Archive for the 'Educação' Category


Ainda o monopólio da educação 0

Diogo Costa, falando da educação, sintetizou grande parte do problema:

O problema é que socialistas não se vêem como educadores, mas como agentes de transformação social.

(…)

O material de trabalho de um engenheiro social precisa ser passível de moldagem. Se, para um professor honesto, as críticas funcionam como um mecanismo de verificação de seus próprios argumentos e crenças, podendo invalidá-los ou confirmá-los, para o agente transformador, os críticos são inimigos do futuro socialista. Não se deve examinar o que dizem, mas como combatê-los. O objeto da educação deixa de ser a verdade a ser comunicada, e passa a ser a ideologia a ser praticada.

Já tenho as minhas opiniões sobre o assunto (que são provavelmente as mesmas do Diogo), e me interesso por algo um pouco além, que é a politização total de tudo. Um socialista poderia dizer que todo o ensino é politizado, que tudo não passa de reproduções das estruturas burguesas de dominação, que você está o tempo todo contra o establishment ou a favor dele. Se você aceitar essa premissa, então leve-a até o fim, e afirme que toda investigação é politizada e portanto todos os resultados. Aceite que essa premissa nega a existência não exatamente da verdade em si, mas da possibilidade de uma verdade descoberta ou afirmada sem interesses políticos. Enfim, escolha seu lado.

É muito difícil – eu que o diga – suportar os ataques da esquerda, os professores socialistas, os jornalistas iletrados e esnobes e toda a camarilha que parasita o prestígio da atividade intelectual sem simplesmente inverter a polaridade e imitar suas atitudes. Não é certo olhar os alunos como “material passível de moldagem” da mesma maneira que faz um socialista. Você pode maltratar as pessoas usando a verdade ou a mentira, o resultado será o mesmo: no mínimo, elas vão desprezar você.

Por isso é importante reafirmar que a razão para rejeitarmos o monopólio do Ministério da Educação não é estratégica. Não devemos passar a gostar do Ministério se ele subitamente ficar do nosso lado. O monopólio estatal da educação é intrinsecamente mau, mesmo que seja eficiente. O mal que há nele é o mal dos monopólios, a ausência de alternativas – e nem dá para aplicar o argumento do “monopólio natural” nesse caso.

Diante da despadronização curricular, muitas pessoas podem crer que teríamos o caos. Cada um estudando o que quiser, por conta própria. Não se trata disso. As escolas podem continuar a existir, as instituições de qualquer grau podem ter os critérios de admissão que bem entenderem, inclusive o critério de ter completado um curso escolar X ou Y. Mas o sistema inteiro não pode constituir uma gigantesca barreira de entrada aos diferentes. Exclusão é isso aí.

Naturalmente, junto a isso, precisamos derrubar as barreiras de entrada ao exercício das profissões.

Em que acabo defendendo as universidades 0

Ontem, indo do metrô na Cinelândia à Sala Cecília Meireles ver o Alban Berg Quartett, com três amigos sem blog, vemos no chão da Rua do Passeio o que parece ser uma bala de fuzil.

Chegando à Sala, que ao menos estava cheia, observo o mesmo fenômeno de sempre: quase nenhum “jovem” (eu já tenho meus 31). Parece que em breve o público carioca de música erudita vai morrer. Nesta cidade, prevejo um futuro semelhante ao da poesia: assim como hoje apenas as pessoas que têm ambições literárias lêem versos, um dia só os estudiosos de música e instrumentistas irão a concertos. Só eu, que não sei a diferença entre um dó e um ré, continuarei sendo puro “público”, mero apreciador, o que dá até uma certa vontade de não aprender nada de música, só para manter essa condição.

Não se pode nem dizer que o problema é de dinheiro. A Sala Cecília Meireles é estatal, os preços dos ingressos são baixíssimos (ainda que, naturalmente, eu preferisse impostos baixíssimos e ingressos altos – assim eu saberia que o dono do bar da esquina não está sendo forçado a subsidiar minhas predileções). O concerto de ontem custou R$30. No ano passado, vi lá pelo mesmo preço um recital com Emma Kirkby que jamais esquecerei – até por não haver muito mais de 100 pessoas na platéia, ou nem isso. Só soube no dia, só comprei ingresso na hora e sentei na primeira fila.

Antes que alguém venha dizer que R$30 pode ser muito num país pobre etc, digo que as multidões que se dirigem para os bares da Lapa, as mesmas multidões que vão em sentido contrário ao meu quando saio da Sala, certamente vão gastar algum dinheiro.

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Se você for a uma livraria grande, como a Cultura ou a Travessa, vai encontrar livros brasileiros e importados à venda. Os livros importados freqüentemente serão mais baratos que os brasileiros, mesmo os lançamentos de capa dura, com frete incluso. Agora, quando vamos para o catálogo de clássicos, a diferença de preço é absurda. Você pode comprar uma edição Penguin a R$20, e uma edição Dover a menos de R$10. Tudo bem que são livros de capa molíssima com as páginas em papel jornal, livros que não vão durar tanto assim. Isso é o mais interessante. A Penguin e a Dover são empresas e precisam ter lucros. Se vendem livros baratos com materiais baratos, livros quase descartáveis, significa que as pessoas os compram. E se compram livros descartáveis, é porque pretendem usá-los e jogá-los fora. Isto é, pretendem lê-los.

Passando para as mesas de lançamentos de editoras nacionais, veremos livros produzidíssimos, com papel e capa ótimos, livros que são objetos para ser guardados, não para ser usados. Vejam bem, não estou criticando as editoras – se elas continuam no mercado vendendo livros assim, ótimo; se elas não oferecem livros “descartáveis” a preços bem menores, certamente é porque sabem não haver demanda. Há demanda por belos objetos que possam ser agregados à identidade, isto é, que possam dizer aos outros (e a você mesmo) que você é uma pessoa simultaneamente culta e cool. Nada contra isso, aliás – exceto o fato de que eu pessoalmente preferiria livros mais baratos.

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Uma das coisas que aprendi freqüentando um ambiente social muito diverso do meu, na Faculdade de Letras da UFRJ, é que existe entre os menos abastados, aqueles que foram alunos de escolas públicas por falta de opção, um mito bizarro em relação a nós, burguesinhos das escolas particulares.

Enquanto eu mesmo era tratado como freak por gostar de literatura (na escola, um dia meus amigos até me advertiram caridosamente que não pegava bem eu circular com livros na mão – isso é verídico), muitos de meus colegas da UFRJ julgam que meu interesse por poesia é uma conseqüência natural do poder aquisitivo dos meus pais, e que todos os adolescentes das escolas particulares comem Machado de Assis no café da manhã. E gostam.

Seria ingênuo e injusto da minha parte não admitir que estudar num “colégio particular de elite” provavelmente é muito melhor do que estudar na grande maioria das escolas públicas, mas de onde as pessoas tiram a idéia de que a elite econômica e a elite cultural se sobrepõem? Seria essa uma bela desculpa – “não tive oportunidades” – para justificar certos fracassos?

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Diversas vezes já falei de como é mais importante o Brasil sair de você do que você sair do Brasil; digo isso porque já gastei muita energia psicológica imaginando maneiras de simplesmente ir embora, atribuindo as minhas falhas intelectuais ao ambiente. Mas a verdade é que eu deveria tentar ser menos sensível ao ambiente e admitir que a minha vida pessoal, nos poucos quilômetros que freqüento na cidade, tirando essas balas de fuzil em que tropeço, é bastante agradável.

O que dá medo, então, é exatamente isso: mesmo que você se concentre nas coisas que pretende entender, corre o risco de, diante do nível médio baixo, acabar se achando melhor do que realmente é, de ficar satisfeito com o que é apenas medíocre. De ser seduzido por essa vida boa e leve, e chegar à mesma felicidade que teria um jesuíta no Brasil do século XVII que abandonasse suas obrigações: “sou mais culto que essa gente que anda pelada, e posso andar pelado também.”

Não quero fazer outra reclamação sobre o superficialismo brasileiro, ou reclamar que “brasileiro não lê”; até agora, estou apenas narrando e tentando interpretar alguns fatos. Nossa “elite cultural” é minúscula, e não vou fingir que não me incluo nela – nem que seja porque o nível médio é baixo demais. Além dos concertos e dos livros, isso é demonstrado pelo fato de que para se tornar autoridade em qualquer assunto no Brasil basta declarar essa autoridade. Isso só não vale para o meio acadêmico, em que as autoridades ao menos costumam ter uma grande erudição; mas, fora das universidades, basta dizer que você sabe javanês. Deus sabe o quanto desgosto do Ministério da Educação (sobretudo por seu monopólio), e do ensino obrigatório, e do fato de as linhas de pesquisa oficiais dos departamentos dificultarem enormemente os estudos; mas mesmo com todas essas limitações burocráticas, as universidades são o lugar onde menos há enganação no Brasil – porque há pessoas ouvindo que têm idéia do que você está dizendo.

E mais “para que estudar?” 1

Continuando o post anterior, parece-me que a crença em uma realidade objetiva, ou em uma verdade que independa das minhas opiniões (ainda que essa verdade objetiva só possa ser apreendida subjetivamente), é mais importante do que a “busca desinteressada pela verdade”, porque toda busca está subordinada a algum interesse.

Por exemplo, o lema do IICS, “o que discutimos aqui não são temas comuns, mas o modo de levar uma vida justa”, sugere que a busca da verdade está subordinada à busca pela “vida justa”. Você quer levar uma “vida justa”, e para isso precisa saber como o universo funciona, porque a chance de levar uma “vida justa” por acaso é muito baixa. Do mesmo modo, sempre me chamou a atenção em textos antigos a ênfase do conhecimento enquanto posse de um ser humano concreto e não como construção que deva subsistir sem um sujeito cque estude. Isso não significa que esse aspecto era desprezado, e o simples fato de os antigos preservarem obras é prova suficiente. Mas, pela maneira como os textos se dirigem ao leitor, vê-se que os antigos sabiam que o conhecimento modifica o estudante, e se a modificação não for previamente desejada os resultados podem ser meio bizarros.

Já disse que, em minha tenaz rebeldia, percebi que paguei por todos os conhecimentos que “adquiri” com algumas idéias de que gostava, mas que me impediam de ver a tão famosa e badalada verdade, e isso vale até para verdades pequenas e relativas. Essas idéias de que gostamos são como apetrechos errados para uma expedição. Às vezes juntamos a com b e não gostamos do resultado, e começamos a tentar fingir que aquilo poderia ser diferente. Ou eu começo. A minha vida intelectual é uma vida de sucessivas resignações e interesses diversos. A única coisa que não mudou foi a minha crença de que as coisas são de um jeito, e é melhor não tentar fingir que elas são de outro.

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Outro dia conversava com um amigo sobre essa questão do ensino de filosofia nas escolas, e perguntei a ele, partindo do pressuposto da obrigatoriedade, que espécie de filosofia poderia ser ensinada para adolescentes. Ele falou: “aquela que ensina a argumentar”. As Categorias de Aristóteles, o estudo sobre a interpretação… De fato, estudar isso ajuda você nas suas buscas. Juntar a com b também pode ser uma arte, e essa arte pode ser ensinada e aprendida (desde que você queira, é claro).

Um dos clichês do nosso tempo é o “pensamento crítico”, e ninguém nega que ele é unilateralmente crítico. Ser crítico significa ser contra Bush, o Papa e a TV Globo. Ok, trilateralmente. Mas não faria mal aprender a ser crítico de verdade, estimulando os adolescentes pela vaidade. “Ah, você se acha muito espertinho? Vou triturar suas idéias, seu moleque pretensioso.” O professor poderia ser um advogado do diabo, um boxeador da argumentação que conquistaria o respeito dos alunos. Mas algo me diz que isso só funcionaria no cinema.

De novo, para que estudar? 0

Leio o texto de Joel Pinheiro no blog da Dicta & Contradicta (aliás, em segundo lugar de vendas de não-ficção na Livraria Cultura!) sobre os problemas da universidade, que vem logo depois de um post que indica um texto de William Deresiewicz, ex-professor de Yale, criticando a educação das universidades da Ivy League.

Mas o que me chama a atenção é o seguinte: há anos eu teria lido algo como “a busca desinteressada pela verdade” e essas palavras teriam recebido meu total apoio. Eu logo reclamaria da instrumentalização do conhecimento, blá, blá, blá. Hoje não consigo mais pensar assim… baseado em minha própria experiência. E, se você pensar bem, a própria expressão “busca desinteressada” parece um oxímoro. Se não há interesse, por que há busca?

É justamente aí que paro. Eu tenho interesse; aliás, interesses. O interesse é uma motivação. Essa motivação preexistiu a todas as minhas “buscas pela verdade”. Sempre que estudo, estudo atrás de uma resposta específica, e percebo, ao mesmo tempo, que só consigo encontrar a resposta de que preciso quando abandono alguma idéia idiota da qual gosto bastante.

Gosto da idéia de que uma universidade seria composta de uma gigantesca biblioteca, cursos livres, tutores que já saibam quais são as idéias que costumam tapar esta ou aquela verdade, e a obrigação - uma contrapartida - de produzir algum texto explicando o que você queria saber e onde você chegou. A idéia de que a universidade deveria ser uma máquina de produção de elites (em qualquer sentido) acaba pressupondo que a busca intelectual vai ter que acontecer em outro lugar, ou apesar da máquina.

Se a educação formal é baseada em responder a perguntas que não foram feitas (na nunca exaurida frase de Neil Postman), então ela está me atrapalhando, porque eu estou fazendo as minhas perguntas e quero as minhas respostas. Essas perguntas, aliás, têm origens diversas. Não vêm só de coisas que eu penso, mas também de coisas que me acontece, ou de desejos que surgem. Para dizer a verdade, não apenas eu não sei de onde virão meus próximos interesses, como sei que posso passar meses sem ter interesse nenhum. Se você não quer saber nada, para que estudar?

Disso não decorre uma apologia da solidão. Mas depois eu explico o porquê.

Filosofia e sociologia nas escolas 2

1. Não estou mais na escola, então, francamente, apenas dou graças a Deus por não ter de assistir a essas aulas.

2. Vocês já sabem que por mim o Ministério da Educação nem existiria. Não apenas sou contra ele em princípio como ainda acho até bonitinho que as pessoas não percebam que, na lógica do estado intervencionista, qualquer Ministério fica à mercê do lobby mais poderoso. Também é bonitinho que facilmente acusem empresários de usar o Estado a seu favor, acusação aliás freqüentemente verdadeira; mas e os beneficiários dessa geração de empregos, serão eles todos inocentes? Seja um contrato de milhões ou um emprego na casa das centenas ou milhar, o princípio é o mesmo.

E um esclarecimento: não sou a favor do ensino domiciliar porque acho ruim o currículo do Ministério da Educação. Nem sou contra o Ministério da Educação porque ele fala coisa que eu não gosto. Gosto de acreditar que eu escreveria contra o Ministério mesmo que ele propagasse as idéias que me agradam. Não sou contra este currículo oficial. Sou contra qualquer currículo oficial. Contra qualquer educação estatal, sobretudo a obrigatória.

3. Chega a ser comovente perceber como as pessoas esquecem a sua experiência escolar. No dia em que eu soube que nunca precisaria ter contato com a química orgânica, senti um alívio como jamais experimentei novamente. Esqueçamos os objetivos nominais da escola. A principal experiência que ela proporciona é a sensação de um nonsense institucional: você tem que aprender coisas pelas quais não tem o menor interesse, ouvir as respostas de perguntas que não fez nem faria, ditas por alguém que quase sempre também demonstra que preferia estar na praia, e o objetivo supremo disso é passar num exame para um curso universitário que você não sabe se quer fazer. Depois as pessoas ficam ressentidas, achando que essa parte da vida delas é uma mentira, e… elas têm toda razão. É um desperdício de tempo e dinheiro.

Se você não se lembra, também, permita-me recordar que a experiência escolar mais comum é não conseguir sequer ouvir o que o professor está dizendo, estudar na véspera e esquecer rigorosamente tudo no exato momento em que a prova termina.

O maior efeito negativo disso é “jogar a criança fora com a água do banho”: traumatizado pela escola, você pensa que toda a literatura é um lixo insuportável, toda a história é uma farsa ridícula, toda matemática é uma abstração inconseqüente e, no meu caso, que toda química é simplesmente algo de que você jamais quer ouvir falar novamente. Porque não. E não.

O mais comum é que você preserve os seus interesses intelectuais apesar da escola, não por causa dela. No meu caso particular, sei que devo muito a algumas professoras de literatura, mas são exceções tão fortes que suas aulas constituem as únicas memórias vívidas que ainda guardo de situações de ensino. De resto, só tenho lembranças de momentos passados com meus amigos. E é por causa deles, dos nossos pares, que recordamos o passado com algum carinho.

Incluir filosofia e sociologia no currículo só terá um único efeito: cansar um pouco mais a paciência dos alunos, ou, na maior parte dos casos, dar-lhes a oportunidade de tirar algumas notas boas fáceis, porque, enfim, você já viu uma faculdade de filosofia e sabe quem é que vai dar aula. Essas aulas podem até virar doutrinação, ou nascer como doutrinação, mas os alunos serão tão desinteressados por elas como são por todas as demais. É mais fácil estuprar uma pessoa do que obrigá-la a assimilar idéias (ao menos dispondo só de uma sala de aula cheia de bagunceiros) que ela nem consegue escutar.

Agora, pelo amor de Deus, parem de tratar os alunos como se fossem uma tábula rasa e passiva que olha reverencialmente para o professor. Se você, direitista, foi espertinho e está aí hoje todo pimpão, por que os outros também não podem ser, como dizem, “críticos”?

Ciência x literatura 2

Discordo deste post sobre estudos literários do começo ao fim. Discordo do que diz o autor e discordo das conclusões tiradas. Discordo tanto, e tanto, que mesmo sem tempo para desenvolver a resposta que gostaria, faço alguns comentários.

1. A crítica literária já nasceu com pretensões científicas e o próprio Aristóteles tentou desenvolver uma ciência literária na Poética, observando elementos comuns entre epopéias, tragédias e umas e outras. Quer dizer, nem ele achava que as obras literárias fossem indivíduos únicos em seu gênero e espécie, “singulares e absolutamente irredutíveis”. Ainda que se alegue que algumas das semelhanças apontadas por ele são superficiais demais para sensibilidades modernas, como, por exemplo, certos poemas serem escritos no mesmo metro, o fato é que elas funcionam; é o mesmo metro idêntico que aparece em obras diferentes. No entanto, o modelo estrutural da tragédia, com aner, hybris, moira, um coro etc, está longe de ser superficial e define um gênero do qual restam dezenas de indivíduos, e não apenas um.

2. A analogia com a maçã é inadequada, porque toda vez que você ler ou encenar Édipo Rei o protagonista vai descobrir que matou o pai e casou com a mãe. A obra de arte literária é muito mais simples do que qualquer realidade. Tudo nela sempre acontece do mesmo modo, do mesmo jeito. É mais fácil Édipo continuar descobrindo a sua própria identidade a cada nova leitura da peça do que duas maçãs idênticas existirem e caírem identicamente.

3. A idéia de que cada obra é gênero e espécie de si mesma é preconceito romântico levado ao paroxismo. As obras mais diferentes podem estar escritas no mesmo idioma, em verso ou em prosa, ter personagens ou não, ser (predominantemente) narrativas ou expositivas, compartilhar modelos - como os Lusíadas tem a Odisséia como modelo, ou Atlantis, de Auden, parodia Ítaca, de Kavafys - e estruturas… Como já dito em 1., há muitos universais na literatura.

4. Muitos departamentos de literatura já não fazem outra coisa além de tentar ser científicos, com direito a hipótese, teste, modelo… Veja aí o formalismo russo, o estruturalismo e, por que não, o modelo girardiano do desejo triangular. Muitos papers literários respeitados (e às vezes muito bons - minha atividade favorita tem sido ler e reler alguns papers acadêmicos de Girard) nada mais são do que a apresentação dos resultados da aplicação de um ou mais modelos.

5. É importante fazer dois comentários sobre a tentativa de fazer ciência da literatura e o ressentimento que isso pode gerar. Primeiro, certos modelos são muito ruins, normalmente por partir de postulados absurdos. Segundo, é inevitável que numa análise segundo modelos eles tenham uma certa precedência sobre as obras, e, se elas já são simplificadas em relação à realidade (e sua simplificação consiste sobretudo em poupar-nos da banalidade), os modelos são mais simplificados ainda. Um livro de 350 páginas como Mensonge romantique et verité romanesque pretende explicar milhares e milhares de páginas de Dostoievski, Cervantes, Proust, Flaubert e Stendhal - só para ficar nos principais autores analisados. E, dispensando as aplicações, o simples modelo do desejo triangular ou mimético ali exposto pode ser perfeitamente resumido em uma ou duas páginas. Por isso, ao ler obras com um modelo explicativo em mente, você está sobretudo lendo o modelo, testando o modelo, confirmando o modelo, desmentindo o modelo, repetindo o modelo, exatamente como a ciência parte das individualidades para chegar às generalidades. Só que também é inevitável que a atividade científica seja diferente da atividade de fruição literária.

6. Porém, não é nem tanto a existência de modelos ruins, nem a natural diferença entre atividade científica e fruição estética e imaginativa que leva a uma crítica literária estéril e desinteressante, mas… a própria crença romântica de que cada obra é única e irredutível. Acreditando que os artistas são seres mais únicos do que os outros, os críticos invejosos também desejam ser únicos e lançar olhares únicos sobre aquelas obras únicas e escrever livros únicos, para também serem reconhecidos como pessoas únicas, absolutamente diferenciadas da “grande maioria”. Tanto a criação artística quanto a atividade crítica se tornaram meios de legitimação do ego (de pessoas que, aliás, precisam dela, pois costumam ser bem feias). Com essa centrifugação, ou atomização, é óbvio que o terreno comum vai diminuindo, e as circunstâncias vão se tornando cada vez mais particulares, e com elas as oportunidades de fricção e interesse. Se antes a melhor coisa que a literatura poderia fazer era dizer algo óbvio que ninguém estava dizendo, e dizê-lo do melhor modo possível, e a função da crítica era mostrar porque e como aquilo era novo ou adequado, agora tanto a literatura quanto a crítica querem simplesmente falar o que ainda não foi falado, mesmo que para isso seja preciso matar (nessa ordem) a lógica, a semântica e a sintaxe.

Minha solução pessoal para a questão passa por T.S. Eliot, Cyril Connolly e René Girard. Acredito que, assim como a literatura precisa se renovar, também a crítica precisa se renovar. Cada geração precisa reavaliar o cânon e até refazê-lo (Eliot). Mas essa renovação hoje caminha na direção de uma individualidade cada vez mais abscôndita e por isso mesmo irrelevante (Girard). A crítica precisa reconhecer suas tensões naturais. De um lado, precisa ser ciência ou buscar ser ciência (Girard), e de outro, os textos da crítica precisam ser bem escritos (Connolly). Isto equivale a dizer que a crítica, de certo modo, também é literatura. Por uma questão existencial, ela depende da retórica. Por uma questão pedagógica, ela necessita da beleza.

O rentismo na educação, ou: o roubo estrutural 0

Leio no UOL uma tradução (link para assinantes) de uma matéria do International Herald Tribune sobre a estagnação da educação superior italiana e imediatamente me lembro de Jeremy Clarkson dizendo que “a Itália é parte do terceiro mundo”.

O terceiro-mundismo italiano é compartilhado, é claro, pela senil Europa e pelo claudicante Brasil. E é hora de dar um nome tão anglicizado quanto preciso à causa desse atraso: rentismo, de rent-seeking, a busca de privilégios às custas dos outros.

A matéria do IHT diz que o problema da educação italiana é que há um grupo de professores velhinhos que controla tudo. Errado. O problema da educação italiana é que o governo italiano está sentado em cima dela. Se não fossem esses velhinhos, seriam outros - talvez até piores.

Quando eu era jovem e ingênuo acreditava que o governo queria sentar sobre a educação por causa de um desejo metafísico e prometéico de entregar às gerações presentes e futuras um mundo perfeitamente planejado, e ainda hoje acredito que meia dúzia de pessoas perversas e desconhecidas realmente tenham esse propósito satânico.

Hoje que não sou mais tão jovem e já passei anos demais olhando o Leviatã de perto acredito que esses professores são apenas um bando de rentistas em pequena escala. Normalmente o termo está associado àqueles lindos negócios com o governo em que são garantidos lucros. Pois a diferença de um empresário ou financista rentista para um burocrata da educação é apenas de grau, e não de substância. O burocrata da educação se aproveita do sentimento de insegurança do povo para prometer um sistema perfeito e cria regras para perpetuar seu controle. O sistema perfeito nunca funciona mas seu salário artificialmente definido é sempre pago em dia. A mensagem é: não trabalhe, não inove, crie um grupo de pressão e garanta seu quinhão dos impostos que a população ativa paga. E, neste caso específico, ainda garanta o prestígio de educador. Ah, vão lamber sabão, seus rentistas salafrários.

Diz a matéria:

Uma conseqüência do sistema aqui é o constante êxodo dos melhores estudantes para o exterior.

Rastrear os universitários graduados que se mudam para o exterior não é exatamente uma ciência exata, mas números da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que quase 50 mil pessoas com formação superior trocaram a Itália por outros países da OCDE nos últimos dez anos.

Sucessivos governos italianos implantaram vários programas para conter a fuga de talentos, mas as propostas apresentadas não ofereciam segurança a longo prazo e no final fracassaram.

Não é que não ocorra a nenhum burocrata a idéia sumamente óbvia de simplesmente abandonar a educação - nem que seja só a educação superior. Mas é que há muitos cargos públicos relacionados a isso e não existe a menor chance de os burocratas abandonarem sua fonte de dinheiro e prestígio.

Continua a matéria:

O centro do problema, concordam os críticos, é que no mundo acadêmico, mérito e excelência ficam em segundo plano diante da promoção dos interesses da base de poder de alguém.

O que, obviamente, acontece em todos os setores estatais. Mesmo depois do concurso, para subir é preciso agradar. Os críticos sem nome da matéria parecem supor que o sistema é bom e as pessoas é que são más. É por isso que eu sempre digo: vamos fazer um Estado imenso e planejador quando Jesus onisciente for o presidente, São Miguel Arcanjo for secretário de segurança, Salomão for o ministro da justiça e São Francisco de Assis administrar o Bolsa-Família.

Se as pessoas são más, o sistema tem apenas de minimizar a maldade, e não dar-lhe amplas oportunidades. Vamos fazer um sistema em que meia dúzia de pessoas possa controlar cargos e privilégios pagos com o dinheiro alheio? Ou vamos fazer algo em que cada um paga por suas próprias escolhas?

Onde há “redistribuição” compulsória, há corrupção. Não porque uma coisa leve à outra, mas porque as duas coisas são a mesma. “Redistribuição” é corrupção porque é roubo praticado com retórica socialmente aceita. Não é possível que os frutos sejam bons, exceto em casos acidentais e excepcionais, já que é também metafisicamente impossível que tudo vá mal o tempo todo. Mas também não é possível não perceber que um sistema corrupto, em que uns têm o “direito” de decidir como usar os recursos dos outros - ou seja, têm o “direito” de roubar - não vá gerar uma casta que deseja manter esse privilégio e, dispondo da retórica da lei e da ordem, sufocar qualquer um que a ameace.

Contra a reforma ortográfica 0

Aquilo que escrevi sobre a insistência em ensinar gramática na verdade nasceu do meu desejo de falar de outra coisa, a bilionésima reforma ortográfica da língua portuguesa, reforma que pretendo desprezar absolutamente sempre que puder.

Vejam, não é o caso de discutir o que faz sentido ou não. Não estou discordando dos métodos da reforma, mas da necessidade de reforma. Já vi o dono de uma editora brasileira dizendo que se beneficiaria da reforma porque assim poderia vender seus livros didáticos em Angola. Então a reforma será feita para atender aos interesses dos empresários? Também já vi um burocrata dizer que graças à reforma diversos documentos de reuniões oficiais entre Brasil e Portugal poderão ter uma única versão. Então a reforma será feita para atender aos interesses da burocracia?

A cada vez que se faz uma reforma, ortográfica ou gramatical, prejudica-se a continuidade do idioma e o argumento sempre usado por professores escolares de que as regras vêm do uso dos grandes autores perde credibilidade. Pegue qualquer edição antiga de Machado de Assis: separar sujeito de predicado por vírgula é bastante normal. A grafia das palavras, se você tiver sorte de pegar uma edição suficientemente antiga, remeterá às suas raízes latinas, e você notará a semelhança ortográfica maior com outros idiomas. Isso sim faz com que você perceba que o idioma está “vivo”, cravado na realidade do passado latino e do presente neolatino – o que é bem diferente de simplesmente dizer “a língua é viva” quando se quer justificar alguma bobagem.

A reforma ortográfica é a tecnocracia lingüística. São estudiosos e professores que, sem jamais ter escrito uma página memorável, querem “melhorar” o idioma. Por isso ela tem o cheiro do ressentimento típico dos intelectuais, que desejam ter alguma espécie de poder. E, na verdade, já que a educação está organizada em ministérios e comissões oficiais, não há nada de estranho nisso.

Parem de ensinar gramática 2

Fazendo faculdade de letras, não se passa uma semana sem que uma professora de língua portuguesa não discuta os problemas do ensino, para o qual ela tem as soluções. Quem é leitor habitual aqui já sabe que eu penso que o primeiro problema é o ensino ser controlado pelo governo, por isso vou poupar o leitor. Mas parece haver, além do problema de princípio, um problema de método. Não consigo perceber qual a utilidade de se ensinar gramática nas escolas. Se os alunos tivessem que aprender latim e/ou grego, até haveria utilidade, pois o ensino de uma língua ajudaria o ensino da outra. Como isso não acontece, o aluno é obrigado a aprender um monte de regras e classificações vazias e tem pouco contato com o uso literário (isto é, melhor) da língua. De nada adianta saber a diferença entre o adjunto adnominal e o complemento nominal, ou apontar uma oração subordinada substantiva apositiva (coisa que só aprendi muito depois da escola, já que sempre abominei o estudo da gramática tanto quanto abominava a química orgânica e a física do fio sem massa e da superfície sem atrito) sem ser capaz de escrever claramente.

Notem que eu falei “claramente”, não “corretamente”. A situação hoje é muito grave. Recentemente li dois resumos de teses de mestrado, escritas pelos próprios aprovadíssimos candidatos, em que o sujeito vinha com crase, isto é, algo comparável a dizer à Maria saiu em vez de a Maria saiu. As pessoas não sabem escrever, a pontuação tornou-se totalmente esotérica, e as empresas ficam contratando professores para ensinar regrinhas de gramática. Infelizmente, o uso claro da língua é como dirigir: você não pode pensar muito, ou vai causar um acidente. Fala-se e escreve-se no dia-a-dia da mesma maneira que se calcula uma freada. Uma dose maciça de leitura comentada de Machado de Assis ajudaria mais a escrever melhor do que estudar gramática. Isso e ensinar às pessoas que existe uma coisa chamada dicionário. Não é preciso saber a regência de todos os verbos: basta consultar o dicionário, raios. Eu consulto literalmente todos os dias.

A solução, pois, é simplesmente ler e escrever muito até se impregnar do idioma. Depois de muita, muita impregnação, pode-se analisá-lo, e não é razoável supor que as pessoas já têm o domínio da língua materna. Têm-no num nível extremamente básico, de sintaxe não-padrão. Há uma canção do inefável Anjinho e seus teclados que começa com o verso “a menina que eu estou gostando dela”. A diferença entre só dizer “a menina que eu estou gostando dela” e dizer “a menina de quem eu gosto” é a mesma que há entre só poder conversar com Anjinho e seus teclados e poder conversar com Camões e Machado de Assis.

Aliás, francamente, nada seria mais eficaz do que usar o famoso “preconceito lingüístico” para ensinar português. Na hora em que as pessoas tiverem pavor de ser confundidas com um boçal que fala em agregar valor, otimizar processos e se comunica através de PowerPoint, com um pseudo-poeta que pavoneia sua ignorância da métrica, com um militante de esquerda perverso que acha que a conjugação verbal é uma invenção burguesa e, por que não?, com blogueiros que mandam “beijos no coração”, aí sim o nível da linguagem comum vai melhorar um pouco.

Mas os professores só discutem como reformar o ensino da gramática a partir das novas teorias. Admito que as novas teorias são melhores do que a norma gramatical brasileira. Falar em sintagma preposicional, argumento externo e predicador faz mais sentido, ou ao menos é mais econômico. Mas ninguém cogita abolir o ensino da gramática em nível infanto-juvenil e trocá-lo por uma impregnação do que a língua tem de melhor. Ninguém acha que é melhor escrever como Graciliano Ramos do que discutir com o professor da escola uma filigrana de classificação.

Projeto de site: Revolução Russa 0

Caros leitores: há alguns dias tive uma idéia para marcar os 90 anos da Revolução Russa: um site a seu respeito. Espero que o site venha a ser uma criação coletiva, ainda que eu confesse não abdicar de um certo centralismo democrático.

Este é o texto que escrevi para dar a partida no projeto - o único a ser publicado até agora.

Um truísmo do nosso tempo diz que a História é sempre escrita pelos vencedores. Se é assim, é preciso admitir que em alguma esfera a revolução russa foi vitoriosa: até hoje os morticínios em massa realizados por Lênin e Stálin são vistos como acidentes de percurso ou traições da perversidade humana, e não como ações deliberadas que faziam parte de um plano totalitário.

O comunismo exige ser discutido sempre em dois níveis, um das idéias e outro das práticas, como se um não tivesse nada a ver com o outro. Sim, é verdade que a revolução russa não aconteceu segundo o plano de Marx. Ela não foi o desenvolvimento natural de uma sociedade altamente industrializada, mas o plano de uma vanguarda armada dentro de um país que mal tinha saído do feudalismo. Mas o III Reich de Hitler também não durou 1000 anos; alguém consideraria, só por isso, que a idéia ainda é digna de crédito? A idéia de que o “verdadeiro nazismo” – aliás, nacional socialismo – ainda não foi praticado e portanto merece atenção e respeito deveria ser bem aceita? É claro que não. O mesmo deveria valer para o comunismo.

O objetivo deste site é reunir documentos – sobretudo traduções e transcrições de livros – que mostrem que o mal tremendo causado pela revolução russa não foi um acidente de percurso mas, assim como no nacional-socialismo alemão, parte essencial do plano.

Qualquer pessoa pode contribuir inserindo textos. Escreva para mim pedindo um login e uma senha e mostrando algum material, e/ou entre na lista de discussão dos participantes do site. Estão recusados de antemão textos que sejam meras condenações do comunismo e da revolução e não acrescentem informações. Não se trata de falar mal e depois falar mal de novo, nem de tentar convencer pela retórica, e sim de deixar os fatos falarem – não se preocupe, eles nunca foram tão eloqüentes.

Portanto, biografias dos revolucionários, dados sobre massacres, explicações de políticas, tudo isso é bem vindo, e tudo, absolutamente tudo, deve estar embasado por referência bibliográfica – daí que o ideal seja transcrever e traduzir.

Mesmo que você não pretenda contribuir, volte ao site para vê-lo crescer.

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