CARTA IMAGINÁRIA AO SENHOR LUÍS EDUARDO SOARES

Rio de Janeiro, 31 de Maio de 1999.

 

Prezado Senhor Soares,

Não sei se o senhor se lembra de mim. O senhor já fez um papel ridículo no Jornal do Brasil, tentando apontar as "influências no meu pensamento" - no meu e do Sr. Pedro Sette Câmara, por acaso meu amigo e co-editor deste jornal que o senhor, certamente, não lê.

Mas isso não tem importância. O que importa é que o senhor acaba de anunciar, a uma população atônita, que o senhor estará presidindo à criação de uma "central de denúncias" de agressões contra gays.

Esse anúncio me fez pensar numa série de coisas, e gostaria de lhe enviar algumas perguntas.

Bem sei que é moda na intelectualidade brasileira dizer que já teve "experiências homossexuais", que é o nome bonito do ato de ser sodomizado. Até o Olívio Dutra já confessou ter tido tais "experiências", quem diria. Imagino até, Senhor Soares, que o senhor também deve ter tido tais experiências. Eu, confesso, nunca as tive, confissão que, em alguns anos, certamente será um crime de pensamento. Mas a própria idéia de ser sodomizado me parece monstruosa. Isso, aliás, é um negócio que eu não desejaria a ninguém.

Mas também sei que há quem goste, e há quem mesmo diga se "orgulhar" das próprias sodomias. Não sou muito fã dessa gente, que sempre me pareceu estranha, mas também não vejo motivo nenhum para espancá-los, ou para vedar-lhes a vida social. Acho que eles têm todo o direito de fazer suas sodomias, desde que não queiram tirar de nós a garantia constitucional de dizer que esse negócio de sodomia é horrendo. Infelizmente, a maioria deles parece querer - é que os gays são muito sensíveis e querem que todos nós gostemos deles, mas acho que todos concordamos que o Estado não pode obrigar ninguém a gostar de ninguém.

Ora, senhor Soares, sua idéia cria alguns problemas. Por exemplo: se um gay tenta me espancar, a quem eu vou denunciar isso? O senhor não vai criar uma linha de denúncias de violências contra heterossexuais (e, aliás, tenho certeza matemática de que a maior parte dos atos violentos são contra heterossexuais, e não contra "homossexuais", pelo simples fato de que há muito mais heterossexuais do que "homossexuais" no estado)? O que, afinal, dá aos gays esse status de grupo privilegiado, que paira sobre todos os outros mortais, e tem direitos especiais? Serão os gays tão importantes a ponto de o senhor negar, em favor deles, o velho preceito da igualdade jurídica? Afinal, o que exatamente torna uma violência contra um gay mais grave do que uma violência contra qualquer outra pessoa?

Bom, talvez o senhor não saiba me responder. Talvez não haja respostas. Talvez essas perguntas também estejam proibidas - é certo, por exemplo, que nenhum órgão de imprensa jamais as publicaria. Talvez o neofascismo que o senhor está instaurando sob os auspícios da UNESCO e dos "politicamente corretos" já tenha eleito sua casta de privilegiados, e não caiba mais a nós, simples mortais, questionar esses privilégios. Afinal, respeito pela opinião alheia nunca foi mesmo característica dos fascistas...

Sem mais, me despeço,

Alvaro R. Velloso de Carvalho