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CRETINICE STALINISTA
11/10/98
Quero começar o artigo desta semana convidando o leitor a um esforço
imaginativo: imagine que um arquiteto famoso, numa entrevista à revista
Domingo, do Jornal do Brasil, dissesse que tudo que se falou
sobre Hitler foi uma invenção judaica; que Hitler, na realidade, é muito
bonzinho e que ele continua nazista porque não é cretino e, no fundo,
todos o são (nazistas, não cretinos).
Claro que nunca mais ouviríamos falar nesse arquiteto. Haveria uma
tal pressão midiática sobre ele que ele acabaria condenado ao ostracismo.
Talvez até inventassem um jeito de colocá-lo na cadeia. Na Alemanha,
estão querendo mudar a lei para prender o francês Jean Marie Le Pen,
porque ele disse que o holocausto era um evento menor na 2a
Guerra.
Pois bem. Ninguém falou que Hitler era bonzinho, aqui no Brasil. Ninguém
cometeu esse disparate. Mas o famoso arquiteto – quase um herói nacional
– Oscar Niemeyer disse coisa muito pior. Vejamos a idiotice desta semana
(Jornal do Brasil, revista Domingo de 11/10/98):
"Nunca dei atenção a essa história de que o comunismo
morreu. O que está doente e sem remédio é o capitalismo ainda existente.
A revolução soviética representa 70 anos de vitória. A ela devemos
a destruição do nazismo. As histórias de Krushev sobre Stalin nunca
me convenceram. Com que prazer li no JB: "Comunistas soviéticos a
caminharem pela Praça Vermelha com o retrato de Stalin!" Agora, no
Canadá, o partido comunista está relançando uma série de livros sobre
a vida de Stalin, para reviver a idéia dele. Tudo que foi dito sobre
ele foi uma invenção do mundo capitalista. A revolução soviética foi
um acidente de percurso. A coisa vai mudar."
Não é mentira minha. Tudo isso está lá. É inútil tentar destrinchar
esse besteirol. Nenhuma das frases faz sentido. Noto, por exemplo, a
estranha contradição lógica entre dizer que a revolução foi um triunfo
e dizer que ela foi um acidente de percurso, sinal claro de que o cérebro
pouco privilegiado de Niemeyer está funcionando, aos 80 anos, ainda
pior do que de costume.
Mas vamos ao cerne do disparate: a defesa de Stalin e do stalinismo.
Alguém dirá que é leviano comparar o nazismo ao comunismo. Lembro, antes
de mais nada, que o nazismo era uma espécie de socialismo (Partido Nazista
é uma abreviação de Partido Nacional-Socialista, fato cuidadosamente
omitido em tudo que se escreve sobre o assunto). Lembro, ainda que a
Segunda Guerra teve como um de seus eventos iniciais o pacto entre Stalin
e Hitler a respeito da invasão da Polônia. Stalin, então, não demonstrava
absolutamente nenhuma antipatia pelo nazismo, muito pelo contrário.
Não tratarei da tolice muito repetida de que o nazismo só perdeu graças
ao socialismo, porque custaria muito espaço. Mas o ponto central é o
seguinte: Hitler matou, na pior das hipóteses, 6 milhões de pessoas.
Stalin confessou a Churchill ter matado pelo menos 60 milhões de pessoas.
Se alguém disser que não há diferença, que todo horror é igual, direi
apenas que esse alguém é um canalha. Quem não consegue perceber que
matar 60 milhões é muito pior que matar 6 milhões é um canalha, que
perdeu todo o senso das proporções. E eis o ponto central: esse número
veio da boca do próprio Stalin.
Aqui, o argumento comumente utilizado é que os 60 milhões morreram
por uma causa, enquanto os 6 milhões morreram pela demência hitlerista.
Longe de mim defender a demência hitlerista; os seis milhões são mártires
do nosso tempo e devem ser reverenciados. Mas os 60 milhões também.
Para Hitler, o judeu era a não-pessoa, era a encarnação do que devia
ser extirpado. Para Stalin, o inimigo do regime era a não-pessoa. Não
há nenhuma diferença significativa entre as duas opiniões. São ambas
frutos de mentes perversas. Mas Stalin foi mais longe, foi mais cruel,
matou muito mais pessoas. E – o que é pior – ainda encontra defensores
pelo mundo afora, em nome de uma causa. Ora, não há causa nenhuma
que justifique o assassinato em massa de tanta gente. Não há justificativa
possível para tantos horrores.
Deve-se acrescentar que é uma piada dizer que o comunismo matou tantos
por acidente. Seria o acidente mais catastrófico e estranho da história
humano. Mas não é acidente. Um acidente é algo sem o qual a coisa permanece
sendo o que é. Observem-se, porém, todas as manifestações do comunismo
no mundo, ao longo do século: nunca houve regime comunista sem derramamento
de sangue, sem assassinato em massa. A conclusão é simples: a violência
é essencial ao comunismo, nunca acidental. Sem a violência, os regimes
de Pol Pot, Stalin, Lenin, Mao, Fidel Castro etc. simplesmente não teriam
existido. Além disso, é uma bela contradição dos esquerdistas dizerem
que, apesar desses regimes, o ideal comunista continua imaculado, depois
de anos dizendo que a separação entre teoria e práxis era mero
formalismo burguês.
Tudo isso bem parece piada, mas é muito triste. O prestígio inalterado
do ideal comunista, depois de tanto morticínio, é um triste sinal das
conseqüências do domínio esquerdista nos meios produtores de opinião.
Que ninguém tenha falado nada contra o Niemeyer, que ele continue a
ser reverenciado como um velho sábio, é uma prova de que a opinião pública
brasileira, de tanta manipulação, tornou-se incapaz de medir as conseqüências
das palavras dos intelectuais, incapaz de perceber as coisas mais óbvias.
No meio da entrevista, o entrevistador, o prefeito de Niterói Jorge
Roberto Silveira, conta que Fidel Castro disse que ele (Fidel) e Niemeyer
são os dois únicos comunistas que restam no mundo. Torço para que isso
seja verdade, dada a idade provecta dos dois. Mas não é isso que importa:
o prefeito deixou sem explicação a frase, preferiu ocultar dos leitores
o porquê de Fidel ter dito isso. Alguém me contou a história inteira
outro dia, e vou repeti-la aqui: certa vez, um desses aviões de brasileiros
que vão a Cuba fazer oba-oba chegou à ilha no momento que estava havendo
uma execução de um inimigo do regime. Um repórter perguntou aos membros
da patota o que achavam daquilo; todos mostraram-se desconfortáveis,
tentaram sair pela tangente. Niemeyer, não. Niemeyer respondeu simplesmente
o seguinte: se o comandante achou certo, então era certo. Esse é o último
dos comunistas, disposto a sacrificar a verdade e os direitos humanos
pela autoridade estatal.
Não quero terminar sem citar outro trecho da entrevista. Niemeyer disse
o seguinte, logo depois de ter defendido a revolução armada no Brasil:
"Lógico que ainda acredito no comunismo. Não sou cretino.
É uma idéia que está no coração de todo mundo."
Um aparte: uma porcaria de idéia dessas não está no coração de todo
mundo, não. Está no coração apenas de uma elite estúpida que acredita
saber o que é melhor para os outros. Está no coração dos inimigos da
liberdade, dos assassinos em potencial.
Já dizia Nelson Rodrigues, em 1970: "Hoje, só por obtusidade córnea
ou má-fé cínica ou ambas se pode ter ilusões sobre a experiência socialista.
Outro dia afirmava um intelectual brasileiro: ‘a solução é o socialismo’.
Quem pensa assim e fala assim está na verdade propondo o pacto germano-soviético,
a divisão nazi-comuna da Polônia, o assassinato de 11 mil oficiais poloneses,
o esmagamento da Hungria e da Tchecoslováquia, a matança de milhões
de camponeses. E propondo também a internação nos hospícios dos intelectuais
recalcitrantes etc. etc. E, como o socialismo bate, vamos admitir que
os intelectuais socialistas daqui, do Chile, dos Estados Unidos, da
França e do resto do mundo gostam de apanhar."
Sim, senhor Niemeyer, o senhor é um cretino sim. É um cretino que defende
a extinção da liberdade de expressão, conquistada a duras penas. É um
cretino que confessa ser contra o Estado de Direito. É um cretino que
quer ver seus inimigos fuzilados. É um cretino que mora num dos mais
luxuosos apartamentos do Rio enquanto constrói Brasília para os outros.
É um cretino desonesto, que não hesita em mentir para defender o mais
cruel regime do século. É um cretino que se esquece de que, se hoje
você pode dizer suas abobrinhas na grande imprensa, é graças a essa
mesma democracia que você despreza.
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