RACISTAS, IRRACIONAIS E INCONSCIENTES

05/04/99

Inútil discutir com antropólogos, alguns vão me dizer. Inútil mesmo. Para um antropólogo, tudo são "manifestações culturais". A única distinção entre Villa Lobos e a dupla Claudinho e Buchecha é a época em que produziram suas respectivas obras musicais. A antropologia exclui de seu método de estudos, por definição, as distinções qualitativas. Isso, claro, pode até ser válido por um determinado ponto de vista, mas, quando se torna conceito generalizado, prepara o terreno para a instalação da demência total.

Por isso, na cabeça da maioria das pessoas hoje em dia, não é só sob o ponto de vista da "ciência" antropológica que um sujeito balbuciando "só lóvi só lóvi" tem o mesmo valor das Bachianas Brasileiras - na verdade, a maioria pensa de verdade que a distinção entre os dois é meramente subjetiva. Gosto, dizem, não se discute. Que depois as mesmas pessoas que instalaram esse tipo de visão imbecil das coisas venha reclamar da mercantilização da cultura é só sinal de que honestidade intelectual é artigo em falta no Brasil de hoje - mas esse é outro assunto.

Comecei dizendo isso porque vou tratar do artigo de um antropólogo. E não um antropólogo qualquer, mas um verdadeiro darling da nossa mídia, o senhor Hermano Vianna.

Hermano é estudioso daquilo que ele chama de "movimentos de periferia": coisas como funk, rap, etc. Ele, claro, nunca julga seus objetos: se há uma violência irracional nos bailes funk, não importa; para o antropólogo, tudo são apenas manifestações culturais. Se os autores dos raps pregam a violência, também não importa: eles estão se manifestando. Em suma: para ele e para seus colegas de profissão, não importa propriamente o que você diz. Ele está proibido de julgar. Ele cortou a própria razão, cortou o próprio senso moral - tudo isso para se tornar um antropólogo e aparecer na Folha de São Paulo. Pois vejam o que ele escreveu no Mamais de 28/03/99:

"Depois do sucesso comercial retumbante dos Racionais, não deve ser difícil ter uma idéia sobre o que os funkeiros cariocas aprenderam a cantar. Na introdução de um dos raps, o ouvinte se defronta com a enumeração dos seguintes dados estatísticos: 'A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras. Nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros. A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo.'

"Há negros. Há brancos. Não há mais indefinição mulata entre uma "raça" e outra, pelo menos não no Brasil descrito no rap dos Racionais, pelo menos não como valor a ser cultivado como motivo de ufanismo cultural. Então, há também quem diga que o sucesso dos Racionais é sinal de uma "americanização" no modo como os brasileiros passaram a pensar suas relações raciais. Eis o Brasil pós-Casa-Grande-e-Senzala. Eis a voz não-cordial da periferia do Brasil."

Vianna estava muito emocionado com o show dos Racionais que ele foi ver na quadra de uma escola de samba, a convite de Cacá Diegues. Ele, claro, não chega a dar sua opinião sobre os tais Racionais. Ele apenas observa, com seus ares superiores de antropólogo. Mas deixa escapar uma crítica a quem vê nos tais rappers um sintoma da americanização do Brasil.

Claro que a simples frase "os rappers não são um sintoma da americanização do Brasil" é auto-contraditória: você está, afinal, falando de rappers e se isso não é uma influência americana, não posso saber o que é. Nem eu nem ninguém.

Mas vale a pena ir além. Vejam só o que os "não-cordiais" Racionais dizem em uma de suas letras (como é que isso fica quando cantado é coisa de que não faço a menor idéia, e prefiro mesmo não fazer):

"Precisamos um líder de crédito popular, como Malcom X em outros tempos foi na América. Que seja negra até os ossos, um dos nossos, e reconstrua nosso orgulho que foi feito em destroços. Nossos irmãos estão desnorteados. Entre o prazer e o dinheiro, desorientados. Brigando por quase nada, migalhas, coisas banais; prestigiando a mentira, as falhas, desinformados demais. Chega! De festejar a desvantagem, permitir que desgastem nossa imagem. Descendente negro atual, meu nome é Brown. Não sou complexado e tal, apenas Racional. É a verdade mais pura, postura definitiva, a juventude negra AGORA TEM VOZ ATIVA!

Refrão

"Mais da metade do país é negra e se esquece que tem acesso apenas ao resto que ele oferece. Tão pouco para tanta gente..... tanta gente. Tanta gente, são muito, não poucos. Pode crê! Geração iludida, uma massa falida de formação distorcida e distraída na televisão. Fudidos estão, sem nenhum propósito, diariamente assinando seu atestado de óbito.

"E onde estão? Meus descendentes na TV, nosso irmãos? Artistas negros de atitude e expressão. Você não se propõe a perguntar por quê? Eu não sou racista, mas meu ponto de vista é que este é o Brasil que eles querem que exista: evoluído e bonito, mas sem negros no destaque. Eles te mostram um país que não existe. Escondem nossa raiz, milhões de negros assitem. E o engraçado é que de nós eles precisam. Nosso dinheiro eles nunca discriminam. Minha pergunta aqui fica: desses artistas tão famosos, com qual você se identifica?"

Viram só? "Precisamos de um Malcom X". Isto é, "precisamos" de um líder negro que pregue o racismo às avessas, que venha instilar o ódio contra os brancos. Os Racionais, na verdade, não estão esperando por um Malcom X: já estão cumprindo esse papel. Já estão repetindo o discurso dos negros americanos, que foram isolados em guetos e discriminados e acabaram dando origem a um violento movimento racista contra os brancos. É à emergência de um movimento desse tipo que estamos assistindo no Brasil.

Só que o negro brasileiro não tem a mesma história do negro americano. Aqui, depois da abolição da escravidão, nunca houve leis racistas, nunca houve Ku Klux Klan, nunca houve perseguição sistemática de negros. Houve segregação? Sim, houve, mas o critério não foi racial: os pobres foram segregados e marginalizados - e, mais uma vez, não por escolha deliberada de ninguém, mas por fatores econômicos. Nunca houve uma "conspiração racista" em nosso país.

E nós não somos um país de maioria negra, como dizem esses imbecis que se intitulam Racionais. Somos um país de maioria mestiça. Mestiço quer dizer fruto da mistura sexual de brancos e negros - isto é, fruto da falta de racismo, porque ninguém mantém relações sexuais com aquele a quem odeia. Dizer, a essa altura do campeonato, que os mestiços são negros equivale a importar as categorias racistas que os americanos usam para segmentar e dividir a sua sociedade: lá, quem quer que tenha um pingo de sangue negro é automaticamente considerado negro - e a mestiçagem é extremamente rara.

Foi precisamente porque aqui houve mestiçagem, porque a maioria de nós é mestiço e, portanto, de raça indefinível, que os conceitos de "branco" e "negro" deixaram de se aplicar com propriedade ao Brasil. Falo por mim: nos EUA, eu certamente seria considerado "latino" ou "negro"; aqui, ninguém nunca quis saber minha cor. O mesmo vale para, por exemplo, o presidente Fernando Henrique Cardoso, ou o ministro José Serra: é óbvio que eles não são inteiramente brancos, como também não são inteiramente negros. Estão em algum lugar no meio e é muito difícil distinguir. De que adianta, agora, aplicar esses conceitos à força na nossa sociedade?

Do ponto de vista científico, não adianta nada. Mas é preciso ser muito pueril para achar que os interesses do sr. Hermano Vianna e de seus coleguinhas são científicos. Eles não estão interessados em ciência coisa nenhuma. Ao legitimar um movimento que prega o ódio e a divisão social, como o dos rappers, eles estão apenas cumprindo sua parte no processo de globalização: cabe, afinal, à esquerda a uniformização da agenda política em torno de certas reivindicações que fragmentam o corpo social, enfraquecendo a unidade nacional e tornando-nos todos mais suscetíveis à influência externa e ao poder mundial nascente. É precisamente para isso que serve o movimento negro, e não é de espantar que, uma semana antes do tal show, o presidente do Bank Boston tenha vindo ao Brasil inaugurar seu programa de assistência a estudantes negros - sim, repito, apenas estudantes negros.

Estão vendo como o racismo está sendo estimulado no Brasil, sob a desculpa do combate ao racismo? Estão vendo como, aos poucos, o que resta de unidade nacional vai sendo minado? Como a nossa pacífica convivência racial vai sendo substituída por um discurso raivoso importado dos Estados Unidos? É para isso que estão trabalhando Vianna e seus similares. A americanização de nossas relações raciais não é apenas uma mudança cultural; é o fim propriamente dito de toda a cultura nacional - o que, no panorama globalizante de nossos tempos, significa, simplesmente, o desaparecimento do Brasil.

Que não pensem que estou culpando os Racionais: eles nada fazem a não ser repetir os estereótipos que os intelectuais de esquerda lhes ensinaram. Eles nada são além de massa de manobra, nas mãos de ganaciosos líderes políticos. Alguns desses líderes políticos e intelectuais estão sinceramente convictos de que vão restaurar a cultura africana (coisa que não existe, porque a África nunca teve unidade cultural) etc., e às vezes são até críticos da globalização. O que significa que estamos diante de mais um caso de cegos guiando cegos, como diz o Evangelho. Tudo isso é um espetáculo de inconsciência difícil de acreditar, eu sei, mas é o panorama exato dos intelectuais anti-racistas. Eles não estão trabalhando a favor dos negros - estão trabalhando contra o Brasil.