COMUNISMO SALGADO E LAUREADO

04/10/98

A melhor coisa que alguém já falou sobre José Saramago foi publicada algum tempo atrás, no Globo. Era a época do oba-oba em torno da marcha dos Sem-Terra para Brasília, com livro de Sebastião Salgado e disquinho de Chico Buarque, e o Saramago veio ao Brasil apoiar a causa. Agamenon Mendes Pedreira, então, colocou na sua coluna uma foto de um burro puxando uma carroça. Na legenda, lia-se: "José Saramago liderando a marcha dos Sem-Terra". Uma maravilha.

Não é de espantar, pois, que o fulano ganhe o Nobel de Literatura. Já há alguns anos o Nobel não serve para premiar escritores, mas para premiar causas. Nelson Rodrigues, na década de 60, comentava como era estranha a multidão de escritores que nunca escreveram um livro, mas que souberam se engajar, o que já é suficiente para garantir prestígio e até – com as bênçãos da Academia Brasileira de Letras – a imortalidade.

Assim, temos visto nos últimos anos os prêmios mais loucos: a negra americana Toni Morrison, o cubano (ou será chileno? Bom: espiritualmente cubano) Garcia Marquez, o irlandês Samuel Heaney, a polonesa Wislawa Szymborska e – talvez o mais incrível de todos – o italiano Dario Fo. Nenhum deles é propriamente um escritor (Garcia Marquez talvez seja o que mais se aproxima disso), embora tenham escrito muito, mas todos representam belas causas.

Nem vem ao caso, aqui, dizer que Borges, Bernanos e Bioy Casares nunca ganharam Nobel – embora isso diminua ainda mais a credibilidade do prêmio.

Mas este artiguinho nem pretende tratar dos dotes ou não-dotes literários de Saramago. Até porque eu li os autores acima citados, mas não consegui ler Saramago. Difícil passar da página dez de Memorial do Convento – e acabei chegando à conclusão de que não valia a pena mesmo. Claro que, não tendo conseguido ler o livro, não seria capaz de fazer uma resenha dele. Longe de mim esta pretensão.

O fato é que Saramago não foi eleito graças ao seu livro, mas graças às suas causas. Escrevo isso e sinto um arrepio percorrendo a espinha. A causa de Saramago, meus caros, é o velho socialismo. Aquele mesmo que matou mais gente do que qualquer outra coisa que tenha passado pela Terra. Que o sujeito ainda mantenha seu prestígio graças a uma porcaria dessas, é um desses mistérios insondáveis da estranha civilização moderna.

Mas a idiotice da semana não vai para a comissão do Nobel. Ela só fez o que se esperava dela. A idiotice foi pronunciada nas páginas do jornal O Globo de 09/10/98 pelo mesmo Sebastião Salgado que lançava suas fotos quando Saramago veio puxar o saco de João Pedro Stédile. Salgado, que, segundo Agamenon, gosta tanto de pobreza que economiza até nas cores, afirmou o seguinte:

"A conquista de José Saramago foi fabulosa. Um escritor absolutamente fiel à sua ideologia e coerente com o que escreve. Aos 76 anos, continua sendo um autêntico militante."

Ora, estou até admitindo que se dê um prêmio pro sujeito por causa de sua ideologia, ou para apoiar sua causa. Prêmios foram feitos para isso mesmo. Agora, admitir isso publicamente é exagero. O senhor Salgado está tripudiando da nossa boa vontade.

Vejam só que maravilha: o sujeito ganha o Nobel de literatura e a única coisa boa que um de seus amigos tem para falar dele é que ele sempre foi um bom comuna!

Devo, ainda, notar o mau uso do termo "coerência", aliás muito corrente hoje em dia. Existe a coerência externa, que é a combinação das opiniões do sujeito com a realidade dos fatos e com a lógica, e a coerência interna, que é a combinação das opiniões do sujeito entre si mesmas. Um indivíduo só pode ser coerente se unir os dois tipos de coerência. Evidentemente, quem defende, no final do século XX, o regime mais tirânico da História, está bastante carente de coerência externa. A coerência interna de Saramago, como a de Salgado, é a adesão ferrenha à mesma incoerência de sempre. É apenas uma forma superior de burrice – nothing to be proud of.

Uma menção honrosa vai para aqueles que celebraram a vitória de Saramago como a vitória da Língua Portuguesa, achando que o simples fato de um chatíssimo escritor português ter ganho o Nobel vai garantir mais leitores para a nossa Língua. Isso é uma bobagem tão grande que nem vale a pena refutar. E nada tem de surpreendente o fato de tantos terem dito isso – já há algum tempo venho dizendo que há algo de podre na intelligentzia nacional. Esse Nobel só serve para confirmar isso de novo.