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NAZISTAS BABANDO EMBAIXO DA
CAMA
05/01/99
Imagine o leitor que Leandro Konder publique um livro sobre o senso
estético de Stálin. Imagine que, nesse livro, o venerável
"filósofo" puquiano dissesse que Stálin tinha
um belo gosto para pinturas e que, no fim das contas, o realismo socialista
era mesmo muito legal.
Imagine, agora, que alguém escrevesse uma resenha sobre o livro
de Konder e dissesse o seguinte: "nesse livro, o professor Konder
tenta legitimar os crimes de Stálin". O que é que
você, leitor, ia pensar do crítico? No mínimo, que
ele não sabe ler, certo?
Pois bem: Leandro Konder acaba de fazer exatamente a mesma coisa que
esse crítico imaginário. Com a diferença de que,
se alguém fizesse isso com o Konder, todo o establishment
gramsciano ia sair em sua defesa, mas, como foi o Konder que fez, ninguém
fala absolutamente nada.
Pois vejam o que disse o professor em seu artigo no jornal O Globo
de domingo, 03/01/99:
"Em seu livro, John Lukács sugere que
Hitler tinha qualidades próprias, e não apenas aquelas
que o povo via nele, como o gosto estético e a boa oratória.
Esse tipo de revisionismo é muito perigoso e pode legitimar crimes
passados."
Agora, pensemos um pouco: dizer que alguém tem "boa oratória"
quer dizer que todos os crimes desse fulano são desculpáveis?
Quer dizer que, se um sujeito acha que Hitler falava bem, isso imediatamente
implica que esse sujeito legitime qualquer ato de Hitler?
Isso é um raciocínio incrivelmente maluco. Imagino que
o prof. Konder desculpe todos os crimes de Fidel Castro porque a música
cubana é muito boa, ou porque os charutos cubanos são
bons – claro, se os critérios que ele usa para julgar os outros
autores também são válidos para ele.
Mas vamos tentar esclarecer as coisas: o livro de Lukács (o
historiador, não o pensador) chama-se O Hitler da história
e foi lançado no Brasil há alguns meses pela Jorge Zahar.
Nesse livro, ele faz uma espécie de compilação
dos diversos trabalhos sobre Hitler que saíram nos últimos
anos, e tenta fazer uma síntese. Se ele é bem sucedido
ou não, é outra história. O ponto é: o livro
não tem nada de revisionista.
Revisionistas são certos historiadores que procuram negar a
existência do Holocausto, ou pelo menos reduzir as proporções
desse fato. Isso, o Lukács não faz em seu livro. Muito
pelo contrário: o livro faz duras críticas a um dos principais
historiadores revisionistas, o inglês David Irving (autor de Hitler’s
War). Irving é, inclusive, chamado de "historiador",
entre aspas, por Lukács, e tem a sua credibilidade constantemente
questionada. Por causa disso, aliás, Irving está ameaçando
processar Lukács, caso o livro seja lançado na Inglaterra.
Agora, vejamos uma coisa: se um dos principais revisionistas está
processando o autor de O Hitler da história, como diabos
este pode ser um livro revisionista?
E mais ainda: o único argumento de Konder é que o livro
de Lukács diz que Hitler tinha algumas "qualidades próprias".
É de se supor que, não sendo Hitler a encarnação
do Diabo, ele tenha tido pelo menos algumas míseras qualidades
mesmo. O vampiro de Dusseldorf também dava bom dia aos vizinhos,
Mussolini tocava violino. O esteticismo de Hitler é, aliás,
característico de tiranos. E, a não ser que se suponha
que quase todos os alemães são imbecis, é lógico
que alguma qualidade o cara tinha que ter. É óbvio, por
exemplo, que a sua oratória inflamada atraía e eletrizava
as multidões – do contrário, ele não teria feito
tanto sucesso.
Reconhecer isso não é legitimar os crimes de Hitler,
muito menos legitimar o próprio nazismo. Dizer que alguém
expõe bem certas idéias não é dizer que
essas idéias são boas. Essa distinção é
tão evidente, tão óbvia, que alguém que
não a perceba só pode sofrer de séria disfunção
mental.
Que um tal cretino seja um dos principais expoentes da esquerda brasileira,
eis aí um escândalo de altas proporções:
aqueles que se propõem a dirigir nossa cultura, a influir na
nossa política e a nos dizer o que fazer são os mesmos
que ouvem um imbecil desses como se fosse um santo! (Informo, inclusive,
que acaba de ser realizado, num lugar perto do Rio de Janeiro, um seminário
sobre "vida e obra do filósofo Leandro Konder")
Que respeito esperam que eu tenha por gente desse calibre? Como respeitar
alguém que confunde o valor das palavras com a ênfase usada
para dizê-las? Como respeitar alguém que julga que atribuir
bom gosto estético a um político é o mesmo que
legitimar suas idéias? Não, me desculpem, mas não
é possível.
Há, ainda, dois outros aspectos estranhos nessa história.
O primeiro é que todas as informações sobre a briga
entre Irving e Lukács estão disponíveis na internet.
Será que o prof. Konder nunca se interessou em procurá-las?
Para que será que o prof. Konder usa a internet? Será
que ele não se informa sobre os assuntos de que trata, confiante
em que todos tomarão sua palavra como verdade absoluta? (E não
me digam que ele está velho demais para usar a internet: até
ICQ o cara tem.) Isso, aliás, é uma bela amostra do grau
de desinformação do intelectual brasileiro médio.
O outro é que, se o livro de Lukács realmente contivesse
ofensas ao povo judeu, os judeus já o teriam percebido e teriam
protestado, há muito tempo. Ou será que Konder acha que
é mais inteligente e esperto do que todos os judeus? Será
que ele acha que os judeus precisam dele para descobrir o inimigo? Ou
será que ele quer, simplesmente, chamar a atenção
para um perigo inexistente enquanto os existentes passam incólumes
– assim como o lobo se disfarça em pele de ovelha?
Não: prefiro afastar essas conjeturas. Seria, enfim, muita arrogância
de um pobre professor do departamento de Educação da PUC-Rio
(mesmo que, por razões que ignoro, ele se auto-intitule "filósofo").
Por outro lado, a burrice arrogante também tem sido uma marca
constante de nossos intelectuais... É, talvez seja melhor não
fazer conjeturas mesmo. Eu posso acabar descobrindo que elas são
verdadeiras.
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