PUERILISMO PROGRESSISTA

Na minha dissertação sobre o filme O caminho de casa e sua profunda percepção da necessidade de o indivíduo ter consciência do próprio caminho de vida e contar para si mesmo a sua história, afirmei que esse filme não tinha preocupações políticas, e marcava o início de uma fase apolítica na carreira do diretor Zhang Yimou.

Talvez essa seja mesmo a intenção de Yimou, mas, de uma forma extremamente sutil, seu filme acaba sendo, sim, uma crítica ao regime comunista chinês.

A promessa do "começar do zero", de ignorar o passado e iniciar uma vida completamente nova, não é vendida apenas pela psicologia popular para satisfazer pessoas desesperadas; ela é também a promessa dos grupos políticos progressistas.

Da mesma forma que ouvimos conselhos de que temos de viver sem culpas e "esquecer o passado", o progressismo promete a criação de uma sociedade nova, imaculada, com "mudanças radicais" nas estruturas sociais.

O problema é que essas são promessas impossíveis tanto em nossas vidas quanto nas vidas políticas.

A cada escolha que fazemos, a cada passo que damos, o nosso leque de possibilidades se estreita. E exatamente isso é que é viver: escolher prioridades, definir rumos e agir de acordo com essas escolhas.

Como notou Olavo de Carvalho, a psique se desenvolve paradoxalmente: ela se expande à medida que percebe seus próprios limites, à medida que aceita os limites da realidade e restringe suas possibilidades para se adequar a eles, se adaptando e se adequando às exigências externas, e acrescenta aos limites que reconhece um outro que ela mesma cria, uma auto-limitação, que é a sua própria história, tal como ela a conta a si mesma.

"De todo o repertório de possibilidades que tem a psique, o indivíduo amputa, corta partes imensas. Em parte ele as corta pelo padrão das necessidades físicas e em parte devido ao acaso, coisas que vai aprendendo à medida que evolui. Outra parte ele amputa por vontade própria, porque não quer uma coisa, e sim outra. Também não interessa se essas escolhas são de sua livre iniciativa ou copiadas do exterior. Pouco importa. Importa que ele persevere em algumas e em outras não. E essas nas quais persevera são as suas escolhas e essa é a sua história." (do texto "O que é a psique?")

Fenômenos análogos se dão na vida das sociedades. Elas não surgem do nada: elas se constroem aos poucos, e à medida que os anos passam vão se desenvolvendo características culturais, vão se formando hábitos e idéias, vai se criando um modo de viver peculiar àquele lugar.

A promessa progressista é reformar todos esses hábitos, é mudar todas essas características, reformar todos esses hábitos, para adequá-los a um modelo ideal de sociedade "justa"; é começar uma sociedade do zero, deixando para trás toda a herança cultural criada e desenvolvida ao longo dos anos. Para cumprir esse objetivo, será necessário que o Estado - liderado pelos "iluminados" - acumule poder a ponto de reconstruir sozinho o que a sociedade levou séculos cristalizando; é preciso que o Estado tome conta de todos os aspectos da vida social que pretende reformar, e influa na consciência e nos mínimos detalhes da conduta de seus súditos.

Mas não são apenas as construções culturais - isto é, as escolhas - que formam a história de uma sociedade. São, também, as imposições exteriores, as determinações inelutáveis que vêm tanto da natureza quanto da própria estrutura da realidade. A sociedade reconhece e se adapta a essas determinações; basta notar que os maiores exemplos de criatividade social geralmente vêm de respostas de certos povos a dificuldades naturais.

Com o desenvolvimento tecnológico, essas dificuldades naturais se tornam cada vez mais superáveis, e cada vez menos determinantes. O mesmo, porém, não se pode dizer das determinações que vêm da própria estrutura da realidade, que vêm da própria natureza das coisas.

É da natureza das coisas, por exemplo, que nem todos os indivíduos se adaptem à estrutura social e, portanto, não consigam progredir economicamente nela: exatamente por isso é impossível erradicar a pobreza.

É da natureza das coisas que nem todos os indivíduos tenham a mesma capacidade decisória e, portanto, que haja governantes e governados - e quanto menor o número de indivíduos com capacidade decisória suficiente, maior a possibilidade de que os governos assumam poderes excessivos.

Mas a promessa progressista não se contenta em querer reformar a cultura do país; ela promete também superar essas exigências naturais, superar as determinações da própria realidade. Surgem, então, promessas de erradicar a pobreza, de distribuir a riqueza em proporções iguais, de formar uma população em que todos têm a mesma dose de educação e sabem as mesmas coisas, de criar um sistema político em que a opinião de todos terá exatamente o mesmo valor, e assim por diante.

Esses objetivos são manifestamente impossíveis e inatingíveis, e, justamente por isso, cada esforço em direção à sua realização fracassa. Esses fracassos sucessivos não são usados como oportunidades para reexaminar os objetivos, que nunca são discutidos, mas servem de pretexto para a criação de novas medidas, e o Estado vai aumentando seu poder e se alimentando de seu próprio fracasso e de sua própria incapacidade para cumprir promessas impossíveis.

Em nome dessas promessas, no fim das contas, tudo se justifica, tudo se torna válido.

No caso do comunismo, a promessa da sociedade inteiramente justa criou o maior distanciamento entre governantes e governados da história humana; a promessa da igualdade econômica criou abismos de riqueza entre a população comum e os membros do Partido; a promessa do paraíso libertário criou uma tirania totalitária - tudo isso com o saldo de 100 milhões de mortos. Mas os ideais mantêm seu apelo, porque a sociedade prometida "ainda não foi criada" - e nunca se discute se essa criação é possível.

O progressismo, especialmente em sua versão comunista, é uma promessa de perpetuação da infância, é uma promessa de que os atos não terão conseqüências, de que a realidade não tem determinações imutáveis, de que a humanidade pode fazer o que quiser, desde que haja "vontade política".

Quando acreditamos nessa promessa impossível, surge o rastro de morte e destruição que acompanha o formidável aumento de poder estatal necessário para tentar realizá-la.

23/10/00