Leia o artigo criticado, e a versão deste artigo em carta para a "Folha de São Paulo".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OS RISOS DO IZQUIERDO

29/04/98

Como os companheiros políticos do sr. Izquierdo ainda não conquistaram o poder, podemos rir dele, quer ele goste ou não. É que o humorismo involuntário é o estilo preferido dos nossos intelectuais, classe na qual os Izquierdos predominam, com a maior sisudez e a maior cara de pau.

Pretende o programa do Izquierdo, antes de mais nada, que o Judiciário sirva apenas como instrumento da "justiça revolucionária". Esse negócio de lei é apenas fruto da superestrutura capitalista, serve só para dominar e proteger meninos assassinos. Portanto, para opinar no resultado de um processo, não é preciso conhecer os autos, nem ouvir depoimentos, muito menos consultar os códigos legais. Basta que os revolucionários leiam os jornais e formem sua opinião sobre o caso. O juiz deve, para ser "justo", seguir essa opinião. Em outras palavras: neurologistas como o sr. Izquierdo passam, a partir de agora, a constituir os repositários do supremo saber jurídico nacional.

Depois, vamos controlar a vida dos cidadãos por meio de uma... lei. Ué? Estranho: a lei não podia ser atirada pela janela sem pudores? Os juízes não tinham sido rebaixados de função? Ah, mas os Izquierdos escondem os cadáveres de 20 mil cubanos embaixo de 200 brasileiros: para eles tudo é possível, menos a coerência lógica, essa desprezível invenção burguesa. Por isso, com a mesma cara de pau, o sujeito agora se põe a defender um código de trânsito repressivo até não mais poder, uma limitação abusiva da liberdade individual, que regula até por onde cada um deve andar. E faz isso em nome do "respeito à lei", a mesma lei sobre a qual ele opina com o maior desprezo no parágrafo anterior. Literalmente, fantástico.

Mas eu já ia me esquecendo: quem faz a lei é o tribunal revolucionário, não é mesmo? Então, vale o que o seu mais novo representante prega: il est assez que Izquierdo l’ait dit.

E ele continua, em sua sanha legislativa, executiva e judiciária ao mesmo tempo. Chama José Serra de "subeconomista", com a evidente autoridade de um neurologista que tudo entende de economia e que tem em sua profícua mente a solução para todos os problemas da Saúde. [nota bem posterior: Neste ponto, pelo menos, o Izquierdo tinha razão. Zé Serra é um subeconomista]

Passa de economista e ministro a crítico televisivo, no próximo instante, e, além de argumentar contra a cultura nacional como um todo, faz duras críticas ao Casseta & Planeta. Ora, sr. Izquierdo, bem sei que o senhor é um grande humorista, seu artigo o prova, mas os caras do Casseta & Planeta são muito bons também. Estamos numa democracia, há lugar para todos. Ou não?

A resposta dele é, decisivamente, não. O riso também é propriedade da justiça revolucionária e de seu representante. Só podemos rir do que ele permitir. Encarar os problemas com bom humor é expressamente proibido, sob pena de sermos condenados pelo sr. Izquierdo, sem direito a defesa.

Da mesma forma como ele condena uns garotos irresponsáveis que disseram que gostam de Hitler, em Porto Alegre. Aqui eu devo protestar: defendo meu direito de gostar do Conde Drácula, da mesma maneira como os Izquierdos podem dizer que gostam de Stálin, Lênin, Mao, Castro, Pol Pot e do papai Smurf, herr Karl. Mas eu não pretendo sair por aí mordendo pescoços, nem os meninos pretendiam implantar o nazismo no país, enquanto os Izquierdos nunca esconderam sua vontade de pôr em prática os métodos de seus chefes supremos - e o artigo dele é mais uma prova irrefutável disso.

Mas ele acha que a sociedade brasileira tem como herói um porco anti-semita, odiento inimigo dos judeus. Acha que só porque uma cidade tem uma praça com nome de alguém, é porque esse alguém é herói nacional. Pois bem: aqui no Rio tem uma praça Sibelius, e não me consta que 99% da população carioca conheça o grande compositor finlandês. Da mesma forma, é simplesmente uma mentira que o Brasil tenha tido uma política anti-semita. Essa mentira foi difundida por uma pesquisa pretensamente científica de um historiador judeu há algum tempo. A pesquisa não leva em conta, porém, os dados históricos da época. Se levasse, perceberia que, de todos os países, o Brasil foi um dos que mais recebeu judeus e - mais ainda - que deu a eles uma aceitação melhor. Dois grandes sociólogos - Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro - são unânimes em apontar a tolerância racial como um dos fatores componentes da identidade brasileira - essa mesma que os intelectuais Izquierdos tanto detestam e tanto querem mudar na marra.

Mas eles são impassíveis a qualquer apelo moral, a qualquer exame de consciência. Querem apenas, a qualquer custo, reformar a consciência alheia, de acordo com seus próprios padrões mentais. O artigo do Izquierdo é um excelente exemplo do quanto essa gente se arroga o monopólio do bem e de como cometerão qualquer absurdo para defender sua ideologia totalitária.

E o artigo também fornece uma excelente síntese do pensamento Izquierdista, pois, afinal, o nosso neurologista é economista, sociólogo, humorista, jurista, tudo ao mesmo tempo. Suas teses se coerem num parâmetro principal: importa, acima de tudo, o que o tribunal revolucionário diz que importa. Se para realizar isso temos que passar por cima da lógica elementar, das leis, da liberdade individual, da verdade histórica, do senso de proporções, não importa, vamos passar.

Eu sei que todo esse quadro é muito engraçado e muito ridículo. Mas quando os imbecis conquistam o poder político, passamos a depender deles. E quando além de imbecis são totalitários, as coisas começam a ficar muito sérias. E aí os nossos risos de agora podem acabar se tornando crimes inafiançáveis, a ser pagos com nossos cadáveres. E disso o Izquierdo vai rir...