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MANIPULAÇÃO SEMÂNTICA E POBREZA MENTAL 19/04/99 Um dos expedientes preferidos dos ideólogos e politiqueiros de plantão é a chamada manipulação semântica. Ela consiste em dar a determinadas palavras uma acepção que elas não tinham originalmente, ampliando seu sentido até que elas não queiram dizer nada objetivamente e adquiram um apelo mágico junto ao público. Embora seja altamente difundida nos meios políticos, é óbvio que políticos não pensam nada por conta própria. A manipulação semântica começa justamente entre aqueles responsáveis pela preservação do idioma, os escritores. Três exemplos colhidos a esmo, esta semana, darão a idéia precisa do que estou querendo dizer. No dia 16/04, o repórter da Rede Globo Pedro Bial entrevistou a antropóloga Heloísa Buarque de Holanda. A entrevista, no entanto, não versou sobre o trabalho antropológico de D. Heloísa, mas sobre aquela ocupação que a tornou famosa nos meios literários: a organização de antologias. Ela acaba de lançar uma antologia de poetas contemporâneos, e, exatamente como sua antologia sobre a geração de 70, o livro é uma coleção inacreditável de pseudo-poetas, reunindo todo tipo de bobagem, de discurso vazio e tolo. O poeta Bruno Tolentino, que pode ser meio maluco mas bobo não é, escreveu na revista Bravo! uma resenha engraçadíssima dizendo o óbvio: que o livro não valia coisa nenhuma, e que o nome "antologia" devia ser reservado a coisas mais nobres. Tanto D. Heloísa quanto Bial estavam revoltados com a diatribe de Tolentino. E Bial lançou a acusação definitiva, a crítica que ele próprio deve julgar a coisa mais profunda que alguém já disse sobre Tolentino: "A poesia do Bruno é apenas parnasiana." Percebem que a frase não quer dizer nada? Mas vale explicar exatamente por que, e tentar entender como alguém pode pronunciar uma cretinice dessas. Desde aquela idiotice generalizada de 1922, a literatura brasileira vem sofrendo sucessivos ataques. Não só a própria literatura, como também os estudos literários. Aos poucos, todos os critérios para a discussão literária foram abolidos e se instalou o "liberou geral". Nessa acelerada decadência, certos termos foram mudando de acepção, até perderem todo o sentido objetivo. Os literatos se tornaram incapazes de distinguir um poema de uma imitação de poema, um verso de uma frase curta. Quando surgiu, na década de 50, o concretismo, a palhaçada chegou ao paroxismo: como muito bem disse o escritor Antonio Fernando Borges, cartazes de oftalmologista passaram a ser vistos como poemas. As gerações posteriores até que se curaram desse nível de bobagem, mas não ficaram muito acima: poesia virou instrumento de "expressão dos sentimentos", e nada mais. Falar em forma, métrica, rima, num meio demente desses era como pregar castidade para as prostitutas. Desse liberou geral nasceu a pobreza poética da presente geração - mas como os estudos literários empobreceram junto, ninguém parece ter se dado conta do estado calamitoso daquilo que D. Heloísa chamou de poesia. É por isso que a presença de Bruno Tolentino é tão escandalosa: o sujeito não parece ter vindo do meio literário brasileiro. Na verdade, ele dialoga com os poucos que não se sujaram na lama geral de concretismos e pseudo-modernismos: sua poesia, no Brasil, segue a linhagem de Drummond, Bandeira e Cecília, Jorge de Lima - poetas que, por mais que dissimulassem simpatias com os modernistas, nunca se envolveram diretamente com movimento nenhum. Tolentino apareceu do nada, introduziu em nossa lírica temas metafísicos e filosóficos que ninguém nunca tinha abordado, e embalou-os com perfeição formal inimaginável para os herdeiros dos Andrade e dos Campos. Mas, depois de décadas de manipulação semântica, a "forma" virou uma inimiga da poesia, virou uma remanescente de escolas antigas - mais especificamente, do "parnasianismo". Por isso, para tentar enquadrar em sua própria estreiteza mental aquilo que não entende e nem é capaz de entender, Pedro Bial lançou o estigma sobre a poesia de Tolentino: é apenas uma poesia parnasiana. Não importa que o parnasianismo seja um movimento restrito que privilegia a forma em detrimento do conteúdo, e que nada possa estar mais distante da obra de Tolentino: Bial não está usando a palavra no sentido que ela realmente tem, mas no sentido que ela adquiriu na retórica anti-poética dos pseudo-poetas que infestam nossos meios literários desde a Semana de Arte Baderna. Nesse sentido, Bial disse "parnasiano" exatamente como poderia dizer "reacionário"; trata-se apenas de xingamentos, não de críticas sinceras e responsáveis. Até porque, nesses meios, poesia não é mais poesia, parnasianismo não é mais parnasianismo, e antologia não é mais antologia. Só que, independente da cretinice de críticos e popstars, a verdadeira arte continua existindo e falando por si. Mas falando em postars, é de um popstar o segundo exemplo de manipulação semântica e de empobrecimento do vocabulário que trago aos senhores esta semana. Confesso que me sinto meio cruel usando-o de exemplo, porque coerência nunca foi uma de suas virtudes e precisão vocabular muito menos. De qualquer forma, o caso é irresistível. Vejam só o que disse Gilberto Gil à revista Veja a respeito da visita do Dalai Lama ao Brasil: "A vulgarização é própria do proselitismo religioso. (...) É bom que seja assim, é mais democrático." Bom, quer dizer que é mais democrático que o Dalai Lama se torne mais popular. O que diabos um negócio desses pode querer dizer? Talvez nem Gil saiba, mas a frase serve de exemplo do abuso do termo "democracia". Ora, democracia, a rigor, é um tipo de regime político. Isso quer dizer que só quem pode ser democrático ou não é o Estado. Se eu cumpro as leis de um Estado democrático, não estou sendo "democrático", estou apenas agindo dentro das regras da democracia; assim como, se eu as violo, meus atos não são "anti-democráticos", e sim ilegais. "Democracia", no entanto, na boca de manipuladores e aproveitadores, virou qualificativo para absolutamente tudo. Ouço gente pregar a democracia sexual, a democracia literária, a democracia na educação etc. etc. - como se algum desses domínios pudesse realmente ser "democratizado". Agora, de todos, o domínio que menos pode ser "democrático", nem mesmo como metáfora distante, é a religião. Primeiro porque em qualquer religião que se preze, há uma Revelação, que nenhum dos fiéis pode negar, por mais que queiram. Segundo, porque religião pressupõe hierarquia de conhecimento e de elevação espiritual. Não é possível fugir disso, seja você budista, muçulmano ou católico. A opinião das pessoas comuns, num meio religioso, não conta absolutamente nada - só o que conta é a Revelação. Como se vê, um meio nada "democrático". Gil poderia estar se referindo à propagação e à divulgação da mensagem religiosa. Mas divulgação é muito diferente de democratização - todos nós podemos conhecer as opiniões do Dalai Lama, mas nenhum de nós vai poder votar para escolher o próximo Dalai. O compositor, na verdade, foi vítima de um dos casos mais populares de manipulação semântica, que consiste em dar à democracia um sentido que ela não pode ter - e um sentido perverso, porque inspira nas massas um desejo igualitário que nunca poderá ser atendido e abre espaço para a penetração estatal em diversos domínios que deveria estar alheios à sua atuação, sob o pretexto de "democratizá-los". Caso análogo é o do repórter Carlos Eduardo Lins da Silva, em matéria da Folha de São Paulo de 11/04/99. Ele entrevistou algumas pessoas que estavam esperando ônibus em São Paulo a respeito da demora dos mesmos para aparecer nos pontos. Como nenhuma das pessoas se mostrava revoltada com a demora, e como ninguém propôs a invasão e a destruição das empresas de ônibus, ele denunciou, já no título: "Resignação mostra falta de cidadania." Agora, eu confesso que minha paciência com o mau uso do termo "cidadania" já se esgotou completamente. Prometo tratar especificamente desse termo num artigo, em breve, [mais uma promessa que, infelizmente, ainda não cumpri] mas vamos deixar algumas coisas bem claras desde já. Querer quebrar janelas de ônibus não mostra cidadania - e não querer quebrar também não. O conceito, simplesmente, não se aplica ao caso. É como dizer que fulano de tal é resignado, logo, é louro; ou que fulano de tal não é resignado, logo, é louro. Não é possível esse tipo de inferência. Queiram quebrar os ônibus ou não, os paulistas continuam sendo cidadãos: cidadania, no Estado moderno(1) quer dizer, simplesmente, a garantia dada pelo Estado a certos membros de sua população para o exercício dos direitos políticos. Em suma, eu sou cidadão porque posso votar e ser votado, desde que eu atenda a certas condições estabelecidas pela Constituição. Ninguém pode ser mais cidadão ou menos cidadão, e não cabe ao próprio indivíduo desenvolver o "sentido de cidadania" - a cidadania é dada pelo Estado, ponto final. Que, de alguns tempos para cá, esse conceito político e jurídico tenha passado a ser usado como uma espécie de slogan midiático é prova de que o sentido objetivo das palavras já deixou de contar há tempos no Brasil. Cidadania, então, virou uma espécie de mantra, repetido à exaustão, como se a simples menção do termo fosse a solução para todos os problemas que nos afligem. Esses casos de manipulação semântica - vindos desde os meios literários até os meios políticos - são ilustrativos das conseqüências do empobrecimento da linguagem. Como não sabemos mais o que as palavras significam, passamos a viver num mundo de ilusões, em que as bobagens mais flagrantes parecem verdades profundas, em que a discussão séria de determinados problemas tornou-se impensável. Termos como "democracia" e "cidadania" parecem exercer efeitos mágicos, insondáveis. Passamos a viver numa atmosfera nebulosa, em que tudo parece absurdo e impenetrável, porque já não sabemos nomear as coisas. Boa parte da confusão em que os brasileiros vivem atualmente se explica por essa deficiência, fruto direto da burrice e da malícia de nossa classe letrada.
NOTA: (1) A comparação desse conceito moderno com o conceito medieval é um dos temas mais fascinantes da teoria política moderna, e foi esboçada por Robert Nisbet em The Twilight of Authority. Voltar
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