Curiosamente, um ano e meio depois, o mesmo governo que Sader critica como "direitista" adotou um dos programas comunistas preconizados por ele nesse artigo: o fim do sigilo bancário. E fê-lo por ordem do FMI, que considera inadmissíveis as taxas de evasão fiscal brasileiras!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SALVE-SE QUEM PUDER: EMIR SADER E O ESTADO DE DIREITO

22/06/99

Alguém que pretenda desmascarar a idiotice e a falta de vergonha na cara dos intelectuais brasileiros não vai nunca ficar sem assunto. Praticamente todo dia, em todos os órgãos de imprensa, sempre há alguém desfilando bobagens na maior cara de pau - e, como o respeito a qualquer palhaço diplomado se tornou quase uma obrigação em nosso país, quase nunca há alguém para dizer, simplesmente, que o rei está nu.

Um dos palhaços diplomados preferidos da mídia é o dr. Emir Sader, que mostra sua imutável cara de pau nos telejornais da Globo News, e lança suas bobagens nos jornais O Globo e Folha de São Paulo, na revistinha fidelista Caros Amigos e no inacreditável website Correio da cidadania.

O prolífico sociólogo publicou no jornal O Globo (18/06), que está se tornando um órgão de divulgação comunista, um artigo em que defende a mais velha mentira da esquerda brasileira: sua superioridade moral em relação à "direita" (que direita? Ah, vão perguntar pro Sader...).

Vou tentar comentar o artigo, seguro de que não estarei à altura de tão alta criação de uma mente incrivelmente confusa. Sob o título O privado e o público na democracia, eis algumas das palavras do sociólogo:

"As escutas telefônicas e o segredo bancário voltam à tona. Parece que se pode tudo, menos escutar conversas de pessoas com funções públicas sobre temas de interesse público e controlar contas bancárias de que, se supõe, todas as entradas e saídas deveriam ser legais e conhecidas do fisco. Pode-se negar o direito ao trabalho aos que desejam trabalhar, pode-se permitir o fechamento de leitos em hospitais e salas de aula em escolas, de empresas e entidades culturais. Tudo é possível, menos deixar de cumprir com o FMI e o capital especulativo internacional, além de saber o que as mais altas autoridades públicas conversam sobre os bens públicos com empresários privados ávidos de botar as mãos nesses bens e de controlar movimentos bancários das pessoas."

É, eu sei: trata-se de um tal amontoado de manipulações semânticas, de pressupostos ocultos falsos, de saltos lógicos indevidos, de incoerências, de deduções absurdas, que a mente humana quase se recusa a registrá-lo. Ficamos pensando como alguém pode viver tão solidamente instalado na falsidade, a ponto de não conseguir dizer uma única palavra verdadeira num parágrafo inteiro de texto.

Tudo bem: talvez a primeira frase seja verdadeira. Realmente, os grampos e o sigilo bancário voltaram à tona - mas notem como Sader sutilmente muda os nomes como essas práticas são conhecidas, e como em sua nominação já há uma valoração. O termo "grampo" normalmente assume conotações pejorativas; Sader muda-o para "escutas", tentando limpar a cara dos arapongas. O termo "sigilo" costuma dar um certo ar de respeitabilidade ao direito de o cidadão não ter nenhum burocrata bisbilhotando suas transações bancárias; Sader o substitui por "segredo", que dá um ar misterioso, como se as contas bancárias referidas escondessem milhares de atos escusos, cuidadosamente mantidos em segredo(1).

E na próxima frase ele já mostra por que operou esse sutil truque semântico (e, admitamos, Sader tem muito talento para a charlatanice): ele é a favor da escutas telefônicas e a favor da quebra do sigilo bancário. Ele não contextualiza, mas prefiro não pensar que o ilustre sociólogo seria a favor de que todos os cidadãos brasileiros saíssem grampeando uns os telefones dos outros, nem de que o Estado meta a pata na privacidade das pessoas a ponto de controlar todas as suas movimentações bancárias. Prefiro pensar que Sader refere-se exclusivamente aos casos da conversa do Presidente Fernando Henrique Cardoso e dos banqueiros perseguidos pela CPI dos bancos.

Bom, o grampo - contra Fernando Henrique ou contra quem quer que seja - atenta contra preceitos previstos na Constituição Federal. O sigilo bancário também é um direito constitucional, que só pode ser quebrado em poucas hipóteses, e nunca diretamente pela CPI. No caso específico, o Supremo deu uma liminar impedindo a quebra do sigilo bancário pela CPI, o que está de acordo com o defendido por qualquer constitucionalista, já que a infração a direitos individuais é uma exceção e, como tal, só pode acontecer nos casos expressamente previstos na lei, que não incluem quebra por CPIs - o que, aliás, é ótimo, porque deixar um foro político e sujeito a paixões e estrelismos como a CPI infringir direitos individuais seria loucura.

Isso é só para dizer que existe um certo consenso a favor do sigilo bancário e contra os grampos. E é fácil para qualquer um ver que esses são direitos importantes para manutenção da democracia e dos direitos individuais. Ora, qualquer opinião que vá contra um consenso previamente estabelecido precisa, no mínimo, dar boas justificativas para isso. O que se pode esperar e exigir do artigo do Sader é essa justificativa. Afinal, o que é que o dr. Emir Sader tem contra o Estado de Direito?

Ele até começa a oferecer tal justificativa nesse primeiro parágrafo. Mas é a coisa mais bisonha do mundo, um non sequitur. Ele lança um monte de problemas brasileiros, como se fossem crimes. Mesmo que fossem, quem diabos disse que só porque alguns cometem alguns crimes, o sr. Emir Sader pode defender outros crimes? Quer dizer, é a apologia do liberou geral? Vale tudo? Se tem desemprego, tem de ter grampo e não tem de ter sigilo bancário? Onde é que já se viu uma maluquice dessas?

Mais maluca ainda é a maneira como Sader descreve o desemprego: "pode-se negar o direito ao trabalho aos que desejam trabalhar". Podem rir. É para rir mesmo. Quer dizer, o desemprego é fruto de maquiavélicas decisões, talvez do Governo, talvez dos empresários. E eles estão cometendo o crime de não deixar as pessoas trabalhar. E o sujeito lança uma acusação absurda dessas numa pequena frase que, no meio de tanta bobagem e com o estilo sentimentalóide em que o sociólogo é especialista, acaba passando por verdade auto-evidente.

Mas ele continua. E encontra o culpado de sempre: o FMI. Ninguém pode grampear o presidente porque o Governo precisa cumprir o plano do FMI. O que diabos uma coisa tem a ver com a outra? Alguém aí é capaz de me dizer qual é a relação entre FMI e o grampo do Presidente?

Ah, mas Sader encontrou uma relação. Ele construiu uma rede de analogias distantes, a fim de explorar a indignação dos leitores com os absurdos da realidade brasileira e, assim, conquistar sua adesão à defesa de um crime e de uma violação de direitos. E isso é realmente convincente, para quem lê com a emoção e não analisa as palavras do artigo. Aí, até botar o FMI no meio passa a valer...

No outro parágrafo, ele volta a usar o argumento do liberou geral:

"Tudo é violável - a integridade física das pessoas, as casas, os corpos - menos a conta bancária e a privacidade das pessoas eleitas para zelar pelos bens públicos."

Sinto-me meio ridículo ao ter que explicar que o fato de alguns assassinarem não justifica que outros estuprem; que o fato de alguns dizerem calúnias não justifica que outros cometam latrocínios - e assim por diante. Mais absurdo ainda é dizer, quando a Justiça faz valer um determinado direito, que isso está errado porque a Justiça não resguarda outros direitos. Como é que alguém pode usar um dos maiores jornais do país para defender um argumento desses é que eu simplesmente não consigo entender.

Só que o ridículo cresce. No terceiro parágrafo, Sader defende princípios morais absolutos, invocando a autoridade de Kant. Imaginem só um comunista, paladino da relativização de todos os valores, adepto do historicismo, defendendo uma moral supra-histórica e absoluta? O que é isso? Um ET?

Não, é a cara de pau do dr. Sader. Ele, que nunca fez um mea culpa pelos milhões de vítimas que sua ideologia fez ao longo do século; ele, um defensor de um dos regimes mais tirânicos e assassinos do mundo hoje, o de Fidel Castro, tem a cara de pau de vir cobrar moralidade dos outros.

E não é só nesse artigo, não. O mesmo jornal O Globo noticiou logo depois que Sader está organizando uma série chamada "Pecados do Capital", sobre os "pecados" do capitalismo. Serão sete livros, escritos por sete adoradores de Fidel, entre os quais o próprio Sader, o dr. Boff, a psicanalista da Playboy Maria Rita Kehl, pseudofrei Bettinho e Ferreira Gullar, que é o último comunista talentoso do país, e deve ter sido incluído para que a série não seja uma vergonha total.

Pode até não ser vergonha, mas muita cara de pau, é sim. Essa legião de apologistas do totalitarismo denunciando os supostos pecados dos outros é uma coisa um bocado nojenta. Mas ninguém se espanta, porque décadas de dominação esquerdista nos meios de comunicação já fizeram todo mundo aceitar como a idéia mais normal do mundo a superioridade moral da esquerda.

A superioridade moral dos apologistas de uma ideologia que matou mais de 100 milhões de pessoas. A superioridade moral dos adoradores de Karl Marx, um sujeito mentiroso que usou estatísticas antiquadas em seu livro para tentar mostrar que o capitalismo era bem pior do que realmente era (2). A superioridade moral de uma facção representada por um sujeito que não hesita em usar os argumentos mais malucos para defender o fim do Estado de direito. Ora, tenham a santa paciência!

Volto, pois, ao artigo desse inacreditável dr. Emir Sader. Vamos deixar um ponto bem claro: a alegação de que existem interesses públicos no grampo contra o presidente não procede. Primeiro, porque um presidente não deixa de ter seus direitos individuais (entre os quais, o direito à privacidade) só porque é presidente; segundo, porque o grampo em questão dizia respeito a uma conversa privada do presidente; terceiro, porque o presidente não era parte neutra na privatização em questão, mas parte interessada em obter o maior preço possível; quarto, porque a empresa supostamente favorecida perdeu o leilão. Vale acrescentar que o grampo em conversas de homens públicos atenta contra a soberania do Estado; se o Estado não tem soberania, seu patrimônio também não vale mais nada, porque a própria idéia de Estado nacional foi minada. Que um sociólogo venha a público fazer apologia de um crime desses seria escandaloso para qualquer um, se as consciências não estivessem entorpecidas pela supramencionada retórica esquerdista.

Sader ainda culpa as privatizações pela falta de transparência nos negócios públicos - só não sei como é que os problemas dentro de uma empresa privada podem ser falta de transparência do Estado. Sei, sim, que as estatais são notoriamente pratos cheios para falcatruas, mamatas, e todo tipo de crimes. Isso não é novidade para ninguém. Novidade é que a privatização do Estado aumente a corrupção do próprio Estado, por concentrá-lo nas mãos de empresas privadas - privatizar, afinal, não é deixar o Estado nas mãos de particulares, e sim tirar certas áreas do controle do Estado (essa é a confusão implícita no raciocínio de Sader, confusão que faria corar um calouro de ciências políticas, a não ser que o calouro fosse aluno de Sader na UERJ...).

Até agora, o sociólogo só conseguiu convencer os néscios de que os grampos contra presidentes devam ser legalizados. Mas ele tenta, uma última vez, desesperado:

"Os que tentam amalgamar esse tipo de escuta telefônica com o controle dos cidadãos - de cada um de nós, dos movimentos sociais, dos que se rebelam contra a sociedade mais injusta do mundo - estão agindo de má fé."

Se ele fosse capaz de elevar a voz, já daria para imaginarmos o dr. Sader empolgado, berrando, num comício no meio de UERJ, entre líderes do PSTU e do Sindicato dos Servidores Públicos, "nós somos os que se rebelam contra a sociedade mais injusta do mundo"! Heróico, muito heróico. Uma beleza. Mais linda ainda é a identidade que ele estabelece entre o termo "cidadãos" e os "que se rebelam". Quer dizer, quem não quer o comunismo não é cidadão? Quem não aderiu ao MST está excluído da cidadania?

Enquanto se mantém um arremedo de ordem democrática, não. Mas quando Sader tomar o poder, certamente sim. O projeto de sociedade de que ele fala com tanto orgulho no parágrafo final (3) nada mais é do que o velho projeto do idiota latino-americano: transformar os demais países em Cuba. E, exatamente como em Cuba, aos dissidentes, só restará fugir para Miami ou ficar e ser torturado até morrer. O século XX foi repleto de realizações desse tipo de projetos, e, no que depender de Emir Sader e seus coleguinhas, o Brasil entrará no século XXI como palco para mais um desses experimentos monstruosos.

Agora, ficou fácil entender o que é que o dr. Emir Sader tem contra o Estado de direito. Salve-se quem puder.

 

NOTA:

(1) Usei os termos "costuma" e "normalmente" porque as palavras não têm uma conotação colada nelas; a conotação varia conforme o contexto, que define a conotação em que o termo normalmente é entendido num determinado momento do uso da língua. Os sentidos que atribuo às palavras nesse parágrafo, evidentemente, são os sentidos normalmente usados nas matérias da imprensa brasileira sobre os grampos e as quebras de sigilo bancário. Voltar

(2) Vide o capítulo sobre Karl Marx do livro do Paul Johnson, Intelectuals, que já devo ter mencionado algumas várias vezes aqui. Voltar

(3) "Um projeto que quebre a hegemonia do capital financeiro na economia favorecendo uma retomada do desenvolvimento voltado para o mercado interno de consumo popular, com privilégio das políticas sociais, com uma política internacional independente das alianças dos países excluídos dos três megamercados mundiais, com promoção da pesquisa, da educação e da cultura, para reafirmar uma identidade nacional e popular no nosso país." - Cada item desse credo mereceria um artigo, mas não vale a pena: é só um palavrório vazio que tenta mascarar a apologia do totalitarismo; basta ver que esses termos poderiam perfeitamente definir o regime cubano. Voltar