ler este livro imediatamente.

"A Mancha Humana", Philip Roth: Junto com Thomas Pynchon, Philip Roth é o escritor que retrata com exatidão a loucura que são os EUA. Terceira parte de uma trilogia que inclui também os excelentes "Pastoral Americana" e "Casei Com Um Comunista", "A Mancha Humana" explora a insanidade do politicamente correto com tamanha acidez e humor que não é possível que o leitor não pense se Roth acredita na sua própria irritação. É bem provável que ele acredite, tamanha a humilhação que impõe aos seus personagens. Mas não é isto que diferencia o bom escritor do grande escritor: a capacidade de irritar os seus leitores e, o melhor, de irritá-los porque eles querem?


"Nada expressa melhor o sentido do Natal do que essa angústia,
essa inquietação, esse pressentimento sombrio que antecedem o nascimento de
Cristo.
É um simbolismo eterno que se repete nos fatos materiais da vida.
Os dias que precedem o Natal são os da matança dos inocentes, da fuga para
o deserto, da Sagrada Família a bater em vão de porta em porta, em demanda
de um abrigo inexistente.
Um Deus vai nascer. O mundo treme e se apressa, como Herodes, para tentar
matá-Lo.
Não poderiam ser dias felizes. São os mais inquietantes do ano. Nem mesmo a
Sexta-Feira Santa é tão triste, porque o fato da morte vem com a certeza da
Ressurreição. Mas, quando um Deus vai nascer, tudo é incerto. O nascimento
de um Deus é a morte de um mundo de um mundo que não voltará à existência
depois de haver-se dissipado no nada. E ainda não se sabe o que virá
depois. Tudo aí é possível: as esperanças mais insensatas acotovelam-se aos
temores mais alarmantes, na expectativa de algo que não se sabe o que é,
mas que será decisivo. É a hora antes da aurora, a hora do lobo: o
predador, no lusco-fusco, ainda não sabe se vai caçar ou ser caçado.
O nascimento de um Deus é um anúncio do Juízo Final. Antecipadamente, há
choro e ranger de dentes. A humanidade agita-se, tentando em vão fugir do
peso de seus pecados. Cada um quer fingir para si mesmo que está bem, que
nada teme, que sua conta bancária, sua mesa farta, sua família feliz são um
atestado de garantia contra a danação eterna.
Parecendo negar a profecia, a agitação moderna não faz senão obedecê-la e
confirmá-la.
Mas eu seria o último a ver na corrida aos presentes apenas um
divertissement no sentido pascaliano, uma fuga ao sentido da vida. Ela é
também, nessa hora incerta, a afirmação de uma esperança. O Deus que vai
nascer pode não ser um juiz, mas um salvador. Não um castigo, mas um dom.
Ninguém o pode garantir antecipadamente. Comprar presentes, no meio da
angústia e da correria do mundo, é um ato de confiança na promessa das
Escrituras. Sem saber ainda o que vai acontecer, dispomo-nos a celebrá-lo
como um dom. Provemo-nos também dos dons que pretendemos ofertar, símbolos
miúdos do grande dom divino que esperamos.
Mas a incerteza nem por isso se dissipa.
Mesmo quando surge a estrela, anunciando o nascimento do Salvador, nem
todos atinam com o que está se passando. De início, só os sábios e os
pastores o compreendem. É na esperança de ser um deles que acorremos às
lojas, comprando o ouro, o incenso e a mirra com que mostraremos
reconhecer, nos entes queridos a quem presenteamos, a imagem do Menino Deus
recém-nascido.
Quer o saibamos ou não, o símbolo primordial molda nossas vidas,
reproduzindo-se e multiplicando-se em milhões de lares, por baixo de toda
agitação mundana que, parecendo negá-lo, o reafirma soberanamente.
A deusa história, a modernidade, nada pode contra isso. Ela não é senão
imagem e semelhança daquilo que nega. Afinal, quê poderia confirmar mais
plenamente o nascer do Sol do que o movimento das sombras que deslizam pelo
chão?
Qualquer que seja o rumo da História, a Palavra que a moldou
antecipadamente não passará".

Olavo de Carvalho - Mensagem de Natal de 2001

 

Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista.
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