A Loucura Perpétua de Mario Vargas Llosa

Por Martim Vasques da Cunha



"É muito difícil pensar em "ser um escritor" quando se nasce em um país que ninguém lê: os pobres porque não sabem ou porque não possuem meios para adquirir conhecimentos, e os ricos porque não sentem vontade. Numa sociedade assim, querer ser escritor não é optar por uma profissão, mas sim por um ato de loucura".

Mario Vargas Llosa, na palestra "História Secreta de um Romance".

 

Mario Vargas Llosa conseguiu com seu romance, "Conversación en la Catedral" (Conversa na Catedral, na tradução brasileira de Olga Savary), fazer uma síntese de três correntes da literatura romanesca mundial: a de Gustave Flaubert, a de William Faulkner e a da novela picaresca espanhola. Escritor rigoroso e polêmico tanto em suas atitudes pessoais, como nas políticas, mas que nunca perdeu o prumo quando se trata de literatura, Vargas Llosa é um dos poucos latino-americanos que tratam o ofício de contar histórias não como uma mera profissão e sim como um ato de loucura perpétua, de rebeldia contra a barbárie do mundo, especialmente desta parte esquizofrênica do continente chamada América Latina.

"Conversa na Catedral" conta a trajetória de dois homens: Santiago Zavalita e Ambrosio. Eles se encontram em um canil onde Santiago vai buscar o seu cachorro, o único "filho" que tem com Ana, temerosa em perder o bicho com a epidemia de raiva que assola o Peru no final dos anos 60, durante o governo do presidente Prado. Santiago é um jornalista em "La Cronica" e logo no primeiro parágrafo do livro, ele faz a pergunta que tentará ser respondida no decorrer de suas quase 600 páginas: "Em que momento o Peru havia se fodido?" (Ultimamente, muitas pessoas andam fazendo essa mesma pergunta sobre o Brasil). Sentados em um bar chamado Catedral, Santiago e Ambrosio repassam suas vidas, às vezes com ajuda de Carlitos, um amigo de Santiago na redação do jornal, e como seus caminhos particulares se cruzaram com a História do seu país.

A grande ousadia de Vargas Llosa é a maneira como ele conta o seu enredo. Inspirando-se no narrador objetivo e onipresente de Flaubert, em que nada pode ser ocultado do leitor e no qual a única função do romancista é descrever e narrar os acontecimentos, nunca julgá-los, mas também fragmentando esse mesmo narrador em diferentes perspectivas ou pontos-de-vista, ele faz aquilo que era seu primeiro objetivo desde dos tempos em que publicou seu primeiro romance, o premiado e polêmico "A Cidade e os Cachorros" (1962): a literatura total. Este tipo de literatura parece ser uma utopia, mas chegou perto de ser realizável com Balzac, o próprio Flaubert, Tolstoi, Dostoiévski, James Joyce, Robert Musil, William Faulkner, Marcel Proust, Hermann Broch e Thomas Mann. O alvo da literatura total (também conhecida como romance total, super-romance ou até roman-fleuve) é a construção artística e rigorosa de uma realidade que reflita sobre a verdadeira realidade e que a retrate, desde de seus aspectos sociais-econômicos até os aspectos privados, incluindo aí os psicológicos e os existenciais (como ocorre nos casos de Dostoiévski e Herman Melville com seu "Moby Dick").

Nesse sentido, "Conversa na Catedral" é um romance total desde do seu plano geral até o mais ínfimo detalhe. Vargas Llosa conseguiria esta proeza por mais duas vezes, com "A Guerra do Fim do Mundo" (1981), sobre a revolta de Canudos, e "A Festa do Bode" (2000), seu romance mais recente. Os três romances conseguem fazer um painel completo não só de uma era, mas das pessoas que fizeram ou construíram esta era. Os aspectos coletivos e individuais se correlacionam quase em ritmo simultâneo, às vezes se transformando em algo indistinguível, como ocorre num dos personagens centrais de "Conversa", o braço-direito do governo Ódria, Cayo Bermúdez (também conhecido como Cayo Mierda). A mudança quase vertiginosa dos pontos-de-vista é uma influência direta de Faulkner, mas nunca descamba para o stream of counsciouness de Joyce, até porque não interessa para Vargas Llosa, a procura pela unidade que existe nas consciências fragmentadas ou alucinatórias dos cidadãos peruanos. Como um Flaubert latino, ele se interessa apenas sobre o que se passa na cabeça daquelas pessoas, contanto que o tema fique claro o tempo todo, e o estilo seja a forma em que ele se adeque apenas aos interesses do leitor.

A fascinação pelo autor de "A Educação Sentimental" é tamanha em Vargas Llosa que ele escreveu um livro sobre o escritor francês, "A Orgia Perpétua" (1975). Seu interesse maior se deve ao fato mais comum quando se trata de um romancista que banca o crítico literário: sempre que ele está falando de um outro autor, na verdade está falando dele mesmo. Logo, neste auto-retrato espelhado, Vargas Llosa revela muito de seu método e, principalmente, da sua visão de como deve ser um romance (bem, todos os escritores têm isso, senão não seriam justamente isso - escritores). Eis aí a questão que se levanta na sua loucura perpétua: O romance segundo Vargas Llosa, exprime a realidade de forma satisfatória?

A resposta é: Não. Por quê? Apesar de seu talento inigualável, de seu rigor, de sua técnica com a estrutura da narrativa e com as palavras, falta apenas um detalhe na literatura de Mario Vargas Llosa: a preocupação com o drama da redenção humana. Assim como Flaubert, o escritor peruano cai no mesmo erro dos realistas e dos naturalistas - transforma o espírito em matéria, ou melhor, torna um mundo invisível, rodeado de mistério, em algo palpável e, pior, refletido nas atitudes mais mesquinhas e abjetas. A única coisa que interessa a Vargas Llosa, a Flaubert e ao um poeta como Baudelaire é a decadência de um mundo, mas não como superar esta decadência. Esta doença espiritual - que Platão chamava de nosos - pode ter suas variações nas ideologias socialistas e positivistas; entretanto, a visão da literatura como a de uma "orgia perpétua" não é lá muito enobrecedora. O que falta justamente na arte como um todo, seja na literatura, como no cinema, música ou teatro, é a mais completa ausência de virtude na alma dos personagens. Todos são medíocres que desejam nada mais, nada menos que ter vidas medíocres. É o que acontece com Santiago e Ambrosio em "Conversa na Catedral", em que ambos divagam sobre suas vidas, relacionando com as pessoas que passaram por ela, e mal sabem por que, afinal de contas, se deram mal, esperando apenas - como diz Ambrosio no final do romance - a hora de morrer. Claro que esta sensação de apatia moral que "Conversa" transmite é, na verdade, um dos triunfos de Vargas Llosa como escritor, mas a pergunta que não quer calar é a seguinte: Por que não ir para um outro caminho mais díficil, para não dizer mais dolorido, em que se pode atingir uma certa unidade?

Esta pergunta não pode ser respondida porque falta na obra de Mario Vargas Llosa justamente a preocupação em torno do drama da salvação da alma humana. Aliás, este é um problema freqüente na literatura latino-americana, principalmente a dos anos 60. Com exceção de Sábato, Borges e Juan Rulfo, o boom latino-americano sempre esteve muito mais preocupado com inovações formais (Julio Cortázar, com "O Jogo da Amarelinha"), em como traçar a mocinha da vila usando as mais diversas mágicas (praticamente quase todos os livros de Gabriel Garcia Márquez) ou com o painel social (o próprio Vargas Llosa). Por incrível que pareça, os únicos que foram além deste reino mundano são os brasileiros, representados com excelência por Machado de Assis, Guimarães Rosa, Osman Lins e Bruno Tolentino, por coincidência os pilares revolucionários da nossa arte literária.

A falta de virtude em seus personagens, e a ausência de um questionamento espiritual criam obras que, independente do rigor técnico e do virtuosismo técnico, correm o perigo de ser apenas monumentos de mármore, prontos para serem devorados pela pátina do tempo. A arte que não toca a alma humana, que não remexe em seus abismos e a faça transcender a mera realidade, não é uma arte que consegue vencer a barreira da contemporaneidade. Tornam-se apenas modelos de uma loucura perpétua que, por isso mesmo, ficam aprisionados na vida do cotidiano e não na vida do eterno. O fato de Flaubert ser o modelo de um escritor talentoso não significa que é um mau modelo; significa apenas que existem outros modelos a serem estudados e a literatura se forma a partir da síntese destes modelos. Mas, antes de tudo, é imprescindível ter aquele toque áspero da eternidade, que traz à história um certo ar de instabilidade, de procura e aceitação do mistério que só pode ser resolvida de uma única forma aos olhos do leitor: acredito porque é absurdo, mas é justamente porque é absurdo que é real.

Dessa forma, a loucura perpétua de Mario Vargas Llosa é uma espécie de caos planejado, que deveria ser a função da literatura, mas neste caos falta a ordem por trás do próprio narrador. Falta ninguém menos que o sopro do vento. Ora, e como se consegue isso? Ninguém sabe. Mas ele existe: é só ler Dante, Shakespeare, Milton, Cervantes, Machado, Guimarães Rosa. Contudo, não se pode menosprezar Vargas Llosa. Sua postura como escritor e intelectual, num mundo rodeado de imbecis, é de uma dignidade exemplar, e sua obra deve ser estudada por seu confronto com a tirania que tenta destruir a liberdade. Afinal de contas, se o Brasil tivesse dez Marios Vargas Llosas, a nossa intelligentzia seria tão limpa e querida quanto um filme de Walt Disney. Contudo, sempre haverá a falta daquilo que nos mantém vivos além da sociedade, além da mera vida histórica - e será esta ausência que nos provocará, no nosso país, a mesma pergunta que Santiago Zavalita fez sobre o seu tão desprezado Peru.

Martim Vasques da Cunha é escritor e jornalista
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