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OS GAYS E O MERRIAN-WEBSTER
23/01/99
A idiotice desta semana deve ter passado meio despercebida da maior
parte das pessoas. Não me lembro de tê-la visto em nenhum
dos nossos jornais. Descobri-a por acaso, bisbilhotando o Globo on,
que, aliás, é o pior site de jornal do mundo: a
navegação é péssima e não estão
lá os artigos da página de opinião, nem os editoriais,
não se sabe por quê. Já tentei entrar em contato
com o webmaster, mas ele deve ser ocupado demais para responder a e-mails.
Deixemos esses detalhes de lado, e vamos à idiotice. Segue a
notícia, do dia 20/01/99:
"A America Online e a Merriam-Webster anunciaram
esta semana a retirada do dicionário de sinônimos disponível
no seu site até que palavras ofensivas ou depreciativas sejam
eliminadas dos textos. A informação é da ZDNet.
"Grupos de defesa dos homossexuais se queixaram
de que o dicionário continha palavras como "fruit" e "faggot"
como sinônimos de homossexual."
Indo direto ao ponto: "fruit" e "faggot" são
sinônimos de homossexual. Da mesma forma como, em português,
bicha, viado e "frutinha" o são.
Será que o dicionário, ao registrar isso, está
ofendendo os homossexuais? Respondo com uma lição básica
de lingüística.
Suponha que um sujeito tenha um amigo homossexual. Suponha, então,
que de brincadeira, falando com ele no telefone, o sujeito diga "e
aí, viado, como vai?"
Só um idiota pode achar que "viado", nesse contexto,
é ofensivo. Por outro lado, se um daqueles rapazes da Farme de
Amoedo que andam por aí matando gays usar a palavra "viado"
para se referir a uma de suas vítimas, aí, sim, a palavra
é ofensiva.
Isso serve para ilustrar uma distinção básica,
que os membros do movimento politicamente correto ou esquecem ou são
estúpidos demais para entender: uma palavra, sozinha, "em
estado de dicionário", só pode ter um sentido denotativo;
ela só adquire conotação quando colocada
num determinado contexto. O sentimento expresso por determinada palavra
é parte do sentido conotativo. Uma palavra no dicionário
nem é nem não é ofensiva; essa categoria simplesmente
não se aplica a ela, mas só faz sentido quando ela for
usada num determinado contexto.
Exemplifico de novo: entre membros do partido nazista, se alguém
chama o outro de "nazista", isso é um elogio. Se a
mesma palavra é usada para se referir a alguém em qualquer
ambiente mais razoável, ela passa a ser ofensiva.
Desta forma, expurgar palavras do dicionário sob o pretexto
de elas serem "ofensivas" é, no mínimo, perigoso.
Imaginem se a moda pega: os nazistas reclamarão de ser chamados
de nazistas, os comunistas reclamarão de ser chamados de comunas,
as prostitutas reclamarão das dezenas de sinônimos para
o nome de sua profissão que constam em qualquer dicionário
etc. etc.
Não dá para perceber que isso é ridículo?
Mas, claro, o movimento gay já há muito tempo perdeu
a noção de ridículo, e vai usar qualquer arma a
seu dispor para minar a liberdade de expressão alheia. Hoje em
dia, quem quer que desagrade minimamente aos gays sofre uma onda
de histeria, uma massiva propaganda negativa berrada em passeatas, em
jornais, em revistas.
Dessa vez, o alvo foi um dicionário. Entendam bem: um simples
dicionário. O crime do dicionário foi registrar o uso
popular de determinadas palavras e, com isso, atrair para si a raiva
do fascismo gay.
Mas a função do dicionário, afinal de contas,
é simplesmente registrar o que é que significam as palavras
usadas pelos falantes da língua. Se os falantes costumam dizer
"viado", por que diabos o dicionário se recusaria a
registrar a palavra? Fazendo isso, estaria apenas virando as costas
à língua, que, afinal, não precisa mesmo de dicionário
para se desenvolver.
É óbvio, para qualquer ser com mais de dois neurônios,
que simplesmente registrar que "viado" significa "homossexual"
não tem nada de ofensivo a ninguém. Não fazê-lo
sob pretexto de não ofender, sim, é ofensivo a qualquer
inteligência superior à das amebas.
Mais imbecil ainda é a desculpa de que o registro da palavra
pode incentivar seu uso. Ninguém vai consultar um dicionário
para saber como ofender alguém. Se qualquer um quiser ofender
os gays, vai arrumar um jeito de ofender, nem que tenha que inventar
uma palavra para isso. E se o dicionário online Merriam-Webster
registra ou não a palavra não fará a menor diferença.
O pior nisso tudo, porém, é a atmosfera de terrorismo
que o caso revela: agora, até os dicionários estão
sendo censurados pela versão rosa do fascismo. Eles não
querem impedir não só o uso, mas até o registro
das palavras de que não gostam. E os responsáveis pelo
dicionário nem mesmo argumentam, nem mesmo mandam esses imbecis
ler meia página da Lingüística Geral de Saussure;
obedecem com bovino servilismo aos comandos do dono. Ninguém
mais parece prezar a própria liberdade de expressão –
e é exatamente disso que aqueles que querem acabar com ela precisam.
A subserviência dos autores do dicionário ao patrulhamento
politicamente correto torna-se ainda mais patética no último
parágrafo da notícia:
"Aproveitando a queixa, funcionários
da Merriam-Webster declararam que também estão verificando
se nos textos há alguma calúnia étnica ou racial."
Não vou nem perguntar o que pode ser uma "calúnica
étnica ou racial", porque é tolice tão gigantesca
que ultrapassa a imaginação humana. Eu sinceramente espero
que a burrice seja de quem escreveu a notícia: "calúnia"
significa atribuição de crime a alguém que não
o cometeu. Como diabos um dicionário pode fazer isso?!
Se eu digo, por exemplo, que Itamar Franco é um assassino, eu
estou caluniando o trapalhão de Minas. Mas se um dicionário
diz que "assassino" significa um sujeito que mata outro, isso
não pode ser calúnia sob hipótese alguma.
Se um dicionário diz que "crioulo" é usado
para se referir a membros da raça negra, no Brasil, isso não
é calúnia: é um fato. O sentido da palavra "crioulo",
sua conotação, vai depender exclusivamente do contexto
em que ela será usada. Ou ninguém nunca ouviu um negro
se referir a outro com esse termo? Vão dizer o quê, que
o negro que chama outro de "crioulo" é racista? Claro
que seria absurdo.
Mas nada pode ultrapassar o absurdo que é ver os autores de
um dicionário avisar que vão verificar se não há
nenhuma "calúnia racial" no dicionário. Pensando
bem, é até melhor que os neofascistas aterrorizem os autores
desse dicionário. Imagine só que porcaria deve ser um
dicionário cujos responsáveis dizem coisas como essas.
Mas veja bem qual é a empresa responsável pelo dicionário:
Webster. Sim, Webster, responsável pelo segundo dicionário
mais respeitável de língua inglesa (depois do Oxford).
Tu quoque, Brutus?!
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