A primeira parte saiu em anexo à "Idiotice da semana" de 16/05, o artigo "Fascismo anti-fascista".

A segunda parte saiu na semana seguinte, em anexo ao artigo "Una furtiva lacrima".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IMBECILIDADE PARTIDÁRIA

16/05/99

Eu jamais me perdoaria se deixasse sem menção honrosa a carta que um determinado leitor enviou a O Indivíduo esta semana. O leitor não se identifica. O nome no e-mail certamente não é o dele, porque é um nome de mulher. Vejam só a pérola enviada por esse anônimo brilhante (dei "copy+paste", isto é, esse é o e-mail tal qual ele o digitou):

Date: Sat, 15 May 1999 17:19:47 -0300
From: "Patricia Katayama Kjær" <patykjaer@oftalmo.epm.br>
X-Mailer: Mozilla 4.03 [pt] (Win95; I)
MIME-Version: 1.0
To: email@oindividuo.com
Subject: Que imbecilidade.
Content-Type: text/plain; charset=iso-8859-1
Content-Transfer-Encoding: 8bit

Sou partidário da direita, mas vocês são imbecis, pelamordeDeus.

Tire este site do ar antes que os petistas começem a ter mais razão do que vocês.

Eu acho que nunca, em toda a minha vida, recebi uma crítica tão profunda. Ela consiste, afinal, em me chamar (a mim e aos outros colunistas deste jornal) de "imbecil", e acrescentar uma estranha interjeição: "PelamordeDeus".

Mas eu encontro a explicação na única forma que o gênio usou para se identificar: "partidário da direita". Talvez ele imagine que eu me identificaria com ele, que começaria a chorar pelo "companheiro de ideologia" perdido, pelo "amigo do partido". Mas, evidentemente, não tenho partido nenhum, nem estou aqui para defender ideologia alguma. Porque "partidários" não gostam de argumentar, não gostam de discutir, não gostam de pensar por conta própria. Eles se reúnem em torno de uma meia dúzia de slogans imbecis (sejam eles "reforma agrária" ou "privatização") e dividem o mundo em "amigos" e "inimigos". Aos amigos, tudo; aos inimigos, a morte.

É precisamente por isso que o "partidário da direita" não discute O Indivíduo, mas apenas pede que o tiremos do ar. Ele está sendo fiel a sua causa, e os inimigos da causa devem ser suprimidos. Que O Indivíduo seja, pois, suprimido. É assim que pensam e agem totalitários, sejam da direita ou da esquerda, sejam fascistas ou comunistas. Agem suprimindo aqueles de quem não gostam, e tentando reinar absolutos. Graças a essas pretensões, o século que está prestes a acabar foi o mais sangrento e terrível da história humana.

Que isso sirva, também, para deixar um detalhe bem claro: não estou aqui para defender a direita, exatamente como não pretendo defender a esquerda. Um ato totalitário não se torna mais nobre por ter sido feito por Francisco Franco do que por Fidel Castro, exatamente como um ato de racismo não se torna justificável porque feito por um negro e não por um branco. Totalitarismo é totalitarismo, não importa a ideologia; racismo é racismo, não importa a cor.

A aventura intelectual, a busca da verdade, não é uma questão partidária. Uma coisa não se torna mais verdadeira por estar "à esquerda" ou "à direita". Se quisermos falar das coisas a sério, é melhor deixar de lado esse tipo de bobagem.

***

Semana passada publiquei nesta coluna a cartinha nada agradável de um leitor que se dizia "partidário da direita" e, certamente saudoso dos tempos dos líderes direitistas mais conhecidos e adorados, como Franco e Salazar, mandava que tirássemos O Indivíduo do ar.

Esta semana, o economista da PUC-Minas Cláudio Shikida nos enviou um e-mail em resposta ao tal direitista anônimo. Shikida é um economista bastante conhecido nos meios acadêmicos brasileiros, por ser um sujeito empenhado em fazer ciência econômica de verdade, e não em berrar palavras de ordem como os economistas midiáticos, da laia de dona Conceição Tavares e do doutor Emir Sader. Sua home-page (a principal delas) pode ser encontrada em http://gold.horizontes.com.br/~algeblin e quem quer que se interesse por economia não pode deixar de visitá-la.

A carta de Shikida mostra que nem só de idiotice vive o correio de O Indivíduo, e que há pessoas dispostas a ouvir opiniões diferentes das próprias – coisa essencial não só para a sobrevivência do regime democrático que tanto prezamos, mas também para a possibilidade de existência de um meio intelectual honesto. Aproveito ainda para agradecer aos leitores que têm enviado cartas de apoio e comentários interessantíssimos para o nosso e-mail; suas cartas são excelente estímulo para continuarmos nosso trabalho (e não se preocupem: as cartas idiotas também são estimulantes!). Eis a carta referida:

Date: Tue, 18 May 1999 16:39:37 -0300
From: Claudio Shikida
To: email@oindividuo.com
Subject: Identificado

Olá Alvaro,

Acabo de ler o mail no qual o tal direitista pede para tirar o site do ar. Estou, portanto, enviando este para pedir que vocês não o tirem do ar (quem sabe minha ameaça não tem a mesma forca?). Afinal, eu gosto de ler "O Indivíduo", não acho seus autores imbecis e gosto de ler os comentários, embora nem sempre concorde com eles.

Suspeito ate que o indivíduo (ops!) que enviou o mail seja de esquerda e, utilizando-se da velha tática de confundir a informação, queira fazer barulho.

Assim, novamente: não tirem o site do ar! Ou melhor, poderíamos publicar assim: "sou de esquerda, desiludi com tanta bobagem, não sou de direita e quero ter o direito a pensar. Por favor, mantenham o site no ar!"

Abraços
Cláudio

--

shikida@unix.horizontes.com.br (home)
cds@pucminas.br (office)

http://gold.horizontes.com.br/~algeblin
PUC-Minas (Pontifical Catholical University of Minas Gerais)
ICEG/Department of Economics