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PÉROLAS DA VIDA CULTURAL
BRASILEIRA
28/07/99
Alguns exemplos de personagens e idéias comuns
na nossa vida cultural, todos já nossos velhos conhecidos, e
que andaram aparecendo por aqui nesta semana.
O jornalista babão e o filosofante
Zuenir Ventura, sábado, 24 de julho, querendo falar mal do técnico
da seleção brasileira:
"[Wanderley Luxemburgo] falou mais de filosofia que Leandro Konder,
que tem doutorado na matéria e já leu todos os filósofos,
com exceção desse novo, talvez."
Sabemos por que o nosso amigo Konder tem doutorado: escreveu uma tese
de duzentas páginas sobre "quem leu Marx no Brasil",
tese que levou seis anos fazendo, com despesas divididas entre o dinheiro
do contribuinte e o dinheiro da mãe do Sr. Konder. Agora, qualquer
um com mais de meio neurônio sabe que uma porcaria dessas não
é suficiente para garantir título de filósofo para
ninguém, muito menos para o Sr. Konder, que nunca escreveu um
único livro de filosofia, sendo todos os seus livros ou de doutrinação
política ou de compilação de idéias de outros
autores. E, ao contrário do que faz supor Zuenir, esses autores
cobrem um espectro extremamente pobre - mais especificamente, os chamados
"socialistas utópicos", mais Karl Marx e Bertolt Brecht.
Nem sinal de que Konder tenha algum dia passado perto de Aristóteles,
Leibniz ou Husserl.
Ao repetir que Konder é "filósofo" só porque tem um diplominha
assinado pelo dr. Gerd Bornheim, Zuenir não diz nada sobre Konder,
mas diz muito sobre si: mostra que mal consegue conter a baba que escorre
toda vez que chega perto de um diploma universitário. E aproveita
para mostrar que não entende nada de futebol - ou, talvez, que
entende de futebol tanto quanto Wanderley Luxemburgo e Leandro Konder
entendem de filosofia.
O mundo melhor esquerdista
Declaração da filha de Che Guevara ao jornal argentino
La Nación, reproduzida por O Globo:
"Há liberdade de expressão em Cuba, sim, apesar
de alguns erros cometidos. E, se meu pai tivesse vencido a luta, talvez
o mundo não estivesse como está hoje."
Engraçado que só os que apóiam Fidel digam que
há liberdade de expressão em Cuba, enquanto todos os outros
ou conseguem fugir para onde consigam realmente falar o que quiserem,
ou precisam se contentar em engolir estrume nas cadeias onde são
cometidos os "erros" do regime.
Mas numa coisa concordo com a dona Guevarinha: se seu pai tivesse vencido
a guerra, o mundo estaria diferente - estaria muito pior. Exceto que,
no caso de Guevara, vencer a guerra era quase impossível: o homem
era tão incompetente que foi expulso de Cuba pelo próprio
Fidel, que o transferiu para as guerrilhas latino-americanas, onde ele
ainda cometeu a façanha de ser morto em combate pelo pior exército
da América Latina, o boliviano. Entendo que a esquerda precise
gastar tanta tinta para retocar a memória desse personagem, que
deveria ser um de seus maiores motivos de vergonha.
De neoliberal a centralizador
Anúncio do livro Falso amanhecer, do inglês John
Gray, no caderno Prosa ao inverso, do "Globo":
"A mão à palmatória.
"John Gray é um dos mais importantes pensadores ingleses
da atualidade. John Gray inspirou o neoliberalismo adotado pela ex-primeira
dama inglesa Margaret Thatcher. John Gray mudou de idéia.
" 'Falso amanhecer é uma análise poderosa sobre
as profundas instabilidades do capitalismo global.' - George Soros."
Entendo que os protecionistas e os centralizados comemorem que um neoliberal
mude de idéia. Mas sugerir que só porque esse tal John
Gray mudou de idéia o programa econômico de Margaret Thatcher
fica com a credibilidade abalada, já é um certo exagero.
O que realmente fica com a credibilidade abalada é um livro
elogiado pelo George Soros - Soros, como bem mostrou Lew Rockwell, é
o típico sujeito que enriqueceu com o livre mercado e, depois
de rico, quer criar mil reservas de mercado e mil instrumentos de controle,
porque, assim, não corre o risco de sofrer concorrência.
Isso faz dele um ilustre herdeiro da tradição dos Rockfeller,
Ford e Rotschild - que costumavam afirmar que "a concorrência
é um pecado" e que ajudaram a financiar o regime soviético
e o protofascismo do New Deal rooseveltiano.
À luz dessas idéias, até fica mais claro por que
é que o Gray passou do liberalismo ao centralismo...
O escritor inculto
Resposta do escritor desconhecido José de Paula Machado à
pergunta do mesmo caderninho cultural de "O Globo" sobre o
maior clássico de sua vida:
"Fico com Gore Vidal e, especificamente, um livro chamado 'Kalki',
sobre final do mundo, que li ainda jovem, quando morava em Londres.
Foi a primeira obra que li dele e curiosamente pouco ouvi falar dela
aqui."
O rapaz faz a maior pose de Diogo Mainardi (por sua vez um imitador
barato do Paulo Francis) e diz, com ar arrogante, que o autor mais importante
de sua vida é Gore Vidal, especificamente uma obra que ele leu
em Londres e que os pobres mortais brasileiros não conhecem direito.
Ir a público dizer que o melhor autor que já leu na vida
é Gore Vidal é uma confissão inominável
de incultura. Suponho que esse sr. Machado nunca tenha passado perto
de Dostoievski, Shakespeare, Dante, Wasserman, ou mesmo Kafka. A julgar,
pois, pela qualidade de suas leituras, o anonimato de suas obras parece
ser mais que merecido.
Ainda Cuba
Num ato muito significativo, seis jogadores da seleção
cubana de basquete acabam de deixar a seleção e pedir
asilo político na Argentina, onde estavam disputando o pré-olímpico.
Mas, segundo o repórter esportivo que cobriu o assunto, a atitude
"não significa uma crítica ao regime cubano".
Isso é que é tapar o sol com a peneira.
O cara de pau
Declaração de João Pedro Stédile ao Jornal
do Brasil, esta semana:
"No MST não há nenhum risco de radicalização.
Nossa fortaleza consiste em utilizar mecanismos internos democráticos."
Isso numa mesma entrevista em que citava como exemplo de líder
militar o ditador vietnamita Ho Chi Min, responsável pelo extermínio
de mais de um terço da população de seu país.
E na mesma semana em que o movimento nada radical e nada sanguinário
que Stédile comanda destruía uma fazenda que foi obrigado
a desocupar, e, em outro lugar, invadia a fazenda da frente da que deixava,
sob o olhar complacente dos policiais.
É, quem vê nisso um movimento revolucionário, que
segue à risca as estratégias leninista e maoísta,
deve mesmo vendo coisas - afinal, aí está o Sr. Stédile
para desmentir acusações tão falsas. Espera-se
que, no seu próximo pronunciamento, Stédile venha dar
as mais recentes provas científicas da existência de Papai
Noel. E todos vamos, de novo, acreditar nele.
O bispo tresloucado
Eis o que disse Dom Cláudio Hummes, arcebispo de São
Paulo, substituto da velha prostituta Arns, ao Jornal do Brasil:
"Uma série de coisas precisa ser reelaborada. De um lado,
o comunismo implodiu. De outro, o capitalismo se transformou, enveredou
pelo caminho do livre mercado, totalmente aberto. Isso enseja o reestudo
de toda a questão social, sobretudo o desemprego e as relações
de trabalho."
Eu realmente não saberia o que responder a Dom Hummes, porque
não entendi uma única palavra do que ele disse. Ou melhor:
não entendi a relação entre os períodos
de sua declaração. O que a implosão do comunismo
tem a ver com o "reestudo" (sic) da questão
social? Que capitalismo é esse que ele conhecia antes, sem livre
mercado? Que livre mercado totalmente aberto ele tem em mente? O brasileiro
(faz-me rir!)? Por que é que Dom Hummes está se
metendo nesses assuntos, dos quais manisfestamente não entende
nada? São muitas as perguntas, são muitos os mistérios.
E acho que, como de costume, as respostas ficarão a cargo da
imaginação do leitor.
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