PERDÃO E REDENÇÃO
La Veuve de St. Pierre

12/10/00

No mais recente filme de Patrice Leconte (do engraçadíssimo Ridicule), o ótimo cineasta Emir Kusturica faz sua estréia como ator intepretando um sujeito que, bêbado, matou um indefeso cidadão da ilha de St. Pierre, e foi condenado à morte por seu crime. Como a cidade não tem guilhotina - o único método que a República admitia - ela tem de ser trazida de uma cidade próxima, e ele fica sob a custódia do oficial do local, interpretado por Daniel Auteuil, e de sua esposa, Juliette Binoche (numa caracterização esplêndida).

Mas a mulher não gosta de ver o condenado isolado em sua cela, e resolve dar-lhe várias responsabilidades, como ajudá-la a cuidar das flores, a consertar telhados de casas da cidade, a limpar as ruas. Com o tempo, o rapaz, antes odiado, se torna uma espécie de herói local, e surge um forte sentimento popular contra a sua execução, para desgosto dos administradores locais.

À primeira vista, o filme levanta a seguinte questão política: se a população desaprova enfaticamente uma medida penal, ela ainda assim deve ser tomada?

Parece ser, portanto, um apelo à "democratização" do sistema judiciário. Não preciso nem dizer que tal apelo seria absurdo. Como bem demonstrou Olavo de Carvalho no artigo A metonímia democrática, a democracia só subsiste se for confinada ao sistema político, porque os demais aspectos da sociedade se organizam segundo uma hierarquia de valores, que não pode estar sujeita ao arbítrio popular. Em outras palavras: mesmo que toda a população de um lugar aprove o homicídio e o roubo, se essa sociedade quiser manter-se intacta, continuará tendo de interditá-los.

Poderíamos também interpretar o filme como uma crítica à pena de morte, à brutalidade da morte imposta pelo Estado.

Parece-me, no entanto, que precisamos ir um pouco além, e notar a oposição central do filme: de um lado, a burocracia local, pronta a afirmar os ideiais da revolução francesa, pronta a resguardar a lei e a ordem, e com mais preocupação com a sua imagem pública do que com a justiça de seus atos; de outro, o personagem de Auteuil e sua esposa, que buscaram restaurar a dignidade do prisioneiro, reinseri-lo na sociedade, fazê-lo redimir-se de seu crime. No centro dessa oposição está o próprio prisioneiro, e ele, à medida que vai trabalhando com a esposa de Auteuil, passa de um bêbado inconseqüente a um trabalhador responsável, preocupado com os problemas da comunidade, e acaba até se casando com uma mulher cujo telhado consertara e, assim, virando um pai de família.

Dessa observação, já é possível passar para uma análise mais sutil, e dizer-se que o filme confronta duas visões da justiça penal: a pena é aplicada sobre o condenado como uma vingança da sociedade contra ele, ou como uma forma de ressocializá-lo (neste último caso, evidentemente, a pena de morte teria de ser excluída)?

Acho essa discussão meio ociosa, primeiro porque ainda não se inventou um meio eficaz de ressocializar um criminoso, segundo porque alguns criminosos simplesmente não podem ser ressocializados; a pena tem um aspecto evidente e nem um pouco nobre de "organização da vingança", aspecto que o antropólogo René Girard explicou brilhantemente no seu A violência e o sagrado, e ao mesmo tempo tem um aspecto - este sim importante, mas que tem sido enfatizado de forma excessiva pelos movimentos de repressão penal crescente - de prevenção geral, porque sinaliza para a população a conseqüência de seus atos criminosos.

Peço perdão pelo devaneio jurídico-sociológico, e volto ao filme: como o criminoso foi eficientemente ressocializado, como ele deixou de ser uma ameaça para a sociedade, a pena contra ele deixou de ter sentido, tornou-se injusta, até porque nem mesmo a função de vingança social ela cumpriria, porque a população inteira voltou-se contra ela.

Essa também é uma leitura possível, mas vamos mais adiante com os detalhes do filme. O prisioneiro progride moralmente, e a purificação de sua alma coincide com o aprofundamento da miséria moral dos burocratas da cidade. Como nenhum cidadão de St. Pierre admite exercer o cargo de carrasco, eles bolam um plano malicioso para convencer um sujeito pobre e com família a criar a aceitar o cargo; depois disso, irritados com a forma benigna como foi tratado o prisioneiro, eles bolam um ardil para condenar o oficial da cidade (Auteuil) à morte por crime de sedição.

Eis aí o que, para mim, é o verdadeiro tema central: o criminoso se arrepende e, à medida que trabalha para apagar na sua alma os frutos do ato mau que cometeu, vai se tornando moralmente superior a seus algozes. Ele caminha para a redenção, mas, ao mesmo tempo, não se rebela contra sua punição, que ele reconhece como uma conseqüência de seus atos.

É por isso que, quando a guilhotina chega à cidade, e o oficial recusa permissão para que o navio que a carrega aporte, criando a necessidade de organizar-se uma expedição até o navio para buscá-la, e ninguém aparece para voluntariar-se a participar da expedição, é o próprio condenado o primeiro a se oferecer, sob a alegação de que precisa do dinheiro para deixar para sua família. É por isso que, quando ele tem a chance de fugir para a Inglaterra, ele acaba por recusá-la, embora inicialmente hesite.

Eis o ponto nevrálgico: este filme é uma reedição do tema bíblico do "bom ladrão".

O sujeito comete um crime grave, se arrepende, se modifica moralmente, e sofre as punições temporais pelo seu crime, mas as enfrenta com a alma serena, com a certeza de que elas são preço a ser pago pelo cumprimento da promessa do Cristo: "Em verdade te digo, hoje estarás co'Migo no paraíso."

Ele sabe que o que importa não são os frutos temporais de seus erros ou acertos, mas o destino final de sua alma.

Algumas palavras sobre os aspectos técnicos do filme: da condução da câmera à elaboração de figurinos e cenários, tudo é impecável, e ainda há o benefício adicional das interpretações de Binoche e Kusturica.

E uma nota sobre o título: "veuve" é, ao mesmo tempo, viúva e guilhotina. Binoche fica viúva duplamente - de seu marido e do homem cuja dignidade ela ajudou a restaurar - por causa da guilhotina, no primeiro caso indireta e no segundo diretamente. Claro que o trocadilho é intraduzível, e talvez "guilhotina" fosse mais fiel ao filme, mas o tradutor brasileiro, por óbvias e justas razões comerciais, adotou "a viúva de St. Pierre".