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LEITURA HEDONISTA
11/07/99
Nossa época é, como vários antes
de mim já assinalaram, uma época de aparências e
de superficialidades. É uma época em que os homens gostam
de se prender ao secundário, ao desimportante. E não se
trata apenas do homem comum, capaz de levar a sério os jogos
de futebol e de opinar da forma mais leviana sobre religião e
outros assuntos mais graves. Trata-se, principalmente, dos intelectuais
- e, aqui, sigo sempre o conselho de Bernanos, segundo o qual, se há
uma crise de consciência, a culpa não é dos que
não a têm, mas do que deveriam preservá-la.
Não é o caso, essa semana, de falar do
intelectual de esquerda, para quem tudo se resume a política
ou economia, mas de uma outra espécie dos bem pensantes quase
tão desprezível quanto essa: a dos cultores dos livros.
É, isso mesmo: são os caras que cultuam
os livros não por seu conteúdo, mas por serem livros.
O livro enquanto livro. A leitura enquanto leitura. Eles têm até
um slogan, a famosa frase de Ziraldo: "Ler é mais importante
do que estudar".
Não, não é. É muito menos
importante. A leitura não pode, sob hipótese alguma, ser
um fim em si. A leitura é um instrumento. E isso se explica de
forma muito simples: ninguém escreve livros por escrever, ou
porque gosta de livros. Se alguém escreve um livro, fá-lo
por algum motivo, por querer dizer alguma coisa, ou produzir algum tipo
de emoção no leitor, ou mesmo expressar algum sentimento.
O texto não é um fim em si mesmo, mas é um veículo
expressivo utilizado pelo autor. Por que diabos, então, o leitor
deveria encará-lo de outra forma?
Não deve e, se o fizer, será um péssimo
leitor. Ler, portanto, tem um determinado objetivo: lemos para aprender
algo sobre o assunto de que o autor fala, para escrever melhor,
para abrir novos espaços imaginativos. A leitura é fruto
do interesse intelectual, ou mesmo do interesse sentimental; se for
um passatempo como outro qualquer, não serve para nada, e seria
melhor não ler.
Tomemos um exemplo: se a leitora recebe uma carta do
namorado, vai ler a carta por quê? Porque gosta de ler, ou porque
quer saber o que o namorado disse? Algumas meninas vão ainda
além: lêem e relêem, quase decoram cada palavra.
E o que estou querendo dizer é o seguinte: cada livro deve ser
lido exatamente como se fosse uma carta de amor. A leitura deve ser
interiorizada e trabalhada ao máximo.
Olavo de Carvalho tem uma bela imagem sobre isso: diz
ele que livros de filosofia devem ser lidos como partituras, em que
cada frase é como uma nota que precisa ser tocada pelo leitor.
Quer dizer, o livro precisa ressoar internamente, a tal ponto que você
seja capaz de enxergar as coisas de que o autor está falando,
não simples palavras jogadas sobre o papel.
O leitor deve estar notando que estamos, aqui, nas antípodas
dos adoradores da leitura por si só. É que estes põem
mais ênfase no instrumento do que no objeto final, como o sujeito
que, se alguém lhe aponta a lua, presta mais atenção
no dedo que aponta do que propriamente na lua. E eis, novamente o que
estou querendo dizer, dito de outra forma: a lua é mais importante
do que o dedo que a aponta. O tema de um livro, as coisas de que ele
fala, são mais importantes do que o próprio livro.
Isso tem inúmeras aplicações. Na
filosofia, por exemplo, tudo que se faz no Brasil versa sobre dedos,
e não sobre a lua: o sujeito leva vinte anos espremendo o cérebro
para fazer não uma obra sobre o Ser, ou uma interpretação
diferente do que alguém disse antes, mas para expor de novo uma
filosofia já exposta - por exemplo "a dialética de Hegel",
ou "o pensamento político de Rousseau". O exemplo mais fantástico
é a tese que garantiu ao prof. Leandro Konder o título
de doutor, com as maiores honrarias: uma tese sobre quem leu
Karl Marx no Brasil desde o lançamento de "O Capital". Esse,
realmente, é um exemplo extremado: a tese de Konder não
chega a ser sobre dedos que apontam a lua, mas é sobre dedos
que apontam para dedos que apontam para dedos...
Outra conclusão é que existem certos livros
mais importantes que outros e existem, mesmo, livros que não
deveriam nunca ser lidos. Os mais importantes são, evidentemente,
aqueles que tratam com maior profundidade os assuntos mais interessantes;
os que nunca devem ser lidos são aqueles que não tratam
de absolutamente nada - como as obras completas de Manoel de Barros.
Digo tudo isso por causa de uma entrevista publicada
nas páginas amarelas da revista Veja desta semana (07/07/99)
com o escritor Alberto Manguel, autor de um livro perfeitamente inútil
chamado Uma História da Leitura, da editora especialista
no gênero, a Cia. das Letras (também chamada de Companhia
Unibanco das Letras de Música). Cito alguns trechos.
Quando perguntado sobre a diferença existente
entre ler um livro e ler a mesma coisa num computador, eis o que disse
Manguel:
"As palavras impressa no papel são tangíveis, você
quase pode tocar a tinta, e têm uma durabilidade incrível.
(...)No computador, o texto não tem uma realidade sólida,
além de ser extremamente frágil - se você apertar
um comando errado, adeus texto. Quando falamos em ler um livro, nosso
vocabulário é gatronômico: 'Devoramos um livro'
ou 'saboreamos um texto'. Já em relação ao computador
usamos palavras que têm a ver com a superfície, como 'surfar
na internet' ou 'escanear um texto'. É impossível interiorizar
o texto que aparece na tela luminosa."
Tolice atrás de tolice para cultuar o secundário. Ora,
é óbvio que, se o livro em si mesmo já é
secundário em relação aos assuntos de que trata,
ainda mais secundário é o formato do livro. Que importância
tem se você vai ler um texto na tela do computador, num livro
impresso em papel reciclado, ou num pergaminho antigo? Que diferença
faz? Claro, é mais prático ler um livro impresso, mas
isso nada influi na qualidade da leitura.
Noto, primeiro, que não é verdade que seja "quase possível"
tocar a tinta do livro: é inteiramente possível. Mas isso
não é possível na tela do computador pelo simples
fato de que não há tinta na tela. Mas, se o sr. Manguel
quiser tocar as letras na tela, poderá fazê-lo com alguma
facilidade...
Quanto à realidade sólida, fico me perguntando o que
será uma tela de computador se não sólida: líquida?
Gasosa? As letras estão em estado de ebulição?
Quanto a elas poderem desaparecer, isso é bastante relativo:
se eu leio um site na internet, a única forma de desaparecer
com as palavras dele é desligar o computador - e aí elas
vão desaparecer para mim, mas não para os outros. Mas
ele talvez se refira ao texto no editor de texto: é verdade,
qualquer comando errado, babau. Mas experimente o sr. Manguel acender
um fósforo perto de um texto impresso, e vai ver se o efeito
não é bastante parecido ao do comando mal dado.
Chegamos, então, às estranhas analogias com que ele tenta
diferenciar o texto impresso do texto no computador. Ele se esquece
de que "devorar" um texto e "escanear" um texto são coisas inteiramente
diferentes. Nada impede que alguém "devore" um texto na tela
do computador, e o uso da expressão nesse caso é perfeitamente
cabível. O que não tem cabimento é achar que porque
chamamos a ação de escanear escanear, e não devorar,
e a ação de surfar ou navegar na internet surfar ou navegar
na internet, e não saborear, não é possível
devorar um texto escaneado e, no meio da navegação, saborear
um texto num site qualquer.
Volto a dizer: mais absurdo do que o culto da leitura, só o
culto do livro em sua forma impressa - e historicamente transitória
e efêmera, como todas as criações humanas.
Mas vejamos os momentos em que o nosso amigo faz o culto da leitura,
que, afinal, foi o motivo pelo qual escrevi este artigo:
"Veja: É melhor ler publicações sem
qualidade do que não ler nada?
"Manguel: Essa pergunta pressupõe que certos livros são
necessariamente melhores que outros. Não acredito em hierarquias
absolutas no campo da leitura. Nos países árabes, que
valorizavam a filosofia e a poesia em detrimento da ficção,
As mil e uma noites eram vistas como literatura barata. No Ocidente,
tornou-se um clássico. (...)É arrogante dizer 'esse livro
você não deve ler e esse você deve'. Há obras
certas para diferentes momentos de sua existência."
Se não existem hierarquias entre os livros, não existem
hierarquias entre os autores, não existem diferenças de
inteligência, grau de consciência e qualidade estilística
entre os autores. Quer dizer, Shakespeare é igual a Plínio
Marcos, São Tomás de Aquino é igual a Antonio Gramsci,
e assim por diante. Não preciso nem dizer que isso é loucura.
Quanto ao exemplo citado, prova mais que existe uma hierarquia do que
que não existe. Porque o fato é que, comparadas ao resto
da literatura árabe da época, As mil e uma noites
são, sim, literatura barata. São livros de entretenimento,
enquanto praticamente tudo o que se escreveu de importante na cultura
árabe diz respeito às questões mais profundas da
existência humana - razão pela qual, perto de Ibn 'Arabi,
Rumi, Al-Gazzhali, As mil e uma noites são, mesmo, literatura
barata, e só se tornaram um clássico porque as demais
obras árabes quase nunca chegam ao Ocidente e, quando chegam,
caem nas mãos de gente inteiramente incapaz de entendê-las
- como o sr. Manguel.
Não é de espantar que alguém que diz essas coisas
continue dizendo o seguinte:
"Veja: Que autores tiveram grande influência sobre
o senhor?
"Manguel: Um nome que me ocorre é o do brasileiro Monteiro
Lobato, autor do Sítio do Pica-pau Amarelo. Ter lido Monteiro
Lobato numa certa fase da minha vida foi mais enriquecedor do que ter
lido Camões, há cinco anos. Camões é interessante,
levou-me a pensar em questões profundas, mas não mudou
minha vida."
O sujeito diz, de cara limpa, que Monteiro Lobato é mais importante
que Camões! Ah, alguém vai dizer, mas ele só diz
que foi mais importante para ele. Certo: então ele está
confessando que é um perfeito idiota, que só é
capaz de ler alguma coisa para mudar a própria vida quando a
lê cedo, que não consegue mais tirar conclusões
práticas profundas do que lê hoje em dia.
Afinal, se Camões o fez pensar em questões profundas
mas isso em nada mudou sua vida, quer dizer que ou ele não entendeu
nada das tais questões ou o pensamento, para ele, está
completamente desligado da vida - e, portanto, é um pensamento
morto e inoperante. Não há questão profunda que,
se pensada, não mude em alguma coisa a vida de quem a pensa.
É exatamente para isso que serve o estudo, a leitura e o pensamento:
para tornar melhores as pessoas que os praticam. Camões serve
para isso, porque é um grande poeta; se não serviu, então
o sr. Manguel não o leu direito. Não lendo direito, acaba
transformando a própria incapacidade de perceber as hierarquias
em regra universal. E iguala Camões a um autor secundário
como Monteiro Lobato.
Mas a frase principal da entrevista, que resume tudo, é a seguinte:
"Não há por que tratar a leitura de grandes livros
como obrigação. Não há prazer na obrigação
e devemos ler apenas por prazer."
A leitura relegada a mais um tipo de prazer, talvez um substituto para
o sexo, ou para o futebol. A leitura desvinculada das partes mais profundas
e mais importantes da existência, desprovida de toda vitalidade.
A vida intelectual como uma masturbação mental, como
um hedonismo sem finalidade, uma agitação vazia e estéril
destinada a dar prazer. Não é de surpreender que,
nesse contexto, surjam as teorias mais absurdas, as afirmações
mais estapafúrdias, as decisões mais inconseqüentes
- afinal, tudo não passa de uma vasta brincadeira, de uma vasta
palhaçada.
Diante disso, não há mesmo por que se espantar com a
decadência geral das consciências. E o pior é que
essa inconseqüência toda é ensinada e propagada dia
e noite, por todos os meios de comunicação e pelas escolas.
Escolas nas quais os livros de Paulo Coelho e Emir Sader são
postos em pé de igualdade com Machado de Assis e Gilberto Freyre.
Afinal, é mais importante ler do que escolher o que ler...
***
Permitam-me ainda uma observação. A repórter de
Veja disse a seguinte coisa, antecedendo uma pergunta:
"O filme Mensagem para você mostra que as megalivrarias
americanas, como a Barnes & Noble, estão abocanhando as pequenas."
Dá para perceber o absurdo? A fonte de informação
da menina é o cinema americano. Esse é o estado da imprensa
brasileira...
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