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FASCISMO ANTI-FASCISTA 16/05/99 A idiotice desta semana não é um artigo, nem uma notícia, nem um livro. Fugindo aos suspeitos habituais (como, aliás, tínhamos fugido semana passada), a idiotice desta semana é um filme. Pode parecer uma escolha estranha, especialmente para quem acredita no mito muito difundido da "independência da arte", segundo o qual as obras de arte devem ser julgadas exclusivamente por critérios intrínsecos, mas não vi nada tão idiota essa semana quanto esse filme. Antes de detalhar, uma palavrinha sobre os critérios de julgamento: é claro que, quando um diretor faz um filme, ele não quer apenas fazer um filme, mas quer dizer alguma coisa. Essa mensagem pode ser política, religiosa, etc. etc. - mas ela existe, mesmo que inconscientemente. Que nenhum engraçadinho, portanto, venha reclamar de eu estar criticando as idéias de um filme: aquilo que é expresso em linguagem cinematográfica também pode ser expresso em linguagem lógica, e é sobre esta expressão lógica (ou, no caso, ideológica) que escrevo aqui. Trata-se do filme American History X, ou A outra história americana, que está se tornando objeto de culto das pessoas "esclarecidas" que gostam de freqüentar o Estação Botafogo e demais salas de "filmes de arte". O filme começa com um rapaz cheio de suásticas tatuadas no corpo transando com a namorada e sendo interrompido pelo irmão. Alguns negros estavam arrombando seu carro. O rapaz desce e atira nos negros. É preso. Há um corte, e o que estava em preto-e-branco toma cores. Logo vemos que as cenas de flashback serão em preto-e-branco, e as cenas do presente serão coloridas. Muito original. Bom, no presente, o irmão do tal neonazista acaba de entregar ao seu professor de História um trabalho sobre direitos civis intitulado Mein Kampf. A tese: Hitler era um grande defensor dos direitos civis. O tal professor quer expulsar o menino da escola, mas o diretor, negro, objeta, e chama o menino para conversar. Ele tinha sido professor do irmão (que por acaso está saindo da cadeia nesse exato dia), e propõe um acordo: doravante, ele mesmo dará aulas de história ao menino. A primeira tarefa é entregar um trabalho sobre a prisão do irmão, e o impacto disso nas idéias que ele tinha defendido no trabalho anterior. Estamos aí diante dos personagens principais: o irmão mais velho (interpretado por Edward Norton), nazista cheio de suásticas tatuadas e preso por atirar em negros; o mais novo (o garoto de Exterminador do Futuro 2, Edward Furlong), revoltado com a prisão do irmão, idolatrando-o a ponto de defender as mesmas idéias dele; o diretor da escola, negro (não conheço o ator), querendo reformar os dois. O resto é, de certa forma, previsível. Norton sai da cadeia disposto a impedir que seu irmão acredite nas mesmas idiotices racistas em que ele acreditava. Algo nele tinha mudado. Ele vai até a festa que os skinheads estavam dando para comemorar sua volta. Vai falar com o teórico do grupo, o intelectual que elaborava as "manifestações" - coisas como ataques a mercearias. Eles discutem, e Norton acaba batendo no "intelectual", sai do escritório para o meio da multidão festiva, cria uma confusão e consegue fugir. Seu irmão o segue. Hora de contar o que aconteceu na cadeia. Lá, ele descobriu a amizade de um rapaz negro, percebeu que os brancos também podem ser corrompidos, leu os livros que o diretor negro da escola lhe recomendou. Enfim, se tornou um ser humano. A cena em que ele sai da cadeia, agradecendo ao amigo negro que o tinha ajudado, é verdadeiramente comovente. Bom, para encurtar a história (que já encurtei bastante, tirando, por exemplo, o drama familiar que se desenvolve), o irmão mais novo termina o trabalho, contando toda a história de sua vida e do progresso de suas idéias, do racismo à defesa da tolerância. O irmão mais velho o acompanha até a escola, e vai procurar emprego. Mas os irmãos não se encontrariam novamente: ao entrar no banheiro da escola, Furlong é morto por um rapaz negro, líder de uma gangue, com quem ele brigara no dia anterior. Quando Norton fica sabendo, corre até o cadáver do irmão, murmurando "o que foi que eu fiz... o que foi que eu fiz..." O filme mostra, então, imagens de um pôr-do-sol na praia, e as palavras finais do ensaio do rapaz, um apelo à tolerância, à convivência entre as raças, etc. Mas, como, Alvaro, como é que você pode dizer que um filme desses é idiota? Não é um filme bonito e edificante? Pelo esqueleto da história, parece que é mesmo. Mas não é. Na verdade, é o filme mais canalha e desonesto dos últimos anos. O exame da história não permite entrever isso, mas o exame dos discursos dos personagens e de determinadas cenas o demonstra com precisão. A mensagem moral do filme é a seguinte: o racismo dos brancos é insuportável. O racismo dos negros é justo. A base teórica dessa moral é a seguinte: os brancos são culpados por seus atos; os atos dos negros são culpa dos brancos. Em nenhum momento, a ação das gangues de negros é mostrada como reprovável. E, quando o líder de uma delas mata Furlong, Norton se sente culpado. Quer dizer, o culpado pela sua morte não foi aquele que o matou, foram suas idéias racistas. Numa determinada cena, o professor de História está almoçando com a família dos rapazes, e começa a defender os negros que destruíram lojas em Los Angeles (a cena se passa na época das convulsões sociais que se seguiram ao espancamento do criminoso fugitivo Rodney King). Eles estavam expressando seu descontentamento com a situação social injusta em que vivem. Justamente na cena anterior, o mesmo tipo de atos, cometidos pelos brancos, foi mostrado como o ápice do vandalismo racista. Quer dizer, racismo negro pode; racismo branco, não. Mas são justamente diálogos em cenas como essa que mostram a canalhice do filme. Porque, no maniqueísmo absurdo que o filme prega, só existem duas posturas diante do problema racial: os democratas defensores da affirmative action e os nazistas cheios de ódio que querem matar todos os negros. Não há terceira opção. Não há um termo intermediário. O personagem de Norton, para ser caracterizado como nazista, é mostrado discursando contra o Welfare State e contra o aumento de impostos causado pelo excesso de ajuda estatal a desempregados e imigrantes ilegais. Analisando as causas do racismo de seu irmão, Furlong se lembra de um comentário de seu pai. Reproduzo o diálogo de cabeça - é um resumo, porque não tenho o roteiro do filme aqui comigo: Norton (novinho): Entrou um professor novo na escola, um professor excelente, com dois Ph.Ds. Estamos lendo um livro chamado Native Son, a história de um negro. Estamos estudando literatura negra. Pai: Não conheço esse livro. De onde tiraram esse livro? O que fizeram com os demais livros do currículo, os clássicos? Vocês deixaram de estudá-los? Bom, é a isso que chamam affirmative action, igualdade, etc.. Ontem mesmo, dois rapazes negros entraram no Corpo de Bombeiros. São meus novos colegas. Eles tiraram notas menores do que dois outros brancos, mas eles entraram, por causa do sistema de cotas. Ah, sim: eis aí, na visão do filme, o nazismo, o racismo. Achar que as pessoas devem ser recompensadas de acordo com seus méritos, não de acordo com sua cor, achar que os estudantes devem estudar literatura, e não literatura negra, ou branca, ou amarela. Percebem? Não sei se ficou claro o objetivo do filme, mas esse é o objetivo de todo o movimento politicamente correto: impedir que pensemos determinadas coisas. O filme associa o discurso republicano conservador ao neonazismo, de tal forma que nos sintamos inibidos de pensar qualquer uma dessas coisas, de pensar que a affirmative action está errada, que a cultura deve ser julgada por seus próprios méritos, e não por ser negra ou branca, ou vermelha, ou azul, que deve haver alguma restrição à imigração num país, que o tamanho do Estado deve diminuir. Essas inibições funcionam da seguinte maneira: esses pensamentos são apresentados como os estereótipos do discurso nazista. Nenhuma pessoa sensata quer ser considerada nazista, nem mesmo diante da própria consciência. Essa consciência, então, cria um impedimento para essas idéias. E, assim, todos somos quase que obrigados a aderir ao credo esquerdista - affirmative action, cultura afro, essas coisas. Em outras palavras: todas as pessoas sensatas têm um terror pânico de parecer minimamente nazistas ou intolerantes, ou de se ver associadas a assassinos como os skinheads. Associar idéias que pessoas sensatas costumam ter a esses grupos assassinos cria o pânico de pensar essas idéias - até porque pensar significa que você pode falar a respeito em algum momento, e aí você vai parecer nazista. E assim, sob pretexto de combater o nazi-fascismo, cria-se uma atmosfera inconfundivelmente nazi-fascista. É a maior das mentiras, a mais terrível inversão moral que alguém já ousou fazer. Ora, se eu digo que não deve haver uma certa reserva de vagas para negros numa universidade, porque a entrada na universidade deve se dar por méritos pessoais, e não por méritos raciais, eu estou precisamente pregando a abolição do critério racial. Se eu digo o contrário, eu o estou defendendo. No primeiro caso, não há racismo; no segundo, evidentemente, há. O filme consegue inverter essas posições, e apresentar o sujeito sensato que é contra o sistema de quotas não só como racista, mas como um sujeito que quer matar todos os negros! Eis por que a obra é desonesta, e não só desonesta, mas francamente nociva. É um filme extremamente racista, mas do racismo "positivo", o racismo "permitido" pelo establishment, o racismo dos "oprimidos" (como se a desculpa de ter sido oprimido não tivesse sido justamente a desculpa usada pelo povo alemão para cometer os horrores do nazismo). É um filme que propositadamente confunde o ódio racial dos nazistas e skinheads com a defesa da liberdade individual feita pelos conservadores americanos (muitos dos quais negros, como Thomas Sowell, Walter Williams, John Dogget e Alan Keyes, e críticos do movimento negro), objetivando confundir a cabeça das pessoas e impedi-las de pensar fora dos padrões "politicamente corretos". Mas há uma mensagem que pode ficar de tudo isso para nós, brasileiros. A existência de um lixo de filme como esse (lixo como ideologia; não posso deixar de admitir que, de resto, o filme é muito bem feito e muito bem interpretado) deixa desnudo o racismo americano, a impossibilidade dos americanos de conviver entre si. Mostra a inutilidade das pretensas "soluções" que, sob o pretexto de resolver os problemas raciais, acabam por agravá-los. Porque, no fim das contas, a única solução para o racismo é aquela que encontramos na civilização brasileira: abolir a consideração sobre raça. A "solução" americana é, ao contrário, incentivá-la. Ora, criar consciência racial é criar racismo. Todas as gangues do filme, tanto as de branco quanto as de negros, estão cheias de "consciência racial". Estão, pois, cheias de ódio e de racismo (por mais que o filme só considere grave o ódio dos brancos). Estão fadadas a dividir a sociedade, a jogar os cidadãos uns contra os outros. Os grupos de "consciência negra" operando no Brasil querem fazer justamente a mesma coisa por aqui. O resultado será a criação, aqui, de um racismo tão terrível quando o americano. A exaltação a filmes como A outra história americana (que só recebeu elogios) contribui imensamente para isso. |