O Drama da Consciência

Por Martim Vasques da Cunha


Ian McEwan

"Thou hast made me, and shall thy work decay?
Repair me now, for now mine end doth haste,
I run to death, and death meets me as fast,
And all my pleasures are like yesterday,
I dare not move my dim eyes any way,
Despair behind, and death before doth cast
Such terror, and my feeble flesh doth waste
By sin in it, which it towards hell doth weigh;
Only thou art above, and when towards thee
By thy leave I can look, I rise again;
But our old subtle foe so tempeth me,
That not one hour I can myself sustain;
Thy Grace may wing me to prevent his art,
And thou like adamant draw mine iron heart".

John Donne, "Holy Sonnets", n°1

 

"Reparação" (Companhia das Letras, R$ 38,00) é o romance que Ian McEwan sempre desejou escrever. Conhecido nos meios literários ingleses como "Ian McCabro", pelo seu gosto em expor, ao leitor, membros do corpo humano acondicionados em maletas alemãs (como acontece no seu thriller de espionagem, "O Inocente"), ou então por descrever com frieza o comportamento incestuoso de dois irmãos em "O Jardim de Cimento", McEwan é um autor que sempre viu a literatura como uma arte com um fundo moral, mas nunca mostrou isso explicitamente.

Ele já demonstrava ir nessa direção em sua obra, com seus penúltimos romances - "Amor Para Sempre" (mais uma tradução imbecil para "Enduring Love") e "Amsterdam", vencedor do Booker Prize de 1998, o prêmio literário mais importante da Inglaterra. Sua habilidade para construir cenas com alta intensidade dramática é comprovada no início de "Amor Para Sempre", quando um acidente de balão é narrado com uma exatidão microscópica, e o modo como relaciona questões artísticas e questões morais através de uma estrutura nitidamente inspirada nos pontos-de-vista de Henry James, é uma característica marcante de "Amsterdam", uma homenagem aos romances satíricos de Evelyn Waugh.

Estas qualidades atingem a maturidade com "Reparação". Se os livros anteriores tinham momentos brilhantes, mas faltava uma harmonia que equilibrasse o seu talento em partes iguais, "Reparação" é um momento brilhante em cada página virada. Além do dilema moral que a personagem Briony Tallis se vê envolvida, por causa de um erro que cometeu na infância e que prejudicou a vida de um inocente, McEwan se aprofunda na sua investigação sobre como a alma de uma pessoa pode expiar seus crimes através da arte, questionando-se constantemente sobre o tema que persegue sua obra inteira - Qual é o limite do Mal que a consciência humana pode suportar?

Briony Tallis fará esta pergunta durante a sua vida inteira, a partir dos treze anos de idade. Na primeira parte de "Reparação", McEwan narra sem pressa um dia sufocante na casa de verão da família Tallis, em meados de 1935. Briony é uma menina que deseja ser escritora e pretende ensaiar uma peça que acabou de concluir, com os primos traumatizados pela recente separação dos pais e que irão passar uma temporada com sua família. Para ela, a fronteira entre imaginação e realidade é imperceptível e as duas começam a se misturar de forma perigosa quando Briony testemunha uma cena insólita entre sua irmã mais velha, Cecilia, e um dos empregados da casa, o jovem jardineiro Robbie Turner.

A cena é a seguinte: Cecilia e Robbie estão discutindo perto de um lago, enquanto ela tenta regar as flores que estão dentro de um vaso valioso. Por um descuido, o vaso lasca nas pontas, que caem no lago. Estimulada pela presença de Robbie, Cecilia tira a roupa e, só com as peças íntimas, entra no lago para pegar as lascas quebradas. Ao voltar, atiça a mente de Robbie, assim como a da pequena Briony, que viu tudo de sua janela.

É um fato aparentemente simples, mas que mudará a vida de todos. Briony fica estimulada com a possibilidade de criar uma história em torno do fato inusitado e se vê dividida no velho dilema da literatura: Qual dos mundos deve ser retratado? O mundo formatado em uma idéia ou o mundo aceito como é? Briony escolhe a primeira alternativa ao ver, momentos depois, sua irmã e Robbie fazendo sexo na biblioteca da casa. A tragédia se arma quando ela testemunha um vulto estuprando sua prima Lola e reconhece como sendo o de Robbie Turner.

A partir daí, McEwan tece uma meditação sobre como a literatura pode ser a expiação de um pecado mortal (daí o título original do romance, "Atonement", "expiação" em português) e como uma pessoa pode decidir sobre sua vida através dos atos sem testemunhas, em que o que está em jogo é a integridade da consciência individual, para usar o conceito de Olavo de Carvalho. Graças ao um estilo que não deixa nada a dever ao Henry James de "Pelos Olhos de Maisie", "Reparação" segue os caminhos posteriores de Robbie, Cecilia e Briony durante a Segunda Guerra Mundial, mostrando como cada um tenta purgar o seu passado maldito, enquanto vivenciam na carne a presença implacável da morte através dos cadáveres dos soldados. Aqui, McEwan volta a ser o velho e bom "Ian McCabro", com descrições rápidas e exatas de músculos deformados, olhos esgaziados e sangue espirrando por toda a parte.

No entanto, a morte não é usada como um meio em si, apenas para provocar um frisson mórbido. Ela é uma personagem fundamental na trama, tão importante quanto Briony, porque é ela quem motiva a jovem escritora a reparar o seu crime através da literatura. Mas saberemos isso apenas no epílogo, escrito em 1999, quando Briony já é uma celebridade no mundo das letras, com setenta e sete anos. Na verdade, o livro que pensavámos que era de Ian McEwan revela-se ser de Briony Tallis, num xeque-mate metalingüístico digno de Machado de Assis. Diagnosticada com progressiva paralisia cerebral, ela decide contar a sua versão dos fatos antes que perca o controle de sua consciência e de sua memória. Com o anúncio da morte, Briony encontra na literatura a única maneira de redimir sua alma, mesmo que isso implique em sacrificar alguns fatos no lugar de uma ficção mais verossímil.

É nesta lacuna entre o que é o real e o que é o imaginário que a literatura vive, mas a peregrinação de Briony se torna comovente porque ela busca nada mais, nada menos que o perdão daqueles que seu ato prejudicou. No encontro final entre Briony, Robbie e Cecilia, os dois perguntam a ela porque não havia decidido antes mudar seu testemunho. Briony apenas responde: "Porque cresci". Parece ser uma resposta tola. Contudo, como diria Eric Voegelin, são as respostas aparentemente simples que mostram os verdadeiros "saltos no ser" que a consciência provoca no espírito humano. Briony teve que crescer com seu pecado para assumir que o realizou, aceitar sua responsabilidade e, enfim, querer recuperar o que perdeu com seu erro. É justamente essa qualidade que nos torna seres humanos, e algo além de uma massa de carbono flutuante ou de um mero animal: a capacidade de reconhecer a fragilidade de nossa podridão e, a partir desta conclusão, querer fazer o bem, por mais dolorido que este seja. O grande problema da arte (e, por conseqüência, da escrita) é captar as nuances de uma alma que toma essa decisão, uma das manifestações mais nobres da alma e aquela que indica o caminho para o equilibrio da virtude.

Assim, fica palpável a visão de Ian McEwan de que a arte não só deve ter uma função moral, como também é uma forma limitadora de retratar a complexidade da vida. Nesta encruzilhada, nasce o fascínio da literatura como a possibilidade do homem ter um gosto da divindade. Ao mesmo tempo que não há expiação para os homens, talvez não haja expiação para Deus, que age como um escritor que manipula como quiser suas criaturas, pelo menos segundo o pensamento de Briony, já velha e esperando somente pelo sono da morte. Mas este sono é perigoso: seus personagens podem se tornar sombras de uma realidade que nem a mente, em toda a sua profundidade, pode iluminar- uma realidade que nenhuma imaginação pode fazer a devida reparação.

Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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