Archive for the 'Cultura' Category


Ultimate Taboo 1

Esse post também poderia se chamar The U Word.

É que sempre penso que todas as minorias estão “batalhando por seu espaço” e querendo ser reconhecidas e amadas e celebradas por aquilo que elas são. Mas a nossa sociedade ainda precisa dar um passo muito importante. Existe uma minoria que não se assume, que se sente intimidada, que não realiza a sua parada oficial na praia de Copacabana, que não tem a sua semana, que não tem nada.

A minoria das pessoas feias.

Ou não é uma minoria. Mas é no sentido de que a nossa sociedade falocêntrica patriarcal capitalista nos obriga a favorecer apenas as pessoas bonitas, impondo a beleza como padrão – e impondo a beleza até mesmo como padrão de beleza. Não existem, por exemplo, mocréias entre as angels da Victoria’s Secret, embora a Playboy algumas vezes pareça estar na vanguarda e já praticar um certo sistema de cotas. Mas o fato é que não há barangas nos comerciais de lingerie, e o isso tudo que está aí nos impõe a Ana Beatriz Barros como se ela representasse a realidade da mulher mundial.

Não se trata, é claro, de questionar a vida erótica das pessoas feias. Todos sabemos que a feiúra nunca foi um impedimento para o uso dos orifícios corporais. Estou falando de outra coisa, que é a pessoa feia ter o direito de estar sempre confortável, de poder se assumir exatamente assim. Do direito de a pessoa feia fazer as cabeças de todos se virarem. De ser tão assediada quanto uma pessoa bonita. Depois de o gênero ter sido descolado do sexo, é hora de a beleza ser descolada do direito à atratividade.

Isso é o que eu vejo. Que a nossa sociedade não quer enfrentar o tabu da feiúra. Que a celebração da diversidade tem um limite e o manto da hipocrisia cobre o tratamento dispensado a boa parte das pessoas apenas porque elas não se encaixam em certos padrões. É hora de criar ministérios, secretarias, planejar políticas públicas para erradicar a praga da discriminação pela feiúra.

Quem tem Twitter vota no Obama 1

Ao menos essa é a impressão que eu tenho, sempre.

E também me parece que querer comunicar ao mundo sua vida e opiniões a cada instante é uma espécie de narcisismo que pode ser classificada na categoria científica de frescurite borderline.

Como diria Hamlet, “What’s he to Hecuba…?”

Meu uso da palavra “narcisismo” lembra a crítica que Girard faz a Freud em um de seus livros: o narcisista não está tão interessado em si quanto na imagem que ele projeta sobre os outros. De nada adianta mostrar-se superior sem que o inferior admita isso. Assim como de nada adianta projetar uma imagem da própria vida - via Twitter ou o que mais for - sem que outra pessoa venha achá-la maravilhosa.

Ter um blog ou um site também pode entrar nessa categoria. Já discuti aqui o tipo de imagem que pretendo passar - a de alguém interessado em abordar certos assuntos de uma certa maneira, com fé na inteligência individual.

Agora, esse negócio de Twitter e de outras possibilidades informáticas abre outra questão. Acho que o próximo filão da auto-ajuda estará na questão da administração da informação e do tempo. Recentemente meu celular foi para o espaço e deparei-me com a possibilidade de comprar uma nave espacial que checaria meus e-mails, gravaria vídeos com qualidade de DVD etc etc etc. Claro que fiquei seduzido. Mas logo percebi que as minhas necessidades eram muito mais humildes. Não preciso olhar meus e-mails a qualquer hora, a qualquer momento. Temo que, se eu pudesse, faria isso. Mas eu ficaria ainda mais distraído e mais viciado em informações que, com todo o respeito a quem as envia para mim, não são urgentes.

Se praticamente não há mais limites externos à obtenção de informações e diversos produtos culturais, isso não significa que a ausência de um limite interno é boa. É preciso encontrar um limite, para que se possa ter concentração. A disciplina nunca foi tão difícil, mas nunca foi tão necessária. E com essa frase de efeito - verdadeira, acho - encerro aqui e vou trabalhar.

Preciso desabafar 1

Sites com som foram inventados por Satanás.

Uma versão inferior 0

Tenho feito um esforço para não publicar grandes generalizações, mas esta é irresistível - sobretudo o final, que negritei. Com vocês, G.K. Chesterton:

A essa altura deve ser óbvio que cada coisa da Igreja Católica condenada pelo mundo moderno foi reintroduzida pelo mundo moderno, e sempre em versão inferior. Os puritanos rejeitaram a arte e o simbolismo, e os decadentistas os trouxeram de volta, com todo o antigo apelo à razão e um apelo adicional à sensualidade. Os racionalistas rejeitaram a cura sobrenatural, e ela foi trazida de volta por charlatães ianques que não só anunciavam a cura sobrenatural como proibiam a natural. Os moralistas protestantes aboliram o confessionário, e os psicanalistas reestabeleceram o confessionário com todos os perigos que lhe eram atribuídos, e nenhuma das proteções que se lhe admitia. Os patriotas protestantes ressentiam-se da intrusão de uma fé estrangeira, e criaram um império emaranhado em finanças estrangeiras. Após ter reclamado que a família era insultada pelo monasticismo, viram-na dilacerada pela burocracia; após ter objetado contra os jejuns recomendados a todos durante um período excepcional, viram abstêmios e vegetarianos tentando impor a todos o jejum perpétuo.

O passado 0

Hoje assisti na UFRJ a mais uma conferência da professora Cleonice Berardinelli. 92 anos, parece. Mas não escrevo para celebrar a senectude, e sim para uma pequena confissão: nos últimos meses, quiçá nos últimos anos, tenho feito um sério esforço para não cair na tentação que Jorge Manrique apontou em seu formidável poema: “a nuestro parescer / cualquiera tiempo pasado fue mejor”. Só que toda vez que ouço uma palestra de alguém mais vetusto - o próprio Girard já tem 85, se não me engano - espanto-me (e às vezes m’avergonho de mim mesmo) com a variedade de seu vocabulário e a clareza de suas explicações. Talvez alguém pense que as duas coisas são contraditórias, já que aparentemente a expectativa de um discurso simplesmente claro foi substituiída pela expectativa de um discurso “jornalístico”, e o leitor de jornal não vai parar para ir ao dicionário. Eu mesmo não levo o Houaiss para a mesa do café (nem pretendo passar a levar). No entanto, a que leva a padronização do discurso senão à… padronização do discurso? Antes de a professora Cleonice Berardinelli falar, um dos quatro ou cinco professores que fizeram suas preleções teve um discurso absolutamente previsível, repleto de lugares comuns. Entre um discurso padronizado jornalístico e um discurso padronizado acadêmico, onde está a famosa diferença, ela que justamente dá identidade às coisas e pessoas? Sem estes professores do passado, como poderíamos ouvir, viva, a linguagem de alguém que busca antes a fidelidade ao que pretende dizer do que a fidelidade a um padrão?

E digo outra coisa. Hoje em dia, falem mal de blogs o quanto quiserem, mas acho que quase que só neles você ainda encontra uma pessoa que fale como uma pessoa, e não como um veículo.

Mais um divisor 0

No Brasil, a “elite cultural” acompanha com mais interesse a campanha presidencial americana, e está muito melhor informada sobre ela, do que as campanhas brasileiras. Coloco “elite cultural” entre aspas não para dar-lhe um sentido pejorativo, mas para dar-lhe uma definição peculiar: “elite cultural” é quem 1. sabe inglês o suficiente para ler notícias na internet e 2. tem tempo para isso.

Para nós, brasileiros, a questão do patriotismo se coloca de maneira muito diferente da maneira como se coloca para os americanos, então não acho que seja o caso de descrever esse interesse pela campanha gringa como mero desprezo pela terra varonil, o que é reforçado pelo fato de que até pessoas mais à esquerda, que têm tentado monopolizar o amor pindorâmico e até atribuir a nossa direita blogueira um anti-brasileirismo visceral (no meu caso, só digo que não conheço o Brasil; mas conheço a cidade onde moro, e gosto dela; não está bom? “Ninguém ama aquilo que não conhece.”), parece ser acometida de mais frêmitos por Barack Obama do que por, sei lá, Fernando Gabeira.

É o caso, porém, de descrever este interesse pela campanha gringa como mera decorrência de ter ido à escola e ter uma mínima capacidade de juntar a com b, porque, por mais que haja mentiras lá, boa parte dos políticos ainda se parece com gente que se poderia convidar para a própria casa de classe média, típicamente orgulhosa - e aí proponho até uma característica definidora - de que seus saberes e “gostares” (ok, infinitivo substantivado no plural é provocação) lhes são mais caros que as posses materiais. Ser de classe média é ter a imaginação mas não os meios dos ricos. Não digo isso como um rico que varre os farelos da camisa: meu maior luxo é usar Mac em vez de Windows.

Voltando: os políticos brasileiros são excessivamente grotescos, e não tenho um só amigo que não se refira a eles sempre em tom de (justo) escárnio, para contar a última bizarrice desarticulada que a propaganda eleitoral proporcionou. Os políticos brasileiros definitivamente não estão falando com as pessoas que tiveram alguma educação, e não são elas que estão pedindo votos.

Isso, é claro, levanta a questão da própria educação como fator de desagregação e descolamento imaginário. Não é nem o caso de falar de superioridade ou inferioridade de culturas, sugerindo que quem estudou volta-se para uma cultura superior, mas de produtos dirigidos a certas pessoas. Essa elite cultural brasileira está mais interessada em consumir produtos culturais populares da Inglaterra ou dos EUA porque chegou a este nível apenas com sua educação escolar e aulas de inglês. Eu mesmo vou baixar hoje o primeiro episódio da nova temporada de House, e lembro perfeitamente de que aos 12 anos percebi que todas as novelas eram idênticas e desisti de assisti-las. Algo me diz, na verdade, que tudo isso se deve unicamente àquelas pessoas que, diante daquilo que você tem a propor de melhor, começam a fazer um sermão sobre a incapacidade do público de consumir produtos melhores, dizendo que tudo é difícil. Não temos um discurso político melhor, nem uma televisão melhor, porque os responsáveis por isso querem sempre apostar no pior. E é isso que impressiona aqueles que vão morar nos EUA: o fato de que lá as pessoas tendem a apoiar aquilo que acham bom, não aquilo que presume a idiotice universal.

Sarah Palin, Obama da direita 3

O que, francamente, me dá náuseas.

Não é que Sarah Palin me dê náuseas, nem Barack Obama: tenho a ventura de saber muito pouco sobre ambos. O que me parece pueril e vergonhoso é o fervor que se pode sentir por um político.

Em política, só o ceticismo em relação ao Estado salva.

Ok. Frases de efeito à parte, vamos voltar a martelar teoria mimética, porque o caso Obama / Palin é tão esquemático que chega a ser até um pouco tedioso.

Primeiro, a esquerda “possuiu” Barack Obama. Esse objeto infundiu no modelo uma qualidade transcendental: o otimismo em relação ao futuro. Diz Girard no começo de um de seus ensaios: “O desejo não é deste mundo. É para penetrar em outro mundo que se deseja.”

Simultaneamente, a direita invejou a esquerda por sua posse da esperança. Da “audácia da esperança” (juro que sinto vergonha dessa fórmula; não consigo nem repeti-la sem fazer uma ressalva). De ter as atenções da mídia. De ser o “novo”, o diferenciado, o inesperado. De ser the great white hope, the great hope white people like.

(Secretamente, a direita quer ser chique e aceita pela esquerda esnobe.)

Depois, a direita encontrou um objeto que poderia valorizá-la exatamente como Barack Obama. Alguém novo. Surpreendente. Sabor limão. Sei lá. Eu realmente não sei. O que eu sei é que agora eu vejo blogs de direita tratando Palin como a esquerda trata o Obama. E é claro que a esquerda é falsa, são um bando de iludidos, e a direita agora é que tem o desejo autêntico, espontâneo, verdadeiro. A direita quer sentir que tem direito ao sentimento messiânico. Que tem esse direito de modo mais real, legítimo e intenso que a esquerda.

Não ligo para futebol, mas sei que ao menos aqui no Rio existe um forte sentimento antiflamenguista. Muitas pessoas definem-se negativamente. Antes de torcer para o Fluminense ou para o Vasco, querem que o Flamengo perca. Na disputa esquerda x direita, cada lado é o Flamengo do outro. Cada lado imita o outro exatamente. E, sério, isso não é muito difícil de perceber. Nesse momento, o leitor pode assistir ao vivo, em tempo real, à criação de duplos miméticos puxando o saco inexistente de Sarah Palin.

A violência recíproca, porém, terá um marco no dia da eleição, e o lado perdedor vai demonizar o vencedor por aparentemente ter-lhe roubado esse direito à sensação de espontaneidade. Porque, meus caros, é muito mais legal torcer para um time que ganha do que para um time que perde. E os perdedores precisam de um bode expiatório. Nesse caso, é muito bom sentir-se oprimido pelo sistema. Aqui no Brasil, a direita reclama (eu inclusive!) do establishment esquerdista enquanto vive uma vida normal. Nos EUA, a esquerda fala como se vivesse sob uma fantástica opressão religiosa protestante. É tudo imaginário. Como o ateu not particularly bright que vi outro dia confessando não saber se seu futuro pertencia ao gulag ou às fogueiras da inquisição…

Vejam que isto tudo que falei não toca minimamente na questão do mérito real dos candidatos, questão que aliás me desinteressa prodigiosamente. O que falei diz respeito às atitudes em relação à política. Esperar grandes coisas de um político é praticamente a garantia de que 1. ele não vai fazê-las e você ficará cosmicamente ressentido; ou 2. ele não vai fazê-las e você vai mentir loucamente para preservar a própria imagem, exatamente como alguém que paga muito caro por algo mas continua a dizer que é bom só por vergonha de admitir que fez algo idiota.

Isto tudo que falei toca, porém, em duas coisas. Primeiro, toca na necessidade do auto-exame das próprias motivações (eu não falei “convicções”). Comece suspeitando de si mesmo: se os nomes de Barack Obama e Sarah Palin fazem acontecer alguma coisa no seu coração, o caso é grave. Mas vá adiante. Veja se você não está apenas imitando seu adversário, se você não estabelece uma grande linha que separa eu e eles na sua cabeça, e se você não acha que eles representam tudo aquilo que você jamais será. Segundo, toca no impacto que essas atitudes realmente têm no famoso bem comum. A disputa dos duplos - ver Batman e Coringa - só deixa um rastro de destruição e caos.

Um leitor mais arguto pode também me acusar de ter uma certa motivação: a de querer mostrar-me superior a toda essa disputa e de escrever somente com esse objetivo. Admito que essa impressão é uma decorrência inescapável deste meu texto. Admito até que uma parte de mim não está emocionalmente acima da disputa (sempre que a esquerda perde, tenho alguns segundos de alegria; ela é meu Flamengo) e que estou dominado por desejos miméticos negativos (existem os positivos) em outras áreas. Mas isso seria atacar a minha crítica da motivação com outra crítica da motivação, o que nem é inválido em si - só é mimético, e a única maneira de fazer uma discussão progredir é conseguir abandonar a competição mimética.

Interpretando um quadro de Caspar David Friedrich 1

Understatement e compostura. Segundo eu mesmo. Fazendo as vozes dos personagens. Em inglês.

Sobre o duplo angélico 0

Após meu texto sobre o transgressor eficiente, achei que valia a pena escrever mais sobre a idéia girardiana de “duplo angélico” para clarificar alguns pontos. O primeiro exemplo de duplo angélico que Girard dá é Jean Santeuil, protagonista da obra homônima inacabada e imatura de Marcel Proust:

“Jean Santeuil não conhece o desejo nem a verdadeira desilusão. Ele possui tudo que o narrador da obra posterior [Em busca do tempo perdido] não possui. Elegante, inteligente, seguro de si, exerce um charme irresistível sobre os Outros.”

“From Novelistic Experience to Oedipal Myth”, publicado em Oedipus Unbound.

Tanto o desejo como a desilusão são admissões da própria finitude, por isso a vida perfeita que se deseja projetar não tem nem um nem outro. Os desejos que aparecem são intensos e plenamente satisfeitos. O duplo angélico é a pessoa de quem Álvaro de Campos se ressente no Poema em linha reta: “Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.”

Em vez de iniciar uma séria digressão literária, acho mais didático ficar num terreno mais banal. A web é uma grande facilitadora de produção de duplos angélicos. Seja no seu perfil no Orkut (de onde saí há bons anos, a propósito) ou no seu blog, você quer projetar uma certa imagem positiva de si, que domina as situações por que passa ou que, quando não domina, é de uma incapacidade absolutamente charmosa. Você quer que o mundo saiba quais são as músicas que você ouve, seus filmes favoritos e sei lá mais o quê. Nesse momento devo dizer que outro dia li um artigo sobre como as pessoas já se rejeitavam in limine por causa dos gostos musicais, o que me pareceu uma das coisas mais imbecis do universo. Francamente, não consigo levar tão a sério assim nem meu gosto por Brahms ou Schubert, quanto mais meu gosto por Lupicínio Rodrigues ou minha rejeição por Djavan (odeio todas as letras que não fazem sentido, porque são contra a natureza humana). Talvez eu só fosse a um show da Madonna ou do Djavan se a Ana Beatriz Barros me pedisse, mas não consigo me imaginar pensando: “Aquela menina não gosta da Gundula Janowitz. Assim não é possível.”

Projetar um duplo angélico que realmente se diferencie e consiga ser interessante não é nem um pouco fácil, e nosso mestre da categoria é obviamente Alexandre Soares Silva. Mas não necessariamente o duplo angélico segue a via do esnobismo de monóculo que olha os selvagens com curiosidade e desprezo (essa me parece a melhor estratégia de humor aqui porque lida com os complexos de inferioridade brasileiros). Em vez de molhar a madeleine, existem blogueiros que preferem dizer que se afundam na bebida e na leitura de Bukowski (se você se diverte escandalizando com esnobismo, faça cara de quem não entendeu o nome e depois diga, com cara surpresa, “Ah! Biukáuski!”). Unindo o dândi e o beatnik está o desejo de projetar sobre os outros a imagem de que sua vida é a pura seqüência de desejos espontâneos vividos em plena intensidade, sempre “campeões em tudo”. Se eventualmente perdem, é porque o mundo é mau. Entre todas as imagens projetadas, sempre está a de alguém que afeta sem ser afetado. Vale repetir a citação de Girard:

“Jean Santeuil não conhece o desejo nem a verdadeira desilusão. Ele possui tudo que o narrador da obra posterior [Em busca do tempo perdido] não possui. Elegante, inteligente, seguro de si, exerce um charme irresistível sobre os Outros.”

Por isso, passando à produção literária, não faz muita diferença que o personagem passe por apuros e seja realmente vitimado pelos outros se ele mesmo não enxergar a sua culpa nos males. Todos somos culpados. Se o personagem é fundamentalmente inocente do começo ao fim, é grande a chance de que seja apenas um duplo angélico do autor, uma versão mais perfeita dele mesmo.

Girard oferece Édipo como exemplo paroxístico daquilo que chama de “experiência romanesca”, a destruição do duplo angélico. Na peça de Sófocles, Édipo passa da máxima crença na própria inocência à admissão total da culpa. Igualmente, Proust teria passado, enquanto autor, da produção de uma obra com um protagonista perfeito à produção de uma obra com um protagonista que lida com sua finitude, e o mesmo teria acontecido com diversos autores. Em algum de seus livros Girard diz que “todo grande autor em algum momento se torna parodista consciente de si mesmo”, rindo da maneira como levava a sério a imagem de perfeição que gostava de projetar.

Agora, eu não poderia terminar esse texto sem convidar o leitor a enxergar o meu próprio duplo angélico. Só neste post eu quis mostrar que sou tolerante em relação ao gosto musical alheio, rejeitei os “outros” indefinidamente por seu desejo de parecer perfeitos, e de modo geral eu gostaria de ser percebido como alguém que tenta olhar para as coisas mesmas. Não há como enunciar uma estrutura geral da ação humana sem dar a impressão de que se está acima dela; não é possível falar do duplo angélico sem parecer que se está tentando dizer que essa fase já foi superada. Eu vejo que essa superação é, na famosa vida real (e não na literatura), extremamente lenta, e consiste em abandonar a imagem perfeita e inocente de nós mesmos que usamos para nós mesmos, para ter nossa própria justificação íntima. Acusar os outros angelicamente, dizendo que eles são burros ou bregas, é o meio mais comum de diferenciar-se; difícil é apontar o dedo para si e sinceramente não esperar ser visto como alguém melhor por isso. Não estou nem insinuando que eu tenha chegado lá.

O terço da Carol Castro 1

Antigamente, eu sentia repulsa à famosa frase de Valéry que Drummond usou como epígrafe de um de seus livros - “les événements m’ennuient”, ou “os acontecimentos me entediam” - mas hoje até sinto uma certa simpatia por ela. No entanto, o show de horrores provocado pela (agora) famosa “foto da Carol Castro segurando um terço na Playboy” é digno de comentário - podem ler meu texto em OrdemLivre.org. Quando o dinamarquês ofendeu os muçulmanos, eu e muitos dissemos: “Não gostaram? Azar. Podem reclamar, protestar - e só. Ninguém vai ser perseguido.” Agora é nossa vez de dar ouvidos a nossa própria recomendação.

E devo acrescentar: aquela tatuagem no baixo abdômen da moça também é ofensiva. Corruptio optimi pessima.

Para quem gostou do cartaz bizarro da semana passada, hoje postei outro, convidando os leitores a enviar os seus.

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