Áudio


5
set 08

Interpretando um quadro de Caspar David Friedrich

Understatement e compostura. Segundo eu mesmo. Fazendo as vozes dos personagens. Em inglês.

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12
nov 07

In passim

Bruno Tolentino, O mundo como idéia. São Paulo: Globo, 2002. p. 250

Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era. É tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.

E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:

intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,

pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas.

Leitura e comentário: 3m05s

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O mundo como Idéia

Em 12 de novembro do ano passado, quando fiz uma homenagem a Bruno Tolentino por seu aniversário, eu sabia que ele não estava bem de saúde, mas não imaginava que exatamente dali a seis meses, em 12 de maio, eu o veria pela última vez. Fiquei muito feliz por ele ter me dito que ficou “muito feliz” quando lhe contaram da minha pequena homenagem. E, seis meses depois do último encontro, no domingo com poesia que foi-se instituindo, não consigo falar de outro autor que não Bruno Tolentino, e de outro poema que não esse, “In passim”, um dos melhores de sua obra e de nossa língua. Publico o domingo com poesia na segunda, sem corrigir a data, em nome desse ano.

Não houve outra inspiração para o domingo com poesia além de uma frase que Bruno Tolentino repetia incessantemente, sempre atribuindo-a a Manuel Bandeira: “não basta saber o que é bom, mas por que é bom”.

Quando falamos também de arte, estamos opondo algo que foi criado segundo alguma ordem a algo que está informe, ou um produto adaptado ao uso (em sentido lato) humano à matéria bruta. É uma diferença semelhante à que existe entre um boi e um bife. Naturalmente você pode dizer que do ponto de vista de Deus o boi é uma obra de arte, mas estou falando do ponto de vista do uso humano. Algumas pessoas não gostam da palavra “uso” nem de falar em “utilidade”, mas, como já disse, me parece que dizer que um poema não serve para nada (como o próprio Bruno Tolentino disse) é a mesma coisa que dizer que a alma não tem certas necessidades. E é óbvio que, assim como a alma é mais nobre do que o corpo, o “uso” de poesia pode ser mais nobre do que o uso de bifes, mas não deixa de ser uma espécie de uso. No entanto, a palavra “arte” vem do grego areté, que significa algo como “mérito, excelência, superação” – daí uma das razões por que não pensamos em arte tanto como a adesão a certos procedimentos racionais para a confecção de objetos, o “modo correto de fazer as coisas” de Ananda Coomaraswamy. Muitos objetos podem ser artísticos e ser até boas obras de arte, mas poucos têm a marca da superação inspiradora, a marca de uma naturalidade absurda que com facilidade comove o espectador qualificado.

É justamente para aumentar essa facilidade de comoção e para ajustar a percepção que não basta saber o que é bom. Quem quer que tenha insistido na apreciação de qualquer arte viu que seu gosto foi ficando mais apurado. Posso ter começado a ler poesia com Fernando Pessoa (num livro achado em casa), mas minhas opiniões sobre o que é bom e o que não é em Pessoa mudaram muito. Como toda criança, comecei gostando mais de Alberto Caeiro, e hoje prefiro mil vezes o Pessoa ortônimo e o heterônimo Ricardo Reis. Também não nasci gostando de Hildegard von Bingen e Schubert: ouvi muita música popular, que um belo dia parou de me satisfazer.

Tudo isto foi para explicar a razão de existir um domingo com poesia: se as pessoas começarem a ler poemas com mais atenção, vão apreciá-los cada vez mais. Há quem busque na pura experiência sensorial seus prazeres mais intensos, mas quem já tenha tido um verdadeiro prazer intelectual sabe que sua intensidade é maior, e até mesmo seu poder de catarse. Saber porque algo é belo intensifica a experiência da sua beleza. Talvez nunca consigamos definir perfeitamente a areté de algumas obras, e talvez daí venha seu poder de sempre nos maravilhar, mas ao buscá-la com o intelecto melhoramos como leitores. Aqui, aliás, está o que considero ser o elemento essencial da educação: um foco na transformação do sujeito, no aprimoramento de suas habilidades. Educar-se em literatura não é simplesmente ter familiaridade com certas obras de poesia, ficção, teatro, crítica etc., mas poder transformar parcialmente essas obras em si mesmo. Ao contrário daqueles que têm o fetiche objetivista, acredito que sem amor pelas boas obras pouco ou nada se entenderá delas; “transforma-se o amor na cousa amada, por virtude do muito imaginar”, e veja que o amor precede a transformação.

Toda essa recapitulação de diversas coisas que já disse, espalhadas por vários textos, ainda não diz nada sobre o poema de hoje. Mas não posso falar dele sem continuar recapitulando outras coisas. Na semana passada, por exemplo, eu falava de como me parece que Camões, já impregnado daqueles paradoxos da linguagem amorosa do século XVI português, escreveu o poema “Amor é um fogo que arde sem se ver” com imensa facilidade. Um autor pode também ficar impregnado das questões com que peleja, e Bruno Tolentino, que chegou a forjar uma linguagem própria, mesclando vocabulário próprio e emprestado (o “tordo”, a “aranha”, o “verme”, a “Idéia”, o “conceito”, o “rapto” etc.) parece, em muitos de seus poemas, estar fazendo muita força para escrever algo. Percebemos que ele tem algo diante de si, algo mais ou menos claro, e que se esforça para recuperar aquilo no discurso – daí que sua leitura exija muitas vezes um esforço semelhante àquele demandado pela leitura de textos filosóficos, isto é, não se trata apenas de deixar-se envolver pela beleza mas de tentar ver a mesma coisa que o autor viu, lembrando que o discurso é um apoio para o ato intuitivo e não o próprio ato intuitivo. Raramente há um casamento perfeito entre intuição e discurso; aliás, talvez seja um casamento tão raro que seja sempre eterno: existem algumas fórmulas que não cansam, que têm o poder de um caso encerrado da melhor maneira possível. Shakespeare seria a maior fonte de exemplos desse tipo: é impossível entrar em contato com sua obra e não passar a ler diversas situações a partir dela. Esse casamento é um dos objetivos perenes de (talvez) todos os grandes poetas, mas não é incomum que ele se realize de maneira um pouco inesperada, alheia ao projeto, e “In passim”, resumindo muitas coisas que Bruno Tolentino estava sempre tentando dizer, é, para usar suas próprias palavras, mais “um rapto no vento” do que parte de seu esforço. Um rapto feliz soprado pelo vento, que também é o Espírito.

“Tudo vai-se acabando”, e a explicação, “tudo passa / do que é ao que era”, que já começa a trair nossa expectativa. “Do que é ao que era” soa um tanto filosófico. Mas é mais razoável dizer que tudo passa do que é ao que será. Passa-se da potência ao ato. Mas tudo que existe tem a potência de morrer. O “será” de tudo que existe é um “era”. Bruno Tolentino poderia ter dito “foi”. Mas “foi” é perfeito, acabado; “era” é imperfeito, inacabado, porque tudo é “mais ou menos uns vestígios de fumaça”, ainda existindo de algum mundo. Depois o poema expande o raciocínio: nada deixa marcas no fugaz, porque tudo é fugaz. Eu poderia esmiuçar cada verso, mas creio que o leitor é capaz de fazê-lo após esse empurrãozinho.

Mas há uma grande tentação de ver um certo niilismo no poema, que parece dizer “tudo vai passar, e é uma tremenda idiotice reclamar”. A tentação morre ao percebermos a referência do último verso, a “lição de trevas”, quase um termo técnico da liturgia da Semana Santa. Com o apagar das velas da liturgia das trevas, são lidas as “lições” do Profeta Jeremias, de São Paulo etc. Essa liturgia – procure no Google por “tenebrae” para saber mais – naturalmente precede a liturgia pascal. O suplício e a morte de Jesus conduzem à sua ressurreição. E é por isso que esse poema tem uma relação íntima com outro poema do próprio Bruno Tolentino, que ele chamou “O segredo” mas fez questão de publicar, lembrando que no uso corrente também podemos falar em “segredo” querendo dizer “a coisa mais importante”:

O Cristo não é
um belo episódio
da história ou da fé:

nem o clavicórdio
nos dedos da luz,
nem o monocórdio

chamado da Cruz.
O crucificado
chamado Jesus

é o encontro marcado
entre a solidão
e o significado

do teu coração:
de um lado teu medo,
teu ódio, teu não;

de outro o segredo
com seu cofre aberto,
onde o teu degredo,

onde o teu deserto,
vão morrer, mas vão
morrer muito perto

da ressurreição.

As horas de Katharina. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 180

É irresistível aproveitar a analogia com o ciclo das estações. Há um ano homenageei Bruno Tolentino; seis meses depois encontrei-o; mais seis meses, e temos uma revolução completa. É hora de, seguindo as estações, passar por um tempo de recolhimento para depois ressurgir. As obrigações estudantis e profissionais pesam muito, e tenho planos de um formato um pouco menos desordenado para o nosso domingo com poesia. Por isso, tendo encerrado esse ciclo, declaro mais um recesso, este mais longo: acho que só volto depois do carnaval de 2008, mas a espera valerá a pena.


4
nov 07

Amor é um fogo que arde sem se ver

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter, com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Leitura e comentário: 2m14s

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Talvez este seja o mais famoso poema da língua portuguesa – e já era muito antes de ser considerado uma canção popular. Aliás, para ficar na área da canção popular, sinto-me tentado a dizer que este soneto de Camões é a “Garota de Ipanema” da poesia: você já ouviu tantas vezes que é difícil prestar atenção ao que está realmente sendo dito, e repete o que ouve como repetiria um idioma que não entende. Acredito que quase toda a música popular – incluindo a bossa nova – está irremediavelmente presa a uma circunstância; não me parece que daqui a séculos as pessoas vão assistir a recitais de Tom Jobim da mesma maneira que assistem a recitais de John Dowland. Não digo isto por esnobismo: as composições mais próximas do registro popular feitas por Villa-Lobos, nossos lieder brasileiros, me parecem obras verdadeiramente superiores.

Não cito Dowland por acaso. Ele não era um poeta; era um compositor. Mas o trovador Marcabrun também era compositor, e foi das cantigas de amor e de amigo medievais que veio o modelo petrarquiano de amor, e com ele o modelo português do século XVI. Desse modelo de amor cortês veio nosso imaginário contemporâneo. Esperamos nada menos que uma espécie de visão beatífica permanente da pessoa amada; as banalidades do dia-a-dia parecem heresias e profanações desta religião íntima. As mulheres sonham em ser, mais do que amadas, idolatradas, cultuadas; os homens orgulham-se de apresentar-se como seus cultores. Bem, eu acho mesmo que a mulher é a coisa mais bela de toda a criação. Mas isso não me impede de perceber a inviabilidade do amor cortês, o que não percebemos mais há muito tempo. Se lermos o poema no contexto de outros poemas da mesma época, veremos que Amor é sempre tirano; que suas vítimas são sempre “tristes”, e ninguém desejaria escravidão e tristeza. Vale uma palavra de – sempre ele – W. H. Auden:

Historica e individualmente há novas descobertas, como o amor cortês, que criam novidade e dão nova sinceridade a novos sentimentos. À medida que o tempo passa, a descoberta tem sucesso por causa de sua verdade. Então a convenção se petrifica e é usada por pessoas que têm sentimentos muito diferentes. A retórica de Petrarca teve sua origem na busca pela fidelidade pessoal contra os casamentos arranjados, e depois passou a ser usada para levar uma garota para a cama por uma noite.

Lectures on Shakespeare, pp. 115-116

Este, aliás, é um dos trechos em que Auden deixa bem claro o quanto foi influenciado por Rosenstock.

No cristianismo é bem aceita a doutrina de São Tomás de Aquino sobre o amor, que, resumidamente, distingue entre o amor de concupiscência e o de amizade. No primeiro você deseja o objeto para si, deseja usufruir dele e pode até destruí-lo. Por exemplo, amo o chocolate e não me importo com o fato de que ele não resistirá aos meus avanços. Posso amar uma mulher apenas para usufruir de seu corpo. No segundo amor, você deseja o bem do objeto amado. É claro que nas relações humanas os dois amores estão misturados, mas isso não impede sua distinção.

Também é claro que o poema de Camões não fala de nenhum desses dois amores, nem descreve a experiência do amor como algo agradável. Ainda que o “fogo que arde” seja neutro, nenhuma das qualificações posteriores é positiva. Não há desejo de saciar-se, pois a relação é paradoxal: “é nunca contentar-se de contente / é um cuidar que ganha em se perder”. Também não há qualquer menção ao desejo do bem ou da perpetuação do ser amado. O poema é sobre este amor cortês convencional, que não é exatamente cristão; é a visão de Eros a que sempre me refiro.

Falando francamente, acredito que Camões tenha composto esse poema com uma certa rapidez. Impregnado das convenções, escrevendo nelas o tempo inteiro, de repente chegou a uma fórmula sintética, semelhante à do soneto “Pace non trovo e non ho da far guerra” de Petrarca (como aponta a minha edição da Lírica), em que pode perguntar: se esse negócio de amor, “tão contrário a si”, só faz mal às pessoas, por que será que elas o continuam desejando? Ou, desinvertendo a sintaxe, por que seu favor pode causar amizade nos corações humanos?, isto é, por que as pessoas o desejam?

Notem bem que estamos falando de desejar o Amor, não uma pessoa amada. Aí é que está, e Camões já notava, boa parte da raiz de muita infelicidade moderna. Quantas vezes você não ouviu uma mulher dizendo que acha que nunca amou, e então explica que nunca se sentiu perdida e loucamente apaixonada? Por que, se essa experiência é tão negativa, a ponto de ter produzido no século XVI uma geração de “tristes”, continua sendo desejada e tomada como parâmetro para as demais relações?

Algo me diz que a teologia mística e a ciência do discernimento dos espíritos teriam algo de muito interessante para dizer a respeito.


28
out 07

Enquanto quis Fortuna que tivesse

Enquanto quis Fortuna que tivesse

esperança de algum contentamento,

o gosto de um suave pensamento

me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse

minha escritura a algum juízo isento,

escureceu-me o engenho co’o tormento,

para que seus enganos não dissesse.

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos

a diversas vontades! Quando lerdes

num breve livro casos tão diversos,

verdades puras são e não defeitos;

e sabei que, segundo o amor tiverdes,

tereis o entendimento de meus versos.

Leitura e comentário: 2m59s

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Toda antologia de sonetos de Camões tem que começar por esse, que é mesmo uma espécie de frontispício, e não acho má idéia simplesmente descartar aquelas – já as vi nas livrarias – que preferem esquecê-lo.

Por que este poema é tão bom? Por fazer uma coisa muito difícil: dizer uma coisa de cada vez, de modo claríssimo, econômico, sem faltar à melodia. É um casamento perfeito de som e significado. Dizer isso soa um clichê, mas permitam que eu prove o que disse e encha de significado uma frase digna da cerimônia do Oscar.

Já disse que gosto da divisão de Ezra Pound em poesia melopaica, fanopaica e logopaica. A melopaica têm ênfase no som: o exemplo perfeito por ser extremo está no simbolismo francês e seus filhos, que incluem, em última instância, T. S. Eliot. A fanopaica tem ênfase na imagem, e Pound cita como exemplo poetas orientais e diz que parte do impacto do poema depende da escrita em ideogramas. Não me resta alternativa além de acreditar nele, até porque eu mesmo não costumo gostar muito de poemas em línguas que entendo que sejam só sucessões de imagens descritas. A logopaica, por fim, se apóia no significado, no “conteúdo”. Pois então: cá no Ocidente, quando tentamos escrever algo, tentamos fazer o som e o significado casarem. Às vezes queremos usar uma palavra porque gostamos do som, mas ela pode não ficar bem no contexto. Ou temos uma idéia do que queremos dizer mas as palavras adequadas não vêm. Uma coisa é falar de um fantasma que vem me acordar no meio da noite, e outra é soltar versos como “Súbita mão de algum fantasma oculto / entre as dobras da noite e do meu sono”. A informação essencial do que acontece está presente nas duas formulações, mas muito mais evidente na segunda. O som dos versos a realçou, casou-se com ela, e som e informação parecem mesmo inseparáveis agora.

Assim podemos apreciar a simplicidade desse soneto de Camões. Tome a primeira estrofe: não há nenhuma informação em excesso, nenhum “floreio”, por assim dizer. A Fortuna com letra maiúscula é a deusa Fortuna: enquanto ela quis que Camões (acho melhor do que ficar dizendo “o poeta”) tivesse esperanças de felicidade amorosa, “o gosto de um suave pensamento” (como é bonito esse verso!) o motivou a escrever. A beleza acaba se manifestando até naquilo que a estrofe não é: as rimas não são afetadas, não há nada que não proceda do conteúdo.

(E, se me permitem uma nota retroativa, há alguns anos eu publiquei um poema e disse que seu primeiro verso se baseava no primeiro verso de um famoso poema de Camões; ninguém percebeu a semelhança sonora.)

Nas demais estrofes, vale o mesmo procedimento de clareza. O Amor não queria que os poemas de Camões revelassem às pessoas sensatas (de “juízo isento”) os tormentos a que submete seus escravos, então obscureceu-lhe a inteligência. Assim, é preciso dizer que as coisas extraordinárias que serão lidas não são mentiras, mas “verdades puras” que o leitor apreenderá na medida do amor (agora com minúscula mesmo) que ele mesmo tiver. Um convite ao esoterismo, talvez pensem alguns de inclinação “platônica” em sentido vulgar, como eu mesmo. Mas também um convite à experiência e, muito, muito antes de qualquer modernidade auto-centrada, uma constatação da interpretação subjetiva dos textos, e isso numa época em que a poesia, mesmo a de Camões, era um tanto convencional, até mesmo em relação aos temas. Por isso, como eu até já observei aqui, antes de achar que vai falar alguma coisa de novo volte primeiro ao vate: a chance de você levar uma rasteira se não o fizer é grande demais para ser desprezada.


22
out 07

Foge-me pouco a pouco a curta vida

Luís de Camões

Foge-me pouco a pouco a curta vida,

– se por caso é verdade que inda vivo – ;

vai-se-me o breve tempo d’ante os olhos;

choro pelo passado em quanto falo,

se me passam os dias passo a passo,

vai-se-me enfim a idade, e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!

Que nunca uma hora viu tão longa vida

em que possa do mal mover-se um passo!

Que mais me monta ser morto que vivo?

Para que choro, enfim? Para que falo,

se lograr-me não pude de meus olhos?

Ó fermosos, gentis e claros olhos,

cuja ausência me move a tanta pena,

quanta se não compreende em quanto falo!

Se, no fim de tão longa e curta vida,

de vós m’inda inflamasse o raio vivo,

por bem teria tudo quanto passo.

Mas bem sei que primeiro o extremo passo

me há-de vir a cerrar os tristes olhos

que Amor me mostre aqueles por que vivo.

Testemunhas serão a tinta e pena,

que escreveram de tão molesta vida

o menos que passei, e o mais que falo.

Oh! Que não sei que escrevo, nem que falo!

Que se de um pensamento noutro passo,

vejo tão triste gênero de vida

que, se lhe não valerem tanto os olhos,

não posso imaginar qual seja a pena

que traslade esta pena com que vivo.

Na alma tenho contino um fogo vivo,

que, se não respirasse no que falo,

estaria já feita cinza a pena;

mas, sobre a maior dor que sofro e passo

me temperam as lágrimas dos olhos,

com que, fugindo, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;

vejo sem olhos e sem língua falo;

e juntamente passo glória e pena.

Leitura e comentário: 4m20s.

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Esta é a única sextina que tem autoria camoniana incontroversa. Assim como a vilanela, a sextina tem regras muito rígidas, que valem a pena explicitar.

A sextina é uma composição de seis estrofes de seis versos, rematadas por um terceto. A 2a estrofe deve repetir as palavras finais da 1a, mas por uma ordem determinada; as palavras finais dos 1o, 2o, 3o, 4o, 5o, e 6o versos deverão rematar, na estrofe seguinte, respectivamente, os versos 6o, 1o, 5o, 2o, 4o e 3o. Cada estrofe deve repetir este jogo em relação à estrofe imediatamente anterior, e os seis termos que constituem a chave do poema devem surgir pela ordem por que foram usados na 1a estrofe no terceto final.

(Camões. Lírica Completa – III. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2002. p. 76)

De clarificações do conteúdo este poema só precisa de uma: a palavra contino significa contínuo. No mais, é claríssimo; as dificuldades vêm da algumas inversões sintáticas que a leitura atenta é capaz de desfazer.

Uma forma tão cheia de regras levanta algumas questões interessantes. Hoje se coloca uma certa primazia da inspiração sobre tudo o mais e há uma grande desprezo pelas formas fixas. O curioso é que ao mesmo tempo boa parte da poesia contemporânea de viés, digamos, “inspiracionista”, pretende-se lúdica ou ao menos engraçadinha. Mas escrever uma sextina é um jogo; as regras são mais complicadas, demandando mais atenção e, no dizer de um bom amigo, mais fubá. O resultado do jogo da sextina não é só chegar ao final. Se você vai correr uma maratona, não pode morrer na linha de chegada; precisa continuar vivo e saudável. A sextina, como qualquer poema, precisa ter naturalidade. Não necessariamente a naturalidade da fala corrente, mas alguma outra chave de coerência, além das regras de uso das palavras finais.

É interessante pensar em como um exercício de virtuosismo como esse, que não é só um exercício de virtuosismo, recoloca a questão de como saber que um bom poema é um bom poema. Se há regras claras e você as cumpre com uma certa elegância, conseguiu escrever um bom poema? Bem, não se pode dizer que você não tem algum mérito. Esta seria uma maneira “democrática” de julgar, oposta ao elitismo romantista (não escrevi “romântico” de propósito) em que vivemos, que postula a ausência de regras e acaba transformando a apetência do crítico em critério de julgamento. Bem ou mal, o fruto da habilidade nas regras da sextina é perfeitamente objetivo e tangível. Mas, se essa habilidade pode até servir para passar num exame de qualificação, talvez não seja suficiente para fazer um poema realmente bom, que sempre tem um algo a mais que o faz ficar de pé; um sopro, como o sopro de vida que há numa pessoa e não há num boneco. O importante, porém, não deixa de ser que a melhor arte tem sempre esse algo a mais, e não a menos que o respeito pelas regras. Você, leitor, pode agora me acusar de ver a arte como uma espécie de destreza – e você terá razão de pensar que eu penso isso.

Mas, passando ao poema mesmo, impressiona como Camões conseguiu colocar nele tantos temas que lhe preocupavam, usando tantos de seus truques preferidos: o contraste entre os olhos dele e da amada, falando ora de uns, ora de outros; os contrastes entre morte e vida; a fugacidade do bem e a durabilidade do mal; e o paradoxo que é ter tudo isso ao mesmo tempo. Existe a tentação de dizer que se trata de um amontoado de clichês quinhentistas, mas a recorrência deles na obra de Camões, que passou boa parte da vida longe de Lisboa e sem dever nada ao bom gosto das gentes bonitas de seu tempo, nos faz ver que são preocupações sinceras, e há um prazer imenso – vocês já tentaram escrever um poema? – em botar ordem na casa e transformar em discurso certos pensamentos e intuições. Com regras bizarras, melhor ainda.

Mas o poema difere um tanto de outros ao falar de olhos que ainda não foram vistos. O comum é encontrar poemas que falem de amores presentes e passados; ao menos nessa época (e acho mesmo que em todas), poemas de amores não-vividos são raros, ainda mais do grande amor que ainda não veio. Mais incomum ainda é ver este poema ser escrito por um homem e não por uma mulher – estas sim as rainhas dos poemas sobre amores não-vividos – , e não qualquer homem, mas aquele que, em nosso idioma, é talvez o que transmite mais macheza naquilo que escreve.


14
out 07

Vai fermosa e não segura

Luís de Camões

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
vai fermosa e não segura.

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamelote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelos de ouro o trançado,
fita de cor de encarnado…
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
que dá graça à fermosura;
vai fermosa e não segura.

verdura – o campo verde
testo – a tampa do pote
escarlata – tecido vermelho
chamalote – fazenda de lã
vasquinha de cote – a saia de todos os dias
touca – o penteado (aqui parece mais razoável do que a acepção moderna, de “algo que cobre a cabeça”, também possível no século XVI; e, por favor, aqui “touca” é sujeito do verbo “descobre”: o penteado deixa ver a garganta, ou seja, a moça está de cabelo preso)
trançado – rede que segura os cabelos (o trançado também é sujeito de “descobre”, e “cabelos de ouro” é objeto deste verbo)

Leitura e comentário: 2m18s

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Desta vez, optei por seguir quase estritamente a grafia proposta pela edição da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, modificando apenas o acento agudo que puseram em “sainho”, porque acho que ninguém leria o “ai” como um ditongo, exatamente como não o faz em “bainha”. Não seria sensato também mudar o “fermosa” para “formosa” porque o poema já é bastante conhecido desta maneira, e meu objetivo não é filológico, mas facilitar a apreciação do poema por quem não quer ser filólogo; na semana passada, por exemplo, se eu tivesse mantido o “piadoso” no lugar do “piedoso”…

Essa edição da Imprensa Nacional, aliás, já fala de como este é um dos poemas mais celebrados de Camões. É engraçado pensar no que isso significa exatamente: para a minha geração, um poema “celebrado” é basicamente um poema que figura em antologias, ou seja, celebrado pelas poucas centenas (não estou exagerando neste número) de leitores de poesia que há no Brasil. Para a geração de meus pais, que têm entre 50 e 60 anos, um poema celebrado é um poema decorado na escola: minha mãe é capaz de recitar alguns sonetos de Camões porque num dia ancestral um professor tomou-lhe a lição. Francamente, acho isto muito melhor do que ficar discutindo. Se o pressuposto é opressão, isto é, ensinar a milhões (número em que também não exagero) coisas que eles obstinadamente não querem aprender, então botem a molecada para decorar meia dúzia de poemas e recitar. Assim eles não podem colar e ao menos terão alguma notícia da poesia. Se eu mesmo me tornar professor universitário de literatura, certamente cobrarei em provas um poema decorado.

Este poema seria um bom exercício para os alunos. Tem o mesmo número de versos que um soneto, tem ritmo bem marcado, e, aliás, sustenta-se apenas no ritmo e no suspense: o que poderia acontecer a uma moça tão bonita, tão “fermosa”, andando por aí? Literariamente, hoje só consideramos o estupro em plena luz do dia aceitável se houver um prólogo explicativo das condições extremas do local. Nas cidades, o máximo risco que uma mulher bonita e provocante sofre ao andar na rua é de ouvir assovios e gracinhas; e embora dentro de boates haja homens com clavas que lhe batem na cabeça e arrastam-na pelos cabelos, ela entra sabedora desse risco. Seriam as condições do século XVI português mais extremas do que as nossas? Ou será que Camões deseja apenas subentender algum risco realmente extraordinário? Fica o suspense.

É preciso, aliás, atribuir a extensão do suspense a Camões. Este poema, que começa na verdade em “Leva na cabeça o pote”, baseia-se, segundo a minha edição, no “mote de um cantar velho”, que são os três versos em itálico no começo do texto. Talvez neste cantar velho soubéssemos o que acontece a Leonor (ou Lianor, há mil grafias deste nome), e só fôssemos ouvi-lo pelo prazer da experiência repetida do aumento da tensão até o clímax ou anticlímax. Talvez Camões conhecesse o cantar e quisesse apenas dar sua versão, que foi a única que nos chegou.

Como sempre tenho falado das vogais, não custa observar como elas também contribuem para o suspense: supondo que no século XVI o “o” de “fermosa” fosse tão aberto quanto é hoje, o verso começa com um ditongo decrescente e abertíssimo, “vai”, a segunda sílaba, “fer”, serve de escada para o “o” que será, naquela terceira posição, o grande apoio do verso. Segue-se uma sílaba que, na palavra isolada, teria o grau mínimo de tonicidade, a postônica final. Vocês que não estudam fonética podem reparar que quando uma sílaba não tem ditongo, está no fim da palavra e vem depois da sílaba tônica, quase não é pronunciada. Carro, engarrafamento, alface. Assim, toda a discrição deste “sa” final obriga-o a fundir-se com o “e” que vem logo depois, adquirindo uma nova intensidade, que vai justamente fazer a ligadura com a grande tonicidade do “não”. O “segura” final, só contado até o “gu”, acaba tendo um esquema semelhante (não idêntico) às duas sílabas anteriores. Se atribuirmos valores às intensidades das vogais, teremos:

-sa e (1) – não (2) – se (1) – gu (3)

As vogais de valor (1), anteriores às sílabas tônicas, são fechadas, porque a elisão de “sa” e “e” vai dar “zi” (seria mais fácil falar disso usando o alfabeto fonético, mas não quero aborrecer o leitor). Aqui no Rio ? e há um certo consenso quanto à preservação de traços do português quinhentista no Rio ? falamos “sigura”, e não “segura”. Assim, à primeira vogal fechada e alta se sucede um ditongo fechado, mas cuja vogal principal é média, estabelecendo um contraste; à segunda vogal fechada e alta vem outra vogal fechada e alta, diferente apenas pelo arredondamento dos lábios, com uma sílaba reforçando a outra.

Devo dizer que por causa daquela necessidade de fundir o “sa” do “fermosa” com “e” que vem logo depois simplesmente removi a vírgula que minha edição pôs no verso final da segunda estrofe. Vírgula significa pausa, e uma pausa aqui significaria uma sílaba métrica a mais, e uma grande alteração no ritmo e portanto no efeito do suspense. Digam em voz alta “vai fermosa, e não segura”, parando após “fermosa”, para sentir a diferença.

Cabe ainda uma última palavra sobre o suspense. Ele é aumentado pela descrição da moça, mas costumo dizer, e é verdade, que uma das razões de eu não gostar de ler prosa de ficção são as descrições. Gosto de provocar meus amigos dizendo que o cinema é necessariamente superior pela economia: enquanto um livro gasta páginas e páginas descrevendo algo, um filme mostra este algo em um segundo. Claro que meu argumento é uma bobagem: dizer que o cinema é superior ao romance é como dizer que uma mousse de chocolate (ou “um mousse”, se você estiver em São Paulo, cidade que não falava português até o século XVIII, o que aliás explica a Semana de 22) é superior a um automóvel. O que interessa é que aqui a descrição é curta, é ritmada, vai direto ao ponto: temos um gostinho imaginando a moça, e logo vem a possibilidade de que algo de mau lhe aconteça. Se houvesse mais descrição do mal possível, seria um poema de horror; como há apenas a sugestão, é um belo poema de suspense, e para mim já é impossível ao menos pensar, diante de belas mulheres que se encontrem em situações de perigos frívolos ou mais graves: vai fermosa e não segura!


7
out 07

Um mover d’olhos, brando e piedoso

Luiz de Camões

Um mover d’olhos, brando e piedoso,

sem ver de quê; um riso brando e honesto,

quase forçado; um doce e humilde gesto,

de qualquer alegria duvidoso;

um despejo quieto e vergonhoso;

um repouso gravíssimo e modesto;

uma pura bondade, manifesto

indício da alma, limpo e gracioso;

um encolhido ousar, uma brandura;

um medo sem ter culpa; um ar sereno;

um longo e obediente sofrimento:

esta foi a celeste formosura

da minha Circe, e o mágico veneno

que pôde transformar meu pensamento.

Leitura e comentário: 2m15s

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Desta vez, decidi modernizar a grafia – e, em alguns casos, a pronúncia – das palavras que tinham formas quinhentistas. O “piedoso” era “piadoso” e, é claro, a “formosura” era “fermosura”. Minha edição, da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, ainda traz “ua” (com til sobre o “u”, além dos limites do teclado) no lugar de “uma”. A mudança mais sensível é a do primeiro verso, que perdeu uma de suas vogais abertas e tornou-se mais monótono, colocando ainda mais atenção sobre o “o” inicial de “olhos”, a quarta sílaba métrica e acento principal do verso. Com fins didáticos, eu deveria informar ao leitor que se trata de um verso sáfico, mas a nomenclatura métrica atinge níveis de pomposidade que não me apetecem muito.

A primeira coisa a chamar a atenção no poema é o fato de só aparecer um verbo propriamente dito no décimo segundo verso. Os infinitivos anteriores são formas nominais em todo seu esplendor, isto é, são nomes, não verbos – tanto que alguns estão até antecedidos de artigos. E dentro destes onze versos ainda notamos uma relação entre os dez primeiros e o último: aqueles trazem características que se notam de imediato, lembrando por várias razões um dos poemas mais famosos de Wordsworth, “She Was a Phantom of Delight”, e esse, “um longo e obediente sofrimento” (como esse verso ainda não virou título de nenhuma história? Poderia servir a A viuvinha, de José de Alencar, por exemplo) acrescenta um dado temporal, histórico, que coloca todas as qualidades enumeradas em outra perspectiva, aumentando a beleza moral.

Agora, curiosamente, Camões tanto disse que o “mover d’olhos” era “brando” como depois ainda mencionou – na rima – a “brandura” da mulher; decerto a repetição foi percebida. Por que a deixou assim? Certamente para rimar com “formosura”. Mas essa “formosura” era tão importante que merecesse uma redundância tão forte numa forma fixa tão curta? Sim, na medida em que Camões a utiliza para criar um clímax antes do anticlímax. Deixando de lado a questão do número de sílabas, pensemos que Camões poderia ter escrito algo como “beleza”. Ele não poderia ter escrito “encanto” para não denunciar o que vinha; preferiu “formosura” porque é justamente um modo mais “brando” da beleza.

A musa do poema, um verdadeiro modelo avant la lettre do romantismo neolatino, acaba por ser chamada de “Circe”. Ora, Circe é uma das feiticeiras mais cruéis, que transformou em porcos os homens da tripulação de Ulisses. É muito difícil saber se Camões usa Circe como mero sinônimo de “feiticeira” ou se pretende comparar-se a um porco que tenha desenvolvido os mais baixos instintos pela moça. Mas este é o tipo de ambigüidade que marca o interesse por algumas obras de arte: o confronto entre duas interpretações legítimas e perfeitamente inteligíveis, e que é o contrário absoluto da mera confusão.


30
set 07

Os bons sempre vi passar

Luís de Camões

Os bons sempre vi passar

no mundo graves tormentos;

e, para mais m’ espantar,

os maus sempre vi nadar

em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

o bem tão mal ordenado,

fui mau; mas fui castigado.

Assim que só para mim

anda o mundo concertado.

Leitura e comentário: 3m56s

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Na semana passada completei 40 domingos com poesia, e aproveito este 41o para inaugurar uma nova fase, um pouco menos desordenada. Parece-me benéfico para mim e para os leitores seguir de agora em diante algum critério, em vez de falar sobre qualquer poema que me apeteça no momento. O primeiro critério não poderia ser outro: Camões. Durante alguns domingos, fiquemos com poemas dele e apreciemos a razão de ele ser, de um certo modo, o pai literário da língua portuguesa.

Escolhi este poema, composto só de uma estrofe, por sintetizar — gostar de poesia é gostar de sínteses e compactações — perfeitamente um tema ao qual Camões sempre retorna, o “desconcerto do mundo”, isto é, o fato de os maus serem premiados pela Fortuna (lembre-se, a letra maiúscula indica a referência a um deus, uma entidade, sem querer dizer que Camões acreditasse literalmente na deusa Fortuna) e os bons preteridos por ela.

Agora, para apreciar a perfeição de uma síntese, é preciso ter tentado sintetizar alguma coisa. Para admirar a simplicidade, é preciso ter tentado ser simples. Quando você vai escrever — ou ao menos quando eu vou escrever — percebe que o comum é realizar uma de duas atividades: ou tenta verbalizar pela primeira vez (na sua biografia individual, não necessariamente na história da humanidade, claro) alguma intuição, algum sentimento, ou tenta reordenar alguma coisa que já sabe. As duas atividades têm dificuldades próprias, variáveis segundo o público que se quer atingir, as limitações do meio etc. O ideal, nas duas, é conseguir ser sintético e simples, ou conciso e claro. “Brevity is the soul of wit”, diz Polonius em Hamlet.

(“Wit” é uma palavra difícil de traduzir. Prefiro “espírito”, cujo uso era comum em português, de onde se derivou “espirituoso”: “a concisão é a alma do espírito” nos dá um paradoxo interessante, mas que chama a atenção demais, desviando-a do que a frase quer dizer. “Graça” é uma boa tradução, mas nem tudo que tem “wit” é necessariamente engraçado. Lawrence Flores, em sua tradução histórica de Hamlet, a ser publicada ainda este ano, optou por “a concisão é a alma da argúcia”, que é uma excelente saída.)

Agora, ser conciso e claro em sete sílabas métricas, com rimas, já é um trabalho de outro nível. Nosso gosto poético se tornou muito afeito ao simbolismo, aceitando muita obscuridade em nome de uma certa beleza sonora. A semente do mal ali contido germinou plenamente e, para que não digam que é só opinião minha, Ferreira Gullar já me disse pessoalmente que a maior parte dos poemas que hoje se escrevem são ininteligíveis. A beleza que vem da exposição claríssima de uma idéia parece nos ofuscar; aliás, há muito é comum ver a rejeição de obras em que tudo conspire para a clareza.

Antes que me acusem de estar querendo uma arte que só proponha teses, devo lembrar que normalmente quem insiste que a arte não deve propor teses normalmente quer dizer que a arte não deve propor certas teses que desagradam a si; e que certas obras de arte são mais afeitas à proposição de teses do que outras. Um poema curto se presta muito bem a isso. Uma obra dramatúrgica se presta muito mal. A razão é que, com toda justiça, não achamos ruim que alguém tente nos convencer de algo se ficar claro que esta é sua intenção, mas detestamos que nos tentem convencer de algo sorrateiramente. Por isso a clareza na obra dramatúrgica é de outra ordem. O príncipe Hamlet é claríssimo enquanto personagem, enquanto imitação de pessoa, não enquanto idéia. Por acaso, este poema de Camões é claro enquanto idéia: há um desconcerto no mundo, exceto para ele, em função das razões expostas.

Somos movidos pelo ritmo e pelas rimas, mas uma tese de fácil inteligibilidade também tem poder de comoção. “Os bonzinhos só se ferram, os maus só se dão bem.” É isso que Camões está dizendo. A reação é imediata. Pode-se ter um mal-estar por perceber aí a denúncia de alguma estrutura perversa da qual o leitor se beneficia: por exemplo, acho que ninguém vai negar que a exigência de diploma para o exercício de certas profissões há de ter aniquilado vocações e vidas. E certamente há quem saiba que ocupa um lugar de fato, mas não de direito. Defender o establishment é defender a própria subsistência. Também é possível colocar-se do lado dos injustiçados e ter simpatia instantânea pelo que o poema diz. Mas também se pode ir ainda além, e ser comovido pela identificação com Camões, por saber que nem na maldade foi obtida a recompensa esperada.

É inevitável aqui trazer o tema da crença na vida eterna. Se seguirmos uma linha formalista e quisermos absolutizar o poema, veremos que ele se encerra na imanência deste mundo, que há uma ordem cósmica da qual Camões foi apartado. Mas o poema que se segue a este na minha edição da poesia completa termina dizendo que “Os que nunca trabalharam / (…) / perderão o eterno bem, / se do mal não se apartaram.” Portanto, fora do contexto da obra, o poema tem uma interpretação; no contexto, outra. O que é suficiente, é claro, para agradar aos sofredores deste mundo das mais variadas inclinações.

Só não devemos esquecer que um poema, não importando a sua linha de análise, é um objeto produzido por um ser humano real; e, se me é permitido um certo psicologismo, este poema parece ter uma certa ironia resignada: vejo Camões escrevendo-o para divertir a si e a seus amigos, quase de uma só tacada. Não digo isso gratuitamente: há muitos poemas com o mesmo tema, mostrando que Camões sempre pensava no assunto; a palavra que usa para terminá-lo, “concertado”, tem a mesma raiz da palavra que termina a famosa (um de meus poemas favoritos pelo ritmo) oitava do desconcerto do mundo, que diz: “ver e notar do mundo o desconcerto”, isto é, Camões não só pensava sempre no assunto como pensava usando esta palavra; e a rima de “tormentos” e “contentamentos” é, na poesia do século XVI, de uma banalidade que não denuncia outra coisa que a facilidade mesma.


23
set 07

O rio

Manuel Bandeira, Estrela da vida inteira.

Ser como o rio que deflui
silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las.

E se os céus se pejam de nuvens,
como o rio as nuvens são água,
refleti-las também sem mágoa,
nas profundidades tranqüilas.

Leitura e comentário: 1m40s

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Estrela da vida inteira

Este é um dos poemas de Bandeira que mais se encontra pela web, certamente por ter um certo tom de “palavras de sabedoria” bastante ao gosto popular. Aliás, o mesmo gosto que atribui os textos mais bregas a William Shakespeare, Machado de Assis e Fernando Pessoa. É interessante, de um ponto de vista antropológico, considerar que muitas pessoas acham que estes três são “grandes escritores” por terem supostamente revelado à humanidade que as melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos. Talvez os gerentes do mundo pensem que, se Shakespeare estivesse vivo, estaria ensinando os atores de sua companhia a otimizar processos, agregar valor e, conhecimento iniciático de grau 33, usar filtro solar. Não sem deixar de lembrar que sua força interior ajudará a superar todos os problemas e que, mesmo que alguém tenha mexido no seu queijo, amanhã será um novo dia, em que o sol voltará a brilhar.

Mas o fato de o poema aparecer em sites que têm scripts estrelinhas brilhantes não nos deve impedir de apreciá-lo. Primeiro, ele não traz “palavras de sabedoria” no sentido do parágrafo anterior. Seu tema é o velho anseio das almas que muito refletiram (e se cansaram, como é natural) por simplesmente ser, por tornar-se, na expressão de Bruno Tolentino, uma “coisa que não pensa”, como o rio que simplesmente corre. Este desejo não é um objetivo, mas antes uma nostalgia da inconsciência, da espontaneidade, pois é muito fácil dizer que “a vida não-examinada não vale a pena ser vivida” mas é muito difícil ficar examinando sem parar. Vida e reflexão parecem opostas; eu ia escrever que parecem atividades opostas, mas a reflexão parece o contrário da atividade. Ao refletir somos obrigados a sentir a provisoriedade e da incompletude. Até a minha mesa parece mais completa e duradoura. É a sensação de Fernando Pessoa, em “Tabacaria”, dizendo à menina que havia mais metafísica nos chocolates dela do que em ficar pensando em metafísica.

Mas se este tema é recorrente, e se Fernando Pessoa já tocou neste seu assunto de estimação inúmeras vezes, de várias maneiras, o que este poema de Bandeira tem de especial? O casamento entre o som e a imagem do rio que corre.

O poema se baseia nos dois primeiros versos. Os demais apenas analisam a imagem ali proposta. No primeiro, “Ser como o rio que deflui”, temos três vogais médias (ê, ô, ê) em posições tonicamente importantes. “Ser como o” é um pé trissílabo com duas delas. Eu sei que “ser” é um monossílabo tônico. Mas aqui é pronunciado como uma sílaba forte pretônica do grupo inteiro (ver os “grupos de força” de Mattoso Câmara Jr., uma de minhas teorias prosódicas favoritas), abrindo alas para a segunda vogal média. As duas se reforçam mutuamente. Algo semelhante vale para o pé trissílabo final, “que deflui”: o “de” antes da sílaba tônica final tem intensidade considerável, maior que o “que” (pronunciado no Rio como “qui”), anterior. O ditongo final, antecedido pela consoante líquida, arremata a fluidez, a impressão do rio corrente. Mas esta impressão também foi sutilmente marcada pela aliteração do “r” final de “ser” com o “r” inicial de “rio”, para os cariocas. As vogais médias ecoam-se e ligam as pontas, e os “i”, altos, também. Ainda é preciso considerar, para entender bem o verso, a ausência de vírgula. Freqüentemente é preciso olhar para algo que não está presente para entender o que está presente… Aqui, Bandeira não disse “Ser como o rio, que deflui”, pois tudo seria diferente. A impressão da fluidez do rio desapareceria. A vírgula transforma a oração adjetiva de restritiva em explicativa: ser como um rio aí, que deflui etc. Mesmo com o artigo definido o efeito é de indefinição; não se apeguem demais à nomenclatura gramatical, por favor. Com a vírgula, enumera-se uma propriedade do rio. Sem a vírgula, enfatiza-se uma propriedade daquele rio em particular, que “deflui / silencioso dentro da noite”.

No segundo verso podemos fazer uma análise semelhante das vogais: alternância de médias (ê, ô) com a alta “i” (a vogal ao fim de “dentro” é baixa, mas mais complexa) e ditongo na última sílaba tônica. Mas precisamos observar que “silencioso”, logo após um verbo, parece um advérbio. Admitimos que alguns adjetivos que tenham forma adverbial sejam usados como advérbios na forma de adjetivos, como rápido e rapidamente. Se digo “ele corre rápido”, ninguém dirá que “rápido” é adjetivo. Esperaríamos que o rio corresse “silenciosamente” porque não costumamos usar “silencioso” como um advérbio, mas a pausa do fim do verso anterior, que coincidiu com um verbo intransitivo, nos deu a sensação de que algo tinha terminado e com isso surgiu a famosa licença poética, em nome da qual se comete tanta vigarice, para transformar o adjetivo em advérbio, remetendo-nos mais ao rio que ao defluir.

O resto do poema repete a estrutura destes dois versos e a expande; o leitor pode fazer por si sua análise. As rimas dos versos 4 e 8 relembram as vogais altas posicionadas ao início e ao fim daqueles primeiros, por exemplo. E, em termos de imagens, Bandeira está apenas mostrando o que significa “ser como o rio que deflui / silencioso dentro da noite”: refletir as mágoas que são água como o rio e as nuvens.

Há só um detalhe de simbolismo natural que este velho estudante de astrologia não poderia deixar passar, e que pode escapar a quem não tenha lido nada a respeito. As mágoas de que Bandeira fala são simbolizadas pela água salgada – as emoções. O rio, que é de água doce, a única que se pode beber, é o símbolo natural da razão, que é o que distingue o homem enquanto homem. As nuvens, que estão no céu, podem ser fruto da condensação da água salgada, mas o sal não se condensa, e a água da chuva é doce. Mas podemos admitir que as nuvens, com sua possível agitação antes de virar chuva, sejam um estado intermediário entre a água potável da razão e a água salgada das emoções. Daí que seja bonito que Bandeira fale em refletir as nuvens, identificando-se com elas, emoções em transformação, mas não completamente – é preciso depurá-las.


16
set 07

Cães a ladrar, que o caçador atiça

Dante Alighieri / Tradução de Jorge Wanderley

Sonar bracchetti, e cacciatori aizzare…

Cães a ladrar, que o caçador atiça,

lebres largando, todo mundo aos gritos,

e o galgo que à coleira vai restrito

e escapa e por declives se encarniça,

são alegria, creio, que enfeitiça

o coração que é livre e sem conflito!

Mas eu, pensando amores, vou conscrito

de um amor recusado na injustiça

e ouvindo o que ele diz só para mim:

“Um coração gentil não se aventura

em caça e jogos selvagens assim,

faltando a damas de tal formosura!”

Temendo então que Amor saiba meu fim,

sinto vergonha, caio na amargura.

Leitura e comentário: 3m15s

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Lírica

Talvez este seja meu poema favorito da edição bilíngüe da Lírica de Dante feita por Jorge Wanderley para a Topbooks. Ao menos é o que primeiro me chamou a atenção, o que me fez ter vontade de saber italiano, isto nos idos de 1996 ou 1997. “Sonar bracchetti, e cacciatori aizzare…” Ainda hoje repito versos em línguas que não entendo muito bem (como sobretudo o alemão) apenas por apreciar sua sonoridade. E uma das virtudes da tradução de Jorge Wanderley para este poema foi ter conseguido manter os dois momentos musicais do poema, fundamentais para que ele faça sentido.

Os seis primeiros versos vão num crescendo até explodir na exclamação. Nos quatro primeiros, vai aumentando a agilidade: é insinuada no latir dos cães atiçados, apontada nas lebres que largam, e plenamente manifestada na imagem do galgo (um cão comprido) desembestado. Do primeiro para o segundo quarteto há uma suspensão natural; no início deste, vem a explicação para tanta agilidade, transferindo a força da imagem para um outro plano. O “coração que é livre e sem conflito” já transmite a idéia da pura felicidade, e acho que ninguém se espantaria se Dante pulasse da página, Florença se materializasse subitamente e Beatrice Portinari começasse a cantar “I’ve got rhythm, I’ve got music…”

Então vem o segundo momento do poema, começando justamente com um “mas”, cortando todo o clima. O que contrasta com o clima do alegre coração é, surpreendentemente, os pensamentos amorosos. Aliás, costumo abominar o uso transitivo direto do verbo “pensar”, que me parece um vício acadêmico – exatamente como “(re)ver”, por exemplo. Aqui, no entanto, a abolição da preposição, além de resolver uma questão métrica, ajuda até a clarear o sentido: se Jorge Wanderley tivesse optado por “pensando em amores”, talvez o leitor pensasse que seu Dante está partindo corações pela cidade de Florença. Nada mais distante: na verdade, todo este espalhafato não convém a um amador (evito a palavra “amante” propositalmente por causa de sua ambigüidade), como lembra o amor recusado. E no fim aparece o Amor com maiúscula, ou seja, Cupido, que na Idade Média ganhou esta nova versão. Se pensarmos nas tolices e loucuras (e estupros) a que Eros ou Cupido levaram os pagãos de antigamente, este Amor que não permite nem mesmo uma certa alegria espalhafatosa parece bizarramente ascético. Não necessariamente por causa do Cristianismo, neste caso. Há muita suspeita de que Dante tenha herdado idéias dos cátaros, que desprezavam a carne em favor do espírito e, à maneira hindu, da libertação deste mundo sublunar de geração e corrupção.

No fim, como talvez seja tão possível mostrar que Dante é um cátaro herege quanto um cristão exemplar, não vale muita a pena especular a respeito disto. Mas é possível admirar a coerência entre dois momentos do poema, com coincidência perfeita entre idéias e ritmo, e ainda se defrontar com a questão: é possível transformar a visão de Eros proposta por Dante numa disciplina espiritual?


9
set 07

A uma feíssima

Pero de Andrade Caminha (152?-1589)

Feia se falas és, feia calada,
ouvindo feia, feia respondendo,
feia branda pareces, feia irada,
negando feia, feia prometendo,
feia toucada, feia destoucada,
com frio feia, feia em calma ardendo,
feia contente, feia descontente,
em tudo sempre feia a toda a gente.

branda = calma (adjetivo)
toucada / destoucada = com o cabelo arrumado / desarrumado
calma (substantivo) = calor

Leitura e comentário: 2m02s

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Antologia da poesia portuguesa

Depois de falar de poemas densos, é bom relaxar um pouco e trazer um poema levíssimo, engraçadíssimo e, dependendo da sua auto-estima, antipaticíssimo. Afinal, a feiúra é quase um tabu. Confesso que, ainda que admita que ela possa ser muito atenuada, sobretudo na juventude, não sei se chega a ter cura. Ela é, de certo modo, a prova do pecado original. Aliás, no caso da antimusa de Pero de Andrade Caminha, era até uma prova viva e abundante.

Mas Caminha não optou por estas considerações teológicas ao fazer seu poema, cuja graça se baseia em apenas dois elementos: a observação de que a feiúra resiste aos estados contrários e as rimas. Desde o modernismo brasileiro há quem tente criar o subgênero do “poema-piada”, cujo erro está justamente em querer definir-se antes mesmo de existir. A idéia de “poema-piada” não tem graça, é óbvio. E, raios, desde que há poesia há quem faça piada em versos; um dia rirão da infinita ingenuidade dos projetistas de poemas do século XX.

Meu exemplo aqui é do século XVI, mas há as cantigas de escárnio e mal-dizer, que são mais antigas… O poema de Caminha, portanto, já era “leve” ou “ligeiro” naturalmente, bem antes de haver um projeto de criar uma poesia anti-solene, baseada exclusivamente numa visão tosca, caipira e ignorante da história da poesia.

Até agora, a melhor definição de “poesia ligeira” foi dada por W. H. Auden na antologia de light verse (ou seja, “poesia ligeira”) que organizou para a editora da Universidade de Oxford, a qual, no entanto, não a apreciou muito.

W. H. Auden’s Book of Light Verse

Quando as coisas pelas quais o poeta se interessa, as coisas que vê à sua volta, são basicamente as mesmas que a sua platéia vê, e esta platéia é bastante geral, ele não terá consciência de si como alguém peculiar, e sua linguagem será direta e próxima da linguagem comum. Quando, por outro lado, seus interesses e percepções não são imediatamente assimiláveis pela sociedade, ou sua platéia é altamente especializada, talvez composta de outros poetas, ele terá uma aguda consciência de si como poeta, e seu método de expressão pode distar muito do uso social habitual da linguagem.

No primeiro caso, sua poesia será “ligeira” no sentido usado nesta antologia…

W. H. Auden’s Book of Light Verse, p. xxiii

O poema de Caminha trata de algo que todos podem ver: a feiúra de uma senhora. Enquanto a beleza pode até ser matéria de disputa, normalmente a feiúra é um ponto pacífico entre aqueles que a julgam. A linguagem que usa, o português culto do século XVI, era adequadíssima ao ambiente cortesão que freqüentava – o que mostra, aproveitando a definição de Auden, que pode até haver uma poesia ligeira um pouco mais restrita, ainda que não necessariamente “difícil”. Um poema pode se referir a um determinado meio – um círculo de amigos, de profissionais – e ser imediatamente entendido por eles. O poema “difícil”, digamos assim, será aquele que exige mais atenção, que não é assimilado de primeira, ainda que tenha algum impacto. Yeats, por exemplo, tem um universo de referências bastante particular: o pássaro de Bizâncio, o imperador, a torre etc. e inúmeros nomes de militantes políticos seus amigos. Depois que você pega as referências e se acostuma com elas, torna-se um leitor muito melhor de Yeats; mas, como nenhuma delas é obrigatória (é preciso admitir que os personagens das revoltas irlandesas não têm, fora da Irlanda, o mesmo peso que os personagens da antigüidade clássica), nem faz parte do senso comum, praticamente ninguém assimila os poemas de Yeats de uma só vez. Não é o caso aqui: feias há, todos as conhecem, e, ainda que seja preciso explicar três palavrinhas do vocabulário, já temos vontade de decorar o poema para recitá-lo para os amigos e dar uma boa risada.


2
set 07

Uma arte

Elizabeth Bishop. Tradução de Paulo Henriques Britto. O iceberg imaginário e outros poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 309

A arte de perder não é nenhum mistério;

tantas coisas contêm em si o acidente

de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,

a chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:

lugares, nomes, a escala subseqüente

da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império

que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo

que eu amo) não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser mistério

por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Leitura e comentário: 4m41s

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O iceberg imaginário

One Art é um dos poemas mais conhecidos da língua inglesa, e uma busca no Google mostra que esta tradução de Paulo Henriques Britto já vem se tornando um dos poemas mais amados também da língua portuguesa. Os dois poemas, original e tradução, são perfeitas obras de gênio: o primeiro, por vivificar a tediosa forma fixa da vilanela, o segundo, por recuperar tão bem o texto original em português que parece uma tradução definitiva. Mesmo a observação de que a rima “ero / ério” não é perfeita parece um tanto filistina diante das outras conquistas, como o uso da expressão “não é nenhum mistério” para “not hard to master”.

O poema já tem praticamente uma interpretação oficial, talvez um tanto zen, que estabelece que Bishop fala de como perder é necessário e menos difícil do que parece. Daí se segue o de sempre: é preciso deixar as velhas formas para ganhar novas, é preciso abandonar o conhecido para aventurar-se pelo desconhecido. Afinal, o poema segue até o esquema de uma lição, começando com uma afirmação geral e seguindo com exemplos cada vez mais sérios — a chave, a hora, a viagem, o relógio da mamãe, as casas, as cidades, o continente, a pessoa amada (ou amiga), como numa escala iniciática. Ao final, a afirmação de algo que estava implícito na existência mesma do poema: perder pode parecer algo “muito sério”, pois, se não parecesse, não seria preciso explicar o contrário. Já dizia Aristóteles que a finalidade da retórica era defender a verdade…

No entanto, Bishop é uma verdadeira mestra, e não explicitaria algo tão óbvio se não quisesse dizer outra coisa. Em vez de ser lido como grande apologia zen da arte de se tornar mais leve, talvez o poema mereça ser lido como uma grande ironia: aprender a perder as coisas não é fácil coisa nenhuma.

Do ponto de vista de alguém inseguro — e uma certa insegurança parece tão normal que chega até a ser recomendável — todas as coisas aparentemente “contêm em si o acidente de perdê-las” ou, no original um pouco mais enfático, estão repletas da intenção de ser perdidas. Já olhamos as coisas sabendo que elas se vão, e que não há muito que se possa fazer. Perdemos a chave, e mais ainda perdemos “a hora gasta bestamente”, como em todas as vezes que decidimos fazer algo e nos dispersamos. Não é fácil aceitar esta perda. Prometemos que na hora seguinte será diferente — e quase nunca é. “A arte de perder não é nenhum mistério”: o fato da perda vem inapelavelmente. Vá-se resignando. Depois perca mais, a memória, o que é importante para as pessoas que você ama. Perca ainda aquilo que você considera mais estável — sua casa, sua cidade, o continente inteiro. Pense até — Bishop não deve ter pensado na hora de escrever este poema, isto é por minha conta — em como Ulisses pensou ter perdido tudo isto. Não foi nada fácil. Ele continuou tentando voltar para Ítaca. Mas não perdeu Penélope. Talvez não tivesse sobrevivido bem a tantas perdas, se elas tivessem mesmo acontecido (o adiamento extremo parece uma perda). Bishop admite: perdemos até o que não imaginávamos jamais perder, e no entanto somos capazes de lidar até com isto. Não por sermos nobres e grandes. Mas porque não há nada a fazer. Não há mistério: as coisas se vão, você irá perdê-las, é simples assim. Até mesmo, como na última estrofe, seu amor, ou seu amigo (há uma ambigüidade) será perdido. Na hora isto vai parecer “muito sério” — e, francamente, será mesmo. Se não fosse, não seria preciso escrever um poema de consolação.

Se não fosse, aliás, o próprio Jesus Cristo não teria insistido no assunto, recomendando que se perdesse a vida (ou a alma) para então ganhá-la. Elizabeth Bishop não está falando em perder algo para ganhar outra coisa melhor ainda; não está falando de um troca, mas só da perda. Não parece que ela tenha tido a expectativa de ganhar nada, exceto, talvez, a capacidade de escrever um pouco melhor; e, mesmo assim, talvez trocasse de bom grado essa capacidade por todas as coisas que perdeu.


26
ago 07

O aplauso dos homens

Hölderlin / Tradução de Manuel Bandeira

Não trago o coração mais puro e belo e vivo

desde que amo? Por que me afeiçoáveis mais

quando era altivo e rude,

palavroso e vazio?

Ah! Só agrada à turba o tumulto das feiras;

dobra-se humilde o servo ao áspero e violento.

Só crêem no divino

os que o trazem em si.

Leitura e comentário: 1m53s

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Ensaios Reunidos - I

Em seu ensaio A mensagem de Hölderlin, Otto Maria Carpeaux aponta para um detalhe do original alemão que a ademais excelente tradução de Manuel Bandeira não teria captado perfeitamente: que os versos finais apontam a identidade entre “o divino” e aqueles que “o trazem em si”: die es selber sind, para quem sabe alemão. Eu só sei Ich möchte die Schokoladetorte.

Feita esta ressalva, faço outra: não pretendo discutir o lugar deste poema na obra de Hölderlin, que conheço muito superficialmente. Interessam-me diretamente o assunto e a forma, que seguem o modelo clássico, sob certo aspecto didático. O poema propõe claramente uma tese. Não me parece sensato dizer que o poema deve ou não deve propor teses; parece simplesmente que alguns poemas as propõem, e outros não, e cada um merece ser discutido segundo seus méritos. Porém, um dos riscos mais evidentes de quem vai propor teses de modo tão descarado é o de ser rejeitado pelo público que não concorde com elas, o que, aliás, me parece inteiramente legítimo. Admitir que um autor tem o domínio da sua arte mas não gostar de suas obras é a mesma coisa que admitir que uma cozinheira é prendada e não querer comer os alimentos de que não se gosta. Eu mesmo não comeria feijão preparado por ninguém…

Alguns poemas traduzidos

Assim, a tese de Hölderlin, de que só quem traz o divino em si crê nele, ainda que tenha formulação ambígua, permite uma interpretação clara. O verbo “crer” é usado no sentido de “aceitar” ou “perceber” (que pode, aliás, ser o contrário de crer…), e o sentido daqueles versos finais guarda a mesma relação que existe entre os termos da tese aristotélica de que só é possível ensinar moral a quem tem boa índole. Faz-se uma distinção entre os homens. Mas Hölderlin começa distingüindo também dois momentos, quando ama e quando não amava. Neste, estava de bem com a “turba” que gosta de tumulto e vacuidades. Agora que se tornou uma pessoa melhor, não mais. Parece uma experiência comum, de fácil identificação. Quem, ao olhar para a própria vida interior, não se sente distinto do grosso dos homens? Quem não julga ter ao menos uma qualidade em grau excepcional que não seja reconhecida? Quem, nesta época de permamente adolescência, não sente que algo justifica olhar para seus semelhantes como seres inferiores? A atribuição de inferioridade, aliás, é confirmada pelo verso “dobra-se humilde o servo ao áspero e violento”. É verdade, admito. Mas também admito que hoje em dia tendo a suspeitar muito mais de quem suspeita de tanta gente mas nunca de si mesmo.

Existe, enfim, um aparente paradoxo. Aqueles que lutam pelo refinamento integral da alma, ou que passaram por certas experiências interiores incomuns, podem sentir-se distintos, especiais. Mas não será o discurso que justifica esta atitude justamente o mais banal de todos? Quem prefere humilhar-se? Quem, num princípio de ascese do gosto, aceitaria reconhecer a sua própria vulgaridade, sem no entanto enxergá-la como um dado essencial, e sim como um obstáculo?

Retomando o que disse no início, posso ter sérios problemas com a atitude de Hölderlin, com sua falta de suspeita contra si. Mas não tenho como deixar de admirar o fato de toda uma atitude estar perfeitamente sintetizada. Uma provável experiência autêntica do sublime, mesclada a um desprezo autêntico e a uma comovente ingenuidade.


22
ago 07

Bruno Tolentino, vencedor do Jabuti de poesia

Nesta terça, liga-me cedo o Martim para dizer que assistira à apuração dos votos do Prêmio Jabuti e que Bruno Tolentino ganhou o de poesia. Mas como, segundo as regras da Câmara Brasileira do Livro, autor falecido ganha mas não leva, o primeiro lugar foi transformado em homenagem póstuma.

Na segunda tivemos uma bela homenagem a Bruno Tolentino aqui no Rio, na livraria DaConde. Para quem não pôde ir, eis-me aí recitando o que recitei naquela noite.

Pedro lendo Bruno Tolentino

Leitura de “E lhe cantei então este acalanto”: 3m04s

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19
ago 07

Segundo / O das quinas

Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira parte, I: Os Brasões

Os deuses vendem quando dão.

Compra-se a glória com a desgraça.

Ai dos felizes, porque são

só o que passa!

Baste a quem baste o que lhe basta

o bastante de lhe bastar!

A vida é breve, a alma é vasta:

ter é tardar.

Foi com desgraça e com vileza

que Deus ao Christo definiu:

assim o oppoz à Natureza

e Filho o ungiu.

Leitura e comentário: 2m02s

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Lamento nunca ter lido nenhum ensaio sobre Mensagem, que é, de longe, minha obra favorita de Fernando Pessoa. Se a melhor poesia é muitas vezes definida pela pressão que múltiplos significados exercem sobre o mínimo de palavras, cá estamos diante de um exemplo perfeito. Isto equivale, aliás, a dar a poesia um caráter simbólico no sentido de Susanne K. Langer, que define o símbolo como “matriz de intelecções”, isto é, como gerador de significados unívocos simultâneos. Assim, a diferença entre um texto denso e simbólico e um texto confuso é que o primeiro permite diversas interpretações perfeitamente claras, ainda que contraditórias entre si, e o segundo não permite nenhuma interpretação.

O que gera pressão em Mensagem, e lhe dá sua qualidade simbólica, é o embate entre duas visões de mundo. Uma pagã, esotérica, e outra cristã, sugerida inevitavelmente pelo tema da história de Portugal. Vejamos o que diz o próprio Pessoa no curto prefácio ao livro, que fala das qualidades necessárias ao entendimento dos símbolos:

A quinta é menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.

Antes que alguém venha falar da separação entre autor e obra — defendida radicalmente por meu quase-guru W. H. Auden, a quem não sigo neste ponto — , preciso observar que este é o único livro publicado integralmente por Fernando Pessoa em vida e assinado por ele mesmo, e que, como há de ser óbvio, toda obra é escrita por um autor. A obra não é necessariamente um mero prolongamento da sua vida ou de suas crenças graças à atividade livre do intelecto que a compõe; mas este mesmo intelecto existe dentro de uma alma, que está dentro de um corpo, e os dois têm suas circunstâncias. Há, portanto, um embate entre elementos conscientes e inconscientes, livres e necessários, e isto também gera “pressão poética”, na falta de outro termo.

Em Mensagem parte da pressão vem de duas idéias inconciliáveis que Fernando Pessoa pretende sinceramente conciliar, não de um embate com o meio. Pessoa considera, como vemos naquele trecho, que a graça cristã equivale à mão do “Superior Incógnito”. Muitas são as tentativas de fazer do Cristianismo uma espécie de roupagem de uma verdade esotérica, de transformar a doutrina explícita em mero véu de uma doutrina implícita mais verdadeira; mas o próprio fato de o véu do templo de Jerusalém ter-se rasgado quando Cristo morreu já repele o uso destas categorias. Não há esoterismo cristão. Podem ter havido ordens com ritos próprios e secretos, mas nenhuma delas jamais pôde pensar-se mais cristã do que o resto da Igreja, ou detentora de algo mais puro.

Ainda em termos de “pressão”, a primeira estrofe do poema é um excelente resumo do paganismo clássico: “os deuses vendem quando dão”, isto é, não dão nada de graça. Tudo tem um contraponto, algo que deve ser dado em troca. Nem mesmo os próprios deuses escapavam desta lei. Hades raptou Perséfone, e sua mãe, Ceres, só conseguiu um acordo com Zeus: metade do ano ficaria com ela, a outra metade com o seqüestrador. Aquiles literalmente comprou a glória com sua morte: sabendo que morreria em Tróia, preferiu ser cantado para sempre e morrer jovem a viver mais. Nem os poderes de sua mãe Tétis puderam salvá-lo: “compra-se a glória com a desgraça”. Ou, como diz o salmista, “os deuses dos pagãos são demônios”. No pacto com o demônio, no mundo cristão, o ser humano sempre oferta sua alma. Se você olhar bem, verá que no mundo pagão não era muito diferente. Um ato de legítima defesa custa a Édipo literalmente os olhos da cara e muito mais. Um ato de bondade de sua filha Antígona termina de destruir a família. Não se pode ser bom gratuitamente. É preciso sempre compactuar. Toma lá, dá cá. Mas cá estou eu, falando daqueles gregos, e aí está você, lendo: “Ai dos felizes, porque são / só o que passa!” Não é uma visão muito diferente daquela que Yeats expôs em The Choice.

Os dois primeiros versos da segunda estrofe retomam um dos temas mais fortes de Fernando Pessoa, ortônimo e heterônimos: a distância que há entre pensar, refletir, e portanto perceber uma ausência, uma separação, uma insuficiência, e ser de modo espontâneo, oblivious, despreocupado. É a menina que come chocolates em Tabacaria, aqueles chocolates cheios de “metafísica”. Se algo basta, não há reflexão sobre a experiência. Em muitos sentidos, é isto que muitos procuramos conscientemente: uma experiência bastante, que a atividade intelectual não consiga exaurir. Todas as pessoas que parecem contentes com o que contém tornam-se símbolos disto. Mas logo depois Pessoa afirma a equivalência de extensão entre o mundo, que é grande, e a alma, que é vasta. “Ter é tardar”: prender-se a uma experiência é perder todas as outras. Mas prender-se a uma experiência é também definir-se, delimitar-se, e assim estabelecer uma história. Tentar ter todas é indefinir-se, perder-se, e eu mesmo consigo compreender a terrível ansiedade gerada por esta perda… Ainda mais se consideramos a visão pagã, ou o que vigora num mundo regido por deuses: se não há um Bem infinito, ao menos há uma quantidade indefinida de bens que são, para quem tem a alma vasta, um prêmio de necessária consolação, e que sempre são comprados com a desgraça. Os deuses dos pagãos são demônios. Ter é tardar.

A terceira estrofe serve para marcar a opinião de Pessoa sobre o Cristianismo. Terá sido o Cristo definido por Deus Pai (Pessoa admite um Deus Pai ao chamar Cristo de Filho com maiúscula) pela desgraça e pela vileza? Será o Deus cristão um daqueles deuses só aceitam a desgraça por moeda? Mais ainda, é Cristo oposto à Natureza, e que “Natureza” é esta com “N” maiúsculo? A própria natureza dos deuses? A natureza como algo distinto de Deus, no sentido de “mundo” ou “cosmos”? Nenhuma destas perguntas sugere imediatamente uma resposta compatível com a doutrina cristã. Para Pessoa, Cristo é um símbolo como outro; a ação de Deus, a graça, também pode ser a ordem do “Superior Incógnito”. A natureza humana é danada, ter é tardar, compra-se a glória com a desgraça, e o próprio Cristo teria pago com ela a sua “glória” no sentido pagão, que é o fato de dois mil anos depois ainda estarmos falando n’Ele, que ainda motivou fatos importantes da história de Portugal, como a vitória da batalha de Ourique e a derrocada em Alcácer-Quibir.

Este parece, enfim, o mesmo Fernando Pessoa que muitos anos antes de Mensagem escreveu o soneto Súbita mão de algum fantasma oculto…